quarta-feira, 21 de abril de 2021

Lameira. O “fenomenal” Real SC, o título europeu de sub-17 e a falta de oportunidades no FC Porto

João Lameira ajudou o Real SC a chegar à fase de acesso à Liga 3
Faz parte da geração de ouro de 1999, foi campeão europeu de sub-17 em 2016, passou pela formação de Sporting e FC Porto, chegou a ser chamado por Nuno Espírito Santo aos treinos dos azuis e brancos e agora vai brilhando no meio-campo do Real SC, procurando demonstrar que é uma promessa do futebol português ainda bem a tempo de ser cumprida.
 
Em entrevista, João Lameira recorda as passagens pelos dois grandes e o memorável dia da conquista do título europeu, aborda o que poderá ter falhado para não estar a jogar ao mais alto nível, explica porque João Félix não jogava tanto quanto gostaria nas camadas jovens dos dragões, vaticina o que os adeptos do Vitória de Guimarães podem esperar de Bino e passa ainda em revista uma curta carreira mas da qual fazem parte clubes históricos como União de Leiria e Académica.
 
RUI COELHO - O Real SC assegurou a presença no playoff de acesso à Liga 3 na última jornada da fase regular do Campeonato de Portugal e o João Lameira foi um jogador muito influente nesta campanha, uma vez que foi titular nos 19 jogos que disputou. Que balanço faz, a nível individual e coletivo, do que já se jogou nesta temporada?
JOÃO LAMEIRA - O objetivo inicial era o playoff de acesso à II Liga, pelo investimento feito e por o clube ser estável e nos últimos anos andar sempre a lutar pela subida, mas quando sentimos que não o conseguimos devido a muitos altos e baixo que estávamos a ter, tínhamos de garantir o playoff de acesso à Liga 3, e penso que conseguimos cumprir esse objetivo com uma excelente prestação nesta reta final.
 
O Real SC já disputou a II Liga, mas é um clube que se tem destacado sobre os talentos que tem desenvolvido na sua formação. O que tem achado deste emblema da Linha de Sintra?
Tenho achado um clube fenomenal para o de Campeonato de Portugal. É um clube com condições fantásticas. Há poucos clubes de II Liga com condições assim: estável e com pessoas em torno do clube muito prestáveis e ambiciosas.
 
Nesta temporada o João Lameira já foi orientado por três treinadores, Hugo Martins, Luís Pinto e agora Luís Loureiro. Que opinião tem acerca de cada um deles? Quais são as diferenças essenciais entre os métodos deles?
São treinadores diferentes, mas todos com uma ideia comum que é o principal: tentar sair a jogar com bola, não ter medo de assumir.
 
Houve algum companheiro de equipa que o tivesse surpreendido mais pela positiva?
Quando vim para aqui não conhecia nenhum jogador, então não vinha com nenhuma ideia sobre algum jogador específico, mas penso que, no geral, temos um plantel com muita qualidade, dos melhores do Campeonato de Portugal.
 

O panfleto que lhe mudou a vida

João Lameira celebrou o 22.º aniversário dia 19
Voltemos atrás no tempo. O João é natural de Santa Maria da Feira. Como foi a sua infância e como é que a bola entrou para a sua vida?
A minha infância foi normal, como a da maior parte das crianças. Os meus pais sempre “trabalharam” muito para mim, para me ajudar no sentido futebolístico e escolar, para tentar conciliar as duas coisas. E o futebol entrou mesmo pelo meio escolar, pois estava em aulas no ensino primário quando um treinador do clube da minha terra veio entregar uns panfletos para umas captações para ganharem jovens para a formação. Então eu cheguei a casa e mostrei à minha mãe e decidi que queria experimentar.
 
Os seus primeiros passos no futebol são dados precisamente no clube da sua terra, o Caldas de São Jorge. Quais são as melhores recordações que guarda desses tempos?
Não me recordo muito bem. O que mais me recordo é daquele campo pelado que deixava muitas marcas sempre que íamos ao chão, e isso são coisas que ficam e que nos orgulham de onde começámos.
 
Entretanto deu o salto para o clube mais emblemático do concelho de Santa Maria da Feira, o Feirense. Que balanço faz dos quatro anos que passou nos fogaceiros?
Foi um balanço muito positivo. Consegui fazer bastantes jogos, ganhar campeonatos, ter visibilidade e encontrar treinadores que me ajudaram muito a crescer.
 

“Fui abaixo quando me dispensaram do Sporting

João Lameira jogou pelos infantis do Sporting
Entretanto, representou os infantis do Sporting em 2011-12, tendo jogado ao lado de Daniel Bragança, Thierry Correia e Rafael Leão. Como correu essa experiência e como tem visto o trajeto desses seus ex-companheiros?
Essa foi a minha primeira experiência fora da zona de conforto. Não foi fácil. Treinava em Arcozelo, no concelho de Vila Nova de Gaia, e tinha de ir todos os fins de semana para Lisboa de autocarro. Joguei quase todos os jogos, mas infelizmente no final da época fui dispensado.
Tenho visto de uma maneira muito positiva o trajeto deles, porque com a qualidade deles só tinham de conseguir afirmar-se nos clubes e ter a oportunidade, porque sem oportunidade nada se consegue.
 
Tendo em conta que não ficou no Sporting, como digeriu a sua saída?
Não foi fácil, porque principalmente, como disse, foi o meu primeiro ano fora da minha zona de conforto e num clube grande português. E no meu ponto de vista a época tinha-me corrido muito bem, e no final da época quando me dispensaram fui abaixo, mas felizmente tive sempre a família e amigos do meu lado, que me apoiaram e sabiam da minha qualidade. Isso ajudou-me a não atirar com a toalha ao chão.
 

João Félix era baixinho, magrinho e não jogou tanto como gostaria no FC Porto

João Lameira esteve no FC Porto entre 2013 e 2019
O João não ficou no Sporting, mas em 2013-14 mudou-se para o FC Porto, clube ao qual continuou vinculado até 2019. Quais são as melhores memórias que guarda desses tempos?
As melhores memórias são os tempos que passámos no balneário com os nosso colegas. O balneário é sagrado, é onde podemos conseguir levantar-nos da derrota, festejarmos nas vitórias e fazer as nossas brincadeiras.
 
Partilhou o balneário com Diogo Costa, Diogo Queirós, Diogo Leite, Diogo Dalot, Vitinha, João Mário, Fábio Vieira e Romário Baró. Como tem visto o trajeto de cada um deles no futebol profissional?
Acho que têm feito um trajeto fantástico, e estou muito feliz por eles, porque realmente foram muitos anos a partilhar o balneário. Chega a uma altura que já são quase como família e espero que ainda consigam chegar mais longe.
 
Na formação do FC Porto também teve João Félix como companheiro de equipa. Como era ele na altura? Surpreendeu-o esta evolução que levou o Atlético Madrid a pagar mais de 120 milhões de euros pela sua transferência para a capital espanhola?
De facto, foi um dos jogadores com que já joguei que mais me surpreendeu na sua evolução. Na altura que jogou comigo já se notava os seus dotes de craque, mas era baixinho, magrinho e muitas vezes há clubes que não apostam tanto em jogadores assim e infelizmente não jogou tanto como ele gostaria. Trocou de clube e nesse clube ajudaram-no a crescer em todos os sentidos e deu para ver a sua evolução muito rápida. Nunca pensei que um jogador que esteve comigo na formação e não jogava habitualmente fosse um dia valer 120 milhões, mas é mais do que merecido.  
 

“Bino é um treinador ‘à Porto’. O Vitória enquadra-se bem nesse tipo de jogo”

Nas camadas jovens do FC Porto teve como treinador o novo técnico do Vitória de Guimarães, Bino. O que achou dos métodos dele e que estilo de futebol os adeptos vitorianos podem esperar?
É um treinador que ajuda os jogadores no que precisaram, gosta de um estilo de jogo aguerrido e com qualidade, muito “à Porto”, como esteve lá vários anos. Penso que o Vitória se enquadra bem nesse tipo de jogo.
 

“O título europeu de sub-17 em 2016 Foi um dos dias mais felizes da minha vida”

João Lameira sagrou-se campeão europeu de sub-17 em 2016
O dia 21 de maio de 2016 foi certamente um dos dias que jamais irá esquecer, ao conquistar o Campeonato da Europa de sub-17. Como viveu esse torneio e, sobretudo, dia da final? Qual foi o segredo para que essa conquista fosse alcançada?
Sem dúvida que foi um dos dias, senão o dia mais feliz da minha vida! Esse torneio eu penso que foi vivido de uma forma muito natural, havia muito entrosamento na nossa equipa, parece que não havia pressões. Começámos logo o primeiro jogo com 25 mil pessoas no estádio no jogo de abertura contra a seleção da casa [Azerbaijão].
A final foi uma coisa que nós sonhávamos desde o início, sabíamos que não ia ser fácil, pois uma seleção como a de Espanha tem sempre muita qualidade. Mas estivemos focados do início ao fim, com uma garra e fome de vencer aquele jogo como nunca.  Fomos a penáltis e, no último penálti, em que o jogador espanhol falha, nem queríamos acreditar. Ficou tudo meio parado é só quando caímos em nós é que começamos a correr e a festejar. Já nos apelidavam de geração de ouro e penso que era mais do que merecido.  A nossa união era muito grande.
  
O João Lameira faz parte dessa célebre geração de 1999. É uma geração de ouro do futebol português?
Sim sem dúvida que é uma geração de ouro, bicampeões da Europa, muitos também foram vice-campeões da Europa juntamente com os jogadores de 1998. Ganhámos vários torneios, poucas eram as seleções que nos faziam frente.

 

“No FC Porto não me foram dadas as oportunidades que merecia”

Lameira chegou a treinar com a equipa principal do FC Porto
Aos 19 anos fez a sua estreia na II Liga pela equipa B dos dragões. Qual foi a sensação?
Foi uma sensação espetacular estrear me na II Liga e principalmente pelo FC Porto.
 
Chegou a ser chamado para ir treinar à primeira equipa do FC Porto?
Sim, fiz dois treinos pela equipa principal quando o treinador era o Nuno Espírito Santo.
 
Tendo em conta o seu historial na formação do FC Porto e nas seleções jovens nacionais, sente que falhou em algo por ainda não se ter afirmado nas ligas profissionais? Se sim, no que julga que falhou?
Sinto que falhei não como profissional já, mas no final da minha formação, porque chega a uma altura em que pensamos que já somos jogadores e ainda nos falta crescer muito. Mas desde o meu primeiro ano profissional já amadureci muito e no FC Porto não me foram dadas as oportunidades que merecia, pelo que trabalhava, mas como digo, é o futebol, temos de estar preparados para tudo e eu estou mais preparado do que nunca.
 
 

“Fiquei três meses sem receber na União de Leiria

Lameira representou a União de Leiria em 2019-20
No verão de 2019 assinou pela União de Leiria. O que o levou a tomar a decisão de ir jogar para o Campeonato de Portugal?
Foi principalmente pelo clube que é, um histórico, uma cidade fantástica, adeptos fenomenais e um clube que merecia estar nas ligas profissionais, com condições muito boas e um estádio como há poucos. E claro que precisava de fazer uma época plena, a jogar para conseguir mais.
 
Em dezembro de 2019 protagonizou um momento que deu muito que falar, ao ficar imóvel juntamente com os seus companheiros de equipa no primeiro minuto de um jogo frente ao Torreense, em protesto devido aos salários em atraso. Como viveu essa situação, ainda por cima longe de casa, o que levou a equipa a decidir por essa forma de manifestação? Quantos meses ficou sem receber?
Tínhamos que fazer algo que fizesse impacto, não só pelo nosso clube, mas por muitos outros que estavam na nossa situação. Dado que o jogo estava a dar no Canal 11, não havia melhor forma de protestar. Fiquei três meses sem receber.
 
 
Entretanto foi emprestado à Académica, mas acabou por só jogar pelos sub-23. O que achou desse histórico clube do futebol português?
Acho que é um clube que podia estar melhor financeiramente, pelo clube que é, o histórico que tem e as condições existentes. Mas no geral gostei de lá estar e aprendemos sempre alguma coisa por onde passamos.
 
Imaginamos que esteja focado nos objetivos do Real SC neste playoff de acesso à Liga 3, mas no final da temporada certamente que o telefone tocará. Em que nível competitivo espera jogar na próxima época?
Espero que seja um nível melhor. Gostava de fazer uma época em pleno na nossa II Liga, estou à espera da oportunidade. Se não, pelo menos na Liga 3, num clube com ambição de subir.
 
Propomos-lhe um desafio. Elabora um onze ideal de jogadores com quem tenha jogado.
Guarda-redes: Diogo Costa;
Defesas: Diogo Dalot, Diogo Queirós, Diogo Leite e Rúben Vinagre;
Médios: Florentino, Domingos Quina e Daniel Bragança;
Avançados: Trincão, Zé Gomes e João Félix
 
E que treinadores mais o marcaram e porquê?
Tive um treinador que me marcou bastante na formação, chamava-se Pedro Alves, que me moldou em bastante parte do que sou hoje: agressivo e nunca a dar um lance por perdido. Penso que em parte a minha passagem pelo FC Porto ajudou-me ainda mais no sentido de qualidade, saber jogar, perceber momentos do jogo, e não há assim nenhum treinador que possa mencionar porque penso que todos tínhamos a sua qualidade e todos me ensinaram uma parte do que sou hoje.
 
Entrevista realizada por Rui Coelho




 


 




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