O extremo que despontou no Boavista e ganhou uma Taça pela Académica. Quem se lembra de Diogo Valente?
Diogo Valente foi futebolista profissional ao longo de 23 anos
Portista ferrenho desde pequeno, mostrou-se
na I
Liga ao serviço do Boavista,
que o catapultou para as seleções jovens. Chegou ao clube do coração, foi
campeão, mas pouco jogou. Depois ajudou o Leixões
a ser a surpresa da época 2008-09, foi vice-campeão nacional pelo Sp.
Braga, ganhou uma Taça
de Portugal pela Académica
e ainda se aventurou na Roménia, na Turquia e nas divisões secundárias
portuguesas antes de colocar um ponto final à longa carreira em 2026, aos 41
anos.
Extremo esquerdino nascido a 23 de
setembro de 1984 em Aveiro, fez grande parte da formação no Beira-Mar,
mas concluiu-a no Boavista,
tendo integrado a equipa júnior dos axadrezados
campeã nacional da categoria em 2002-03. Quando transitou para sénior, em
2003-04, começou por ser emprestado ao Desp.
Chaves, então na II
Liga, mas depois voltou ao Bessa para se afirmar. Em dois anos na equipa
principal dos boavisteiros
somou 49 jogos e oito golos.
As boas atuações valeram-lhe as
primeiras chamadas à seleção
nacional de sub-21, incluindo a convocatória para a fase final do Europeu
da categoria em 2006, e o salto para o FC
Porto. “Foi a realização de um sonho. Era portista ferrenho desde pequeno.
Por outro lado, foi deixar um clube muito importante no meu percurso profissional,
o Boavista,
onde terminei a minha formação e onde era um menino querido. Tive muito sucesso
lá, fui revelação e despertei o interesse dos grandes”, recordou ao jornal A
Bola em abril de 2026. No entanto, encontrou concorrência
pesada no Dragão:
Ricardo
Quaresma, Tarik
Sektioui e Lisandro
López. Além disso, chegou sem o ritmo desejado, porque praticamente não foi
opção nos últimos meses de Boavista
desde que se comprometeu com o FC
Porto em janeiro de 2006; e havia sido contratado por indicação de Co
Adriaanse, treinador neerlandês que saiu ainda na pré-época por
divergências com a direção liderada por Pinto
da Costa, e não foi alvo de aposta por parte do sucessor, Jesualdo
Ferreira. Após apenas um jogo oficial na
primeira metade da época 2006-07, curiosamente num clássico diante do Sporting
– o suficiente para ter sido considerado campeão nacional no final da temporada
–, foi emprestado ao Marítimo
em janeiro de 2007, mas ao fim de mês e meio nos Barreiros, quando levava seis
jogos e um golo pelos insulares,
sofreu uma grave lesão muscular na coxa esquerda que o afastou dos relvados
durante mais de nove meses.
Quando voltou a jogar, fê-lo já na
condição de jogador do Leixões,
clube que representou durante duas temporadas, a primeira por empréstimo do FC
Porto e a segunda já como futebolista leixonense a título definitivo. Se em
2007-08 alternou entre a titularidade e o banco de suplentes, na época seguinte
foi um dos indiscutíveis para José
Mota, ajudando os bebés
do Mar a alcançar um honroso sexto lugar na I
Liga, a cinco pontos dos lugares europeus.
Depois de 55 jogos e sete golos
pelo Leixões,
deu o salto para o Sp.
Braga no verão de 2009, tendo feito parte da equipa de Domingos
Paciência que se sagrou vice-campeã nacional, embora não tivesse ido além
de 13 partidas em todas as provas. “Cheguei a um Sp.
Braga muito forte, com uma base deixada pelo Jorge
Jesus. Tínhamos uma excelente equipa e lutámos pelo título até à última
jornada com o Benfica.
Foi uma época em que comecei a jogar, depois tive uma lesão... Foi oscilante
para mim. O Sp.
Braga já tinha uma estrutura muito profissional e organizada, muito
semelhante à do FC
Porto”, recordou ao jornal A
Bola. Seguiram-se dois anos na Académica,
clube no qual foi orientado por dois antigos centrais do FC
Porto, Jorge
Costa (primeiro) e Pedro
Emanuel (depois). “Fiz uma boa época em Coimbra [em 2010-11], conquistei as
pessoas e fui feliz. Consegui voltar a mostrar o meu valor, senti que precisava
de mais uma época ali. Acabei por ficar e foi das melhores da minha carreira”,
lembrou, em alusão à conquista
da Taça de Portugal em 2012. “Foi, foi a maior conquista da minha carreira.
Marcou-me muito por tudo: pela época que fiz, pelo grupo fantástico que
tínhamos e por todos os momentos que vivemos na Taça.
Foi especial”, acrescentou.
O jogo do Jamor foi o último do
contrato de Diogo Valente, que ficou livre para assinar pelos romenos do Cluj,
que lhe deu a oportunidade de jogar na Liga
dos Campeões. No entanto, só chegou a atuar 13 minutos na prova. “O Cluj é
um clube grande, ao nível dos nossos três grandes em termos financeiros, mas
depois falha muito a nível organizacional. Lembro-me de que íamos jogar o
primeiro jogo da fase de grupos da Champions
contra o Sp.
Braga e, 15 dias antes, o clube não tinha fatos para os jogadores. Então
fomos divididos em grupos e mandaram-nos à Zara comprar fatos e tirar medidas.
Uma equipa que ia jogar a Liga
dos Campeões a ir à Zara tirar medidas... surreal”, recordou.
Embora tivesse mais dois anos de
contrato com o Cluj, só passou uma época na Roménia, na sequência de
desinvestimento no plantel após o não apuramento para as competições europeias.
Apesar do interesse do Estoril
de Marco Silva, o “coração falou mais alto” e fê-lo voltar à Académica,
por empréstimo. No regresso a Coimbra apanhou Sérgio
Conceição, um treinador “extremamente exigente e obsessivo pelo sucesso”, o
que causou atritos porque “os objetivos da Académica
não são os mesmos do FC
Porto”. “Tive muitas pegas com ele, mas sempre com muito respeito e com uma
ótima relação. Foi um treinador com quem tive uma evolução muito grande aos 28
anos, a nível tático e de rigor, quando já tinha oito anos de I
Liga. Senti que, para estar ao alto nível, o jogador tem de ser assim. A
partir daí, ativei ali um chip de competitividade, ética e capacidade de
trabalho que, sem dúvida, foi o segredo para esta minha longevidade”, confessou
o extremo. Por sentir que já não estava ao
seu melhor nível, decidiu não continuar em Académica,
“para não prejudicar a boa imagem que tinha em Coimbra”, e rumou ao Gil
Vicente, também por empréstimo do Cluj. A experiência em Barcelos, porém,
correu muito mal. Tudo porque o clube romeno entrou em insolvência, o que gerou
no emblema de Barcelos dúvidas sobre a legalidade do contrato de empréstimo.
Receando um novo Caso Mateus, os gilistas
não quiseram correr riscos e afastaram Diogo Valente do plantel a partir de
fevereiro, tendo-o chegado a impedir de frequentar as instalações do clube.
Seguiu-se uma temporada no Sanliurfaspor,
da II Liga da Turquia. Chegou a ter uma proposta de renovação, mas não aceitou,
e na fase final da época sofreu uma lesão e aí foi o clube que já não quis
renovar.
Mais uma vez livre, reentrou no
futebol português pela porta do Freamunde,
da II
Liga. Embora se tivesse comprometido com os capões
em setembro de 2016, só foi inscrito em janeiro de 2017 e mostrou-se impotente
para impedir a despromoção ao Campeonato
de Portugal.
Depois voltou ao distrito
de Aveiro para representar a Oliveirense,
também do segundo
escalão. Na primeira época em Oliveira de Azeméis, 2017-18, apontou nove
golos e ajudou a equipa a atingir as meias-finais da Taça
da Liga. “Essa época foi muito boa. Em termos de números, foi a época em
que fiz mais golos na carreira. Foi algo que faltou um pouco no meu percurso.
As pessoas sempre reconheceram a minha qualidade, mas sinto que se tivesse sido
mais goleador teria atingido outro nível”, reconheceu, admitindo que era melhor
a cruzar: “Só um é que cruzava melhor, o meu ídolo, o Drulovic. Esse sim,
cruzava melhor, era imbatível.”
Os derradeiros sete anos do seu
percurso como futebolista profissional foram passados nas divisões não
profissionais, dois ao serviço do Sp.
Espinho (2019 a 2021) e os últimos cinco com a camisola do Salgueiros
(2021 a 2026). “Foi numa altura em que ponderei terminar a carreira. Tinha
dúvidas se teria motivação para andar em escalões mais baixos. Mas na altura
pesei tudo. Fisicamente sentia-me bem, adorava futebol e o treino ainda me dava
um prazer enorme. Muitos colegas perguntavam-me se eu tinha necessidade de
continuar a jogar, mas a verdade é que a paixão era muito grande. Se parasse,
ia fazer o quê? Nós andamos na vida para sermos felizes e eu era feliz a jogar
e, por isso, não fazia sentido parar”, confessou Diogo Valente, que teve um
final de carreira que nunca imaginou “ser tão feliz”. “Vivi momentos muito
bons. Faltou apenas a tão ambicionada subida de divisão [à Liga 3]”, frisou.
No final da época 2025-26 decidiu
pendurar as botas, aos 41 anos.
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