terça-feira, 7 de abril de 2026

O primeiro globetrotter do futebol português. Quem se lembra de Severiano Correia?

Severiano Correia teve um percurso de quatro décadas como treinador
Terá sido o primeiro globetrotter do futebol português. Depois de uma curta carreira como futebolista, com passagem pelas camadas jovens do Benfica e pelos seniores de Boavista e Sp. Braga, iniciou um trajeto de quatro décadas como treinador, tendo trabalhado em Moçambique, na África do Sul, na Grécia e no Brasil.
 
Nascido a 4 de janeiro de 1913 em Lisboa, deixou a prática do futebol em meados da década de 1930 devido a uma lesão, quando tinha apenas 24 anos.
 
A primeira experiência como treinador remonta aos tempos em que jogava no Sp. Braga, na II Divisão, quando os companheiros de equipa lhe pediram para substituir o técnico que havia saído. Foi o primeiro jogador-treinador da história dos bracarenses.
 
Já como técnico a tempo inteiro começou pelo Sport Lisboa e Faro (atual Faro e Benfica) em 1937-38, aceitando um convite numa altura em que estava de férias no Algarve, mas só dirigiu a equipa em jogos particulares. Depois passou pelo comando técnico do Sporting de Fafe, um dos clubes que em 1958 deu origem à Associação Desportiva de Fafe.
 
Na I Divisão estreou-se ao leme da Académica, entre 1942 e 1944, tendo guiado a briosa a um sexto lugar no campeonato em 1942-43, às meias-finais da Taça de Portugal na época seguinte e à conquista do Campeonato de Coimbra em ambas as temporadas.
 
Equipa do Atlético na final da Taça de Portugal em 1945-46

Entre 1944 e 1946 treinou o Atlético. Na primeira época na Tapadinha sagrou-se campeão nacional da II Divisão, enquanto na segunda guiou os alcantarenses até à final da Taça de Portugal, perdida no Jamor para o Sporting (2-4).
 
Em simultâneo, foi treinador da seleção nacional durante um curto período em maio de 1945, numa altura em que Tavares da Silva era o selecionador, tendo dirigido a equipa das quinas nas derrotas com Espanha no Riazor (2-4) e com a Suíça em Berna (0-1). A deslocação a solo helvético ficou marcada pela primeira viagem de sempre de avião da seleção, mas o regresso a Lisboa foi de comboio, por questões monetárias. Na altura, decorria a Segunda Guerra Mundial e havia racionamento de comida, com dirigentes a poder comer e jogadores e treinadores não, o que levou Severiano Correia a pedir a demissão do cargo.
 
Seguiram-se três anos em Elvas, tendo apanhado a transição do Sport Lisboa e Elvas – pelo qual venceu o Campeonato de Portalegre em 1946-47 – para “O Elvas” Clube Alentejano de Desportos, após fusão entre a filial encarnada e o Sporting Clube de Elvas em agosto de 1947. A 16 de maio de 1948, na penúltima jornada do campeonato, conduziu o emblema azul e ouro a uma goleada de 12-1 sobre a Académica, com póquer de Patalino, um dos resultados mais desnivelados de sempre da I Divisão e que, na ocasião, atirou os estudantes para o segundo escalão. Uma semana antes, “O Elvas” havia ido a Lisboa bater o Benfica, clube do coração de Severiano Correia, por 2-1, com bis de Patalino, num jogo que se viria a revelar decisivo para as contas do título, que veio a ser conquistado pelo Sporting devido à diferença de golos, uma ‘traição’ que os dirigentes benfiquistas jamais lhe perdoaram.

Severiano Correia (à esquerda) como treinador do "O Elvas" em 1948

Entretanto, aventurou-se pela primeira vez em Moçambique, onde dirigiu Ferroviário e Desportivo de Lourenço Marques (atual Maputo). Desviou Costa Pereira do basquetebol para a baliza do Ferroviário e levou Mário Coluna para o Desportivo após o ter visto a dar uns toques na bola numa oficina de automóveis, tendo posteriormente sugerido a contratação de ambos ao Benfica.
 
 
De regresso a Portugal em 1965, passou pelos bancos de Lusitano de Évora, Atlético, Académico do Porto, Montijo e Vitória de Setúbal, tendo lançado Jaime Graça na equipa principal dos sadinos.
 
No início da década de 1960 voltou a África, tendo conquistado dois campeonatos moçambicanos ao leme do Ferroviário de Lourenço Marques, em 1961 e 1963, antes de ter comandado os sul-africanos do Olympia de Joanesburgo, um clube de descendentes italianos. Na África do Sul foi despedido pela única vez na carreira, mas mesmo assim o seu trabalho ganhou alguns admiradores (já lá vamos…).

Severiano Correia (à direita) na sua primeira passagem pelo Ferroviário, com Costa Pereira (ao centro)

De volta ao futebol luso, orientou o Olhanense na II Divisão Nacional entre 1965 e 1967, tendo depois recebido um convite dos gregos do Aris Salónica. E como é que o emblema helénico se lembrou de Severiano Correia? Um membro da comunidade grega em Joanesburgo ficou encantando pelo trabalho dele no Olympia e foi a Lisboa de propósito convencê-lo a rumar à Grécia.
 
Mesmo hesitante e sem a companhia da família, o treinador português lá acedeu, por se encontrar desempregado e por ter ficado sensibilizado pelo convite, e assinou pelo Aris. A aventura até nem começou bem, com alguns maus resultados na pré-época, mas a sua visão inovadora do jogo, que incluía extremos a jogar no lado oposto ao do seu melhor pé, algo raro naquele tempo, lá começou a dar frutos. Em 1967-68 alcançou o quarto lugar no campeonato grego, na altura a melhor classificação de sempre do clube desde que a prova passou (em 1959-60) a ser um campeonato de todos contra todos e que valeu um convite para a Taça das Cidades com Feiras.
 
Já na temporada seguinte melhorou a classificação, terminando o campeonato grego no terceiro lugar, naquela que foi a primeira vez no novo sistema que uma equipa fora da região de Atenas concluiu a prova no pódio. Paralelamente, fez história na Taça das Cidades com Feiras: não só se tornou no primeiro português ao comando de um conjunto estrangeiro nas competições europeias como conseguiu que o Aris passasse pela primeira vez uma eliminatória internacional, com uma dupla vitória sobre os malteses do Hibernians (1-0 em casa e 6-0 fora). A goleada obtida em Malta é, ainda hoje, uma das maiores vitórias de sempre de um clube grego fora de casa para as provas continentais. Na eliminatória seguinte, uma dupla derrota às mãos dos húngaros do Újpest, então orientado por Lajos Baróti (1-2 em casa e 1-9 fora, naquele que foi o desaire mais pesado da carreira).

Severiano Correia, no Aris, com o seu mítico chapéu verde, que servia para dar instruções à equipa

Apesar do sucesso alcançado, não chegou a acordo para a renovação de contrato, mas continuou na Grécia, onde ganhou a alcunhar de “professor”, tendo orientado o Proodeftiki, do Pireu, em 1969-70. Mais tarde, em 1973-74, quebrou a promessa de nunca treinar outra equipa em Salónica e assinou pelo modesto Apollon Kalamarias, tendo sido recebido em apoteose por adeptos… do Aris. O regresso à segunda maior cidade da Grécia acabou por ser mais curto do que o esperado, uma vez que pediu a demissão após ter sido agredido pelo chefe de departamento de futebol depois de um empate em casa com o último classificado.   

Severiano Correia carregado em ombros pelos jogadores do Aris

Entretanto, foi convencido pelo irmão da mulher, o antigo selecionador nacional de râguebi Pedro Cabrita, a mudar-se para o Brasil. A família Correia começou por ir viver para Teresópolis, cidade do interior carioca a 90 quilómetros do Rio de Janeiro e onde não havia futebol, mas posteriormente foi residir para o Rio. Na “Cidade Maravilhosa” passou a ser comentador, juntamente com Artur Agostinho, de um programa desportivo na rádio liderado pelo jornalista português Jaime Luís, radicado em terras de Vera Cruz desde tenra idade. Severiano ganhou visibilidade com esse trabalho e recebeu um convite da Portuguesa do Rio de Janeiro.
 
Ao leme da Portuguesa Carioca tornou-se, a 13 de agosto de 1976, no primeiro treinador português de uma equipa estrangeira a ganhar ao Benfica, um triunfo por 3-1 no Estádio São Januário, casa do Vasco da Gama, no âmbito de uma digressão dos encarnados ao Brasil. Paralelamente, lançou Paulo Autuori, na altura um recém-licenciado em educação física, no futebol, ao atribuir-lhe a função de preparador físico na sua equipa técnica.
 
Viria a regressar a Portugal em janeiro de 1977, já debilitado em termos de saúde, após ter sido operado aos pulmões. No final da época 1976-77 ainda assumiu o comando técnico do Belenenses nas duas últimas jornadas do campeonato, numa altura em que os azuis do Restelo estavam em risco de descer pela primeira vez à II Divisão, e conseguiu a permanência graças a uma vitória em casa sobre o Atlético (2-1).
 
O Belenenses quis avançar para a renovação de contrato, mas Severiano Correia rejeitou, devido aos problemas de saúde. Despediu-se da carreira de treinador com uma vitória sobre o Estoril num jogo entre equipas de reservas, um triunfo que o próprio festejou efusivamente, talvez percebendo que seria o seu último.
 
Viria a morrer poucos meses depois, a 14 de setembro de 1977, aos 64 anos, vítima de doença oncológica nos pulmões. Poucos dias antes havia sido convidado pelo presidente do Benfica, José Ferreira Queimado, para ingressar no clube do coração nas funções de secretário-técnico, mas não chegou a ter conhecimento do convite, que foi declinado pela mulher. No fim de semana a seguir à sua morte, foi respeitado um minuto de silêncio nos estádios gregos. Já nos recintos portugueses, nem por isso…

Severiano com o filho Miguel, ambos antigos jornalistas d'A Bola

Paralelamente à carreira de treinador, foi trabalhando como jornalista d’A Bola quando não tinha equipas para treinar, chegando a estar efetivo entre 1970 e 1973, e como correspondente na Grécia quando lá treinou. Posteriormente também escreveu para Mundo Desportivo, O Benfica e Jornal do Comércio.
 
O seu filho, Luís Miguel Correia, foi jornalista d’A Bola entre 1982 e 2023.



 
 
  



Sem comentários:

Enviar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...