Terá sido o primeiro
globetrotter
do futebol português. Depois de uma curta carreira como futebolista, com
passagem pelas camadas jovens do
Benfica
e pelos seniores de
Boavista
e
Sp.
Braga, iniciou um trajeto de quatro décadas como treinador, tendo
trabalhado em
Moçambique, na África do Sul, na
Grécia e no
Brasil.
Nascido a 4 de janeiro de 1913 em
Lisboa, deixou a prática do futebol em meados da década de 1930 devido a uma
lesão, quando tinha apenas 24 anos.
A primeira experiência como
treinador remonta aos tempos em que jogava no
Sp.
Braga, na II Divisão, quando os companheiros de equipa lhe pediram para
substituir o técnico que havia saído. Foi o primeiro jogador-treinador da
história dos
bracarenses.
Já como técnico a tempo inteiro começou
pelo Sport Lisboa e Faro (atual Faro e Benfica) em 1937-38, aceitando um
convite numa altura em que estava de férias no Algarve, mas só dirigiu a equipa
em jogos particulares. Depois passou pelo comando técnico do
Sporting de Fafe,
um dos clubes que em 1958 deu origem à
Associação
Desportiva de Fafe.
Na
I
Divisão estreou-se ao leme da
Académica,
entre 1942 e 1944, tendo guiado a
briosa
a um sexto lugar no campeonato em 1942-43, às meias-finais da
Taça
de Portugal na época seguinte e à conquista do Campeonato de Coimbra em
ambas as temporadas.
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| Equipa do Atlético na final da Taça de Portugal em 1945-46 |
Entre 1944 e 1946 treinou o
Atlético.
Na primeira época na Tapadinha sagrou-se campeão nacional da II Divisão,
enquanto na segunda guiou os
alcantarenses
até à final da
Taça
de Portugal, perdida no
Jamor para o
Sporting
(2-4).
Em simultâneo, foi treinador da
seleção
nacional durante um curto período em maio de 1945, numa altura em que
Tavares da Silva era o selecionador, tendo dirigido a
equipa
das quinas nas derrotas com
Espanha
no Riazor (2-4) e com a
Suíça
em Berna (0-1). A deslocação a solo helvético ficou marcada pela primeira
viagem de sempre de avião da
seleção,
mas o regresso a Lisboa foi de comboio, por questões monetárias. Na altura,
decorria a
Segunda Guerra Mundial e havia racionamento de comida, com
dirigentes a poder comer e jogadores e treinadores não, o que levou Severiano
Correia a pedir a demissão do cargo.
Seguiram-se três anos em Elvas, tendo
apanhado a transição do Sport Lisboa e Elvas – pelo qual venceu o Campeonato de
Portalegre em 1946-47 – para
“O
Elvas” Clube Alentejano de Desportos, após fusão entre a filial encarnada e
o
Sporting Clube de Elvas em agosto de 1947. A 16 de maio de 1948, na penúltima
jornada do campeonato, conduziu o
emblema
azul e ouro a uma goleada de 12-1 sobre a
Académica,
com póquer de
Patalino, um dos resultados mais desnivelados de sempre da
I
Divisão e que, na ocasião, atirou os
estudantes
para o segundo escalão. Uma semana antes,
“O
Elvas” havia ido a Lisboa bater o
Benfica,
clube do coração de Severiano Correia, por 2-1, com bis de Patalino, num jogo
que se viria a revelar decisivo para as contas do título, que veio a ser
conquistado pelo
Sporting
devido à diferença de golos, uma ‘traição’ que os dirigentes benfiquistas
jamais lhe perdoaram.
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| Severiano Correia (à esquerda) como treinador do "O Elvas" em 1948 |
Entretanto, aventurou-se pela
primeira vez em Moçambique, onde dirigiu Ferroviário e Desportivo de Lourenço
Marques (atual Maputo).
Desviou
Costa Pereira do basquetebol para a baliza do Ferroviário e levou Mário Coluna para
o Desportivo após o ter visto a dar uns toques na bola numa oficina de
automóveis, tendo posteriormente sugerido a contratação de ambos ao
Benfica.
De regresso a Portugal em 1965,
passou pelos bancos de
Lusitano
de Évora,
Atlético,
Académico
do Porto,
Montijo
e
Vitória
de Setúbal, tendo lançado
Jaime Graça na equipa principal dos
sadinos.
No início da década de 1960
voltou a África, tendo conquistado dois campeonatos moçambicanos ao leme do
Ferroviário de Lourenço Marques, em 1961 e 1963, antes de ter comandado os
sul-africanos do Olympia de Joanesburgo, um clube de descendentes italianos. Na
África do Sul foi despedido pela única vez na carreira, mas mesmo assim o seu
trabalho ganhou alguns admiradores (já lá vamos…).
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| Severiano Correia (à direita) na sua primeira passagem pelo Ferroviário, com Costa Pereira (ao centro) |
De volta ao futebol luso,
orientou o
Olhanense
na II Divisão Nacional entre 1965 e 1967, tendo depois recebido um convite dos
gregos do
Aris Salónica. E como é que o emblema helénico se lembrou de
Severiano Correia? Um membro da comunidade grega em Joanesburgo ficou
encantando pelo trabalho dele no Olympia e foi a Lisboa de propósito
convencê-lo a rumar à Grécia.
Mesmo hesitante e sem a companhia
da família, o treinador português lá acedeu, por se encontrar desempregado e
por ter ficado sensibilizado pelo convite, e assinou pelo Aris. A aventura até
nem começou bem, com alguns maus resultados na pré-época, mas a sua visão
inovadora do jogo, que incluía extremos a jogar no lado oposto ao do seu melhor
pé, algo raro naquele tempo, lá começou a dar frutos. Em 1967-68 alcançou o
quarto lugar no campeonato grego, na altura a melhor classificação de sempre do
clube desde que a prova passou (em 1959-60) a ser um campeonato de todos contra
todos e que valeu um convite para a
Taça das Cidades com Feiras.
Já na temporada seguinte melhorou
a classificação, terminando o campeonato grego no terceiro lugar, naquela que
foi a primeira vez no novo sistema que uma equipa fora da região de Atenas
concluiu a prova no pódio. Paralelamente, fez história na Taça das Cidades com
Feiras: não só se
tornou
no primeiro português ao comando de um conjunto estrangeiro nas competições
europeias como conseguiu que o Aris passasse pela primeira vez uma
eliminatória internacional, com uma dupla vitória sobre os malteses do
Hibernians (1-0 em casa e 6-0 fora). A goleada obtida em Malta é, ainda hoje,
uma das maiores vitórias de sempre de um clube grego fora de casa para as
provas continentais. Na eliminatória seguinte, uma dupla derrota às mãos dos
húngaros do Újpest, então orientado por
Lajos
Baróti (1-2 em casa e 1-9 fora, naquele que foi o desaire mais pesado da
carreira).
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| Severiano Correia, no Aris, com o seu mítico chapéu verde, que servia para dar instruções à equipa |
Apesar do sucesso alcançado, não
chegou a acordo para a renovação de contrato, mas continuou na Grécia, onde
ganhou a alcunhar de “professor”, tendo orientado o Proodeftiki, do
Pireu, em
1969-70. Mais tarde, em 1973-74, quebrou a promessa de nunca treinar outra
equipa em Salónica e assinou pelo modesto Apollon Kalamarias, tendo sido
recebido em apoteose por adeptos… do Aris. O regresso à segunda maior cidade da
Grécia acabou por ser mais curto do que o esperado, uma vez que pediu a
demissão após ter sido agredido pelo chefe de departamento de futebol depois de
um empate em casa com o último classificado.
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| Severiano Correia carregado em ombros pelos jogadores do Aris |
Entretanto, foi convencido pelo irmão
da mulher, o antigo selecionador nacional de râguebi Pedro Cabrita, a mudar-se
para o Brasil. A família Correia começou por ir viver para Teresópolis, cidade
do interior carioca a 90 quilómetros do Rio de Janeiro e onde não havia futebol,
mas posteriormente foi residir para o Rio. Na “Cidade Maravilhosa” passou a ser
comentador, juntamente com Artur Agostinho, de um programa desportivo na rádio
liderado pelo jornalista português Jaime Luís, radicado em terras de Vera Cruz
desde tenra idade. Severiano ganhou visibilidade com esse trabalho e recebeu um
convite da
Portuguesa do Rio de Janeiro.
Ao
leme da Portuguesa Carioca tornou-se, a 13 de agosto de 1976, no primeiro
treinador português de uma equipa estrangeira a ganhar ao Benfica, um
triunfo por 3-1 no Estádio São Januário, casa do
Vasco
da Gama, no âmbito de uma digressão dos
encarnados
ao Brasil. Paralelamente, lançou
Paulo
Autuori, na altura um recém-licenciado em educação física, no futebol, ao
atribuir-lhe a função de preparador físico na sua equipa técnica.
Viria a regressar a Portugal em
janeiro de 1977, já debilitado em termos de saúde, após ter sido operado aos
pulmões. No final da época 1976-77 ainda assumiu o comando técnico do
Belenenses
nas duas últimas jornadas do campeonato, numa altura em que os
azuis
do Restelo estavam em risco de descer pela primeira vez à II Divisão, e
conseguiu a permanência graças a uma vitória em casa sobre o
Atlético
(2-1).
O
Belenenses
quis avançar para a renovação de contrato, mas Severiano Correia rejeitou,
devido aos problemas de saúde. Despediu-se da carreira de treinador com uma
vitória sobre o
Estoril
num jogo entre equipas de reservas, um triunfo que o próprio festejou
efusivamente, talvez percebendo que seria o seu último.
Viria a morrer poucos meses
depois, a 14 de setembro de 1977, aos 64 anos, vítima de doença oncológica nos
pulmões. Poucos dias antes havia sido convidado pelo presidente do
Benfica,
José Ferreira Queimado, para ingressar no clube do coração nas funções de
secretário-técnico, mas não chegou a ter conhecimento do convite, que foi declinado
pela mulher. No fim de semana a seguir à sua morte, foi respeitado um minuto de
silêncio nos estádios gregos. Já nos recintos portugueses, nem por isso…
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| Severiano com o filho Miguel, ambos antigos jornalistas d'A Bola |
Paralelamente à carreira de
treinador, foi trabalhando como jornalista d’
A Bola quando não tinha
equipas para treinar, chegando a estar efetivo entre 1970 e 1973, e como
correspondente na Grécia quando lá treinou. Posteriormente também escreveu para
Mundo Desportivo,
O Benfica e
Jornal do Comércio.
O seu filho,
Luís Miguel Correia,
foi jornalista d’
A Bola entre 1982 e 2023.
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