Hoje faz anos o “Labreca” que esteve no título do Boavista e em grandes jornadas da seleção. Quem se lembra de Ricardo?
Ricardo somou 79 internacionalizações pela seleção A
Foi campeão pelo Boavista,
finalista da Taça
UEFA pelo Sporting
e finalista do Euro 2004
e semifinalista do Mundial
2006 pela seleção
nacional. Especialista a defender penáltis e com qualidade a jogar com os
pés, foi um dos mais marcantes guarda-redes portugueses de sempre.
Ricardo Alexandre Martins Soares
Pereira nasceu a 11 de fevereiro de 1979 no Montijo, filho de pai camionista e
mãe empregada de escritório, e começou a jogar futebol nas ruas da sua cidade.
O estilo irreverente com que se exibia entre os postes valeu-lhe a alcunha de
“Labreca”, em alusão a um antigo guarda-redes daquela zona. Fez toda a formação no Clube
Desportivo do Montijo, mas dividiu-a entre a baliza e… o ataque. Só aos 16
anos é que se estabeleceu como guardião, mas tal não o impediu de conquistar a
titularidade da equipa principal, na altura na II Divisão B, aos 19, ainda com
idade de júnior. A qualidade e o potencial
despertaram o interesse de alguns dos principais emblemas nacionais. Quinito
esteve perto de o levar para o Vitória
de Guimarães, mas o Boavista
contou com a ajuda de um amigo de Manuel José, na altura treinador dos axadrezados,
para levar Ricardo para o Bessa, tendo passado uma semana à experiência antes
de assinar contrato. A afirmação na Invicta, porém,
esteve longe de ser imediata. Passou o primeiro ano e meio em branco, na sombra
do histórico Alfredo e de Tó Luís, mas conseguiu tornar-se titular em fevereiro
de 1997, a tempo de contribuir para a conquista da Taça
de Portugal, com vitória sobre o Benfica
na final, a 10 de junho desse ano.
No final dessa temporada estreou-se
também de quinas ao peito, tendo atuado num empate da seleção
de sub-21 com a Albânia
em Aveiro (1-1). Em 1997-98 manteve o posto
durante toda a época, marcada pela conquista da Supertaça
Cândido de Oliveira e pela obtenção de um sexto lugar no campeonato que
ficou aquém das expetativas. Porém, em 1998-99 perdeu a
titularidade para o camaronês William, não indo além de sete jogos oficiais
disputados. Na temporada seguinte atuou apenas em 15 partidas e tudo indicava
que o banco de suplentes fosse também o seu destino em 2000-01, mas à 7.ª
jornada Jaime
Pacheco começou a apostar nele. Na altura, os axadrezados
ocupavam o 7.º lugar e haviam sofrido seis golos em seis jornadas. No final da
época, sagraram-se campeões, com um total de 22 golos sofridos em 34 jogos.
Com naturalidade, Ricardo passou
também a figurar nas convocatórias para a seleção
nacional A. Foi chamado pela primeira vez pelo selecionador António
Oliveira para uma vitória sobre Andorra nos Barreiros (3-0), a 28 de
fevereiro de 2001, mas só se estreou a 2 de junho, num empate em Dublin com a República
da Irlanda (1-1), destronando Quim até ao final da fase de qualificação
para o Mundial
2002.
Em 2001-02 ajudou o Boavista
a lutar pelo título até ao fim, sagrando-se vice-campeão nacional, e a atingir
a segunda fase de grupos da Liga
dos Campeões. Defensivamente, os axadrezados
voltaram a ser os menos batidos do campeonato, tendo sofrido apenas 20 golos em
34 jornadas. Tudo indicava para que fosse o
dono da baliza portuguesa no Campeonato
do Mundo disputado na Coreia do Sul e no Japão, mas Oliveira
preferiu apostar em Vítor
Baía, que havia regressado recentemente aos relvados após ano e meio a
recuperar de lesão. Contudo, o histórico
guardião portista deixou de figurar nas convocatórias da seleção
após o Mundial,
o que permitiu a Ricardo assumir, durante cerca de meia dúzia de anos, a
titularidade. Depois de ajudar o Boavista
a atingir as meias-finais da Taça
UEFA e de ter marcado um golo de penálti na I
Liga em 2003, esteve com um pé no Benfica,
mas acabou por assinar pelo Sporting.
Foi sempre, à exceção de um curto
período entre setembro e outubro de 2005, o dono da baliza verde e branca ao
longo dos quatro anos que passou em Alvalade.
Contribuiu para a caminhada até à final da Taça
UEFA em 2004-05 e para a conquista da Taça
de Portugal em 2006-07, mas o seu nível exibicional esteve quase sempre uns
furos abaixo daquele que havia apresentado no Bessa. Paralelamente, foi brilhando ao
serviço da seleção
nacional. No Euro 2004
foi o rosto do apuramento para as meias-finais, ao defender um penálti sem
luvas antes de assumir a execução do pontapé que acabou por eliminar Inglaterra
no Estádio
da Luz, mas ficou mal na fotografia no golo que deu a vitória à Grécia
na final, no mesmo
palco.
Dois anos depois, no Mundial
da Alemanha, voltou a ser o carrasco dos ingleses,
ao defender três grandes penalidades em novo desempate.
No verão de 2007, numa altura em
que os jogadores de futebol passaram a pagar IRS sobre a totalidade dos seus
rendimentos, transferiu-se para os espanhóis do Bétis
por cerca de quatro milhões de euros. Em Sevilha viveu dos piores momentos da
carreira: perdeu a titularidade, desceu de divisão e foi afastado do plantel
tal como outros futebolistas estrangeiros. Pelo meio marcou presença no Euro 2008,
a última fase final que disputou.
Após um ano e meio sem jogar, o
selecionador de Inglaterra no Euro 2004
e no Mundial
2006, Sven-Göran
Eriksson, convenceu-o a assinar pelo Leicester
City, então no Championship, mas não foi além de oito encontros pelos foxes,
muito por culpa de uma grave lesão num ombro. Em agosto de 2011 voltou a
Portugal para representar o maior clube da sua região, o Vitória
de Setúbal, mas nunca conseguiu destronar o brasileiro Diego. Seguiram-se
dois anos no Olhanense,
clube no qual foi quase sempre suplente de Rafael Bracali e Vid Belec, tendo
encerrado a carreira em 2014, aos 38 anos, com uma despromoção à II
Liga.
Após pendurar as luvas continuou
a viver no Algarve, onde se dedicou ao ramo imobiliário, ao golfe e à família.
Porém, passados alguns anos voltou a estar ligado ao futebol, primeiro como
comentador televisivo na Sport TV e desde 2022 como treinador de guarda-redes
na estrutura da Federação Portuguesa de Futebol.
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