quinta-feira, 11 de junho de 2026

Damião em entrevista (parte 1): “Ganhar o Título do WP foi o culminar de anos de muito esforço e trabalho”

Damião é campeão nacional no WP e de tag team no Wrestlefest
É um dos principais talentos da nova geração. É o campeão nacional do Wrestling Portugal e metade dos campeões de tag team do Wrestlefest, ao lado do RAFA. Tem 20 anos, treina desde os 14 e estreou-se aos 16, logo com a conquista do Título de Honra.
 
Nesta primeira de duas partes da entrevista, o carismático Damião revela as emoções que sentiu quando venceu o Título Nacional do WP, antevê os combates das próximas semanas, conta como se tornou fã de wrestling, fala sobre as comparações e a parceria com RAFA e explica como nasceram os Murder Business.
 
David Pereira – Comecemos por alguma atualidade. O que sentiste naquela tarde de 22 de março quando, perante tantos familiares, amigos e fãs, te tornaste campeão nacional do Wrestling Portugal?
Damião – Sabemos como é que o wrestling funciona e como é que os belts funcionam. Não é como se eu tivesse ganho, por exemplo, uma medalha olímpica. Mas acho que se fechou ali um ciclo e eu senti isso imediatamente. Foi o culminar de alguns anos de muito esforço, de muito trabalho. Foi o sítio onde eu comecei. E achei apropriado. O início real da minha carreira, seja internacional, seja um bocadinho mais a sério, é começar finalmente a ter este set no sítio onde eu comecei. E acho que foi por isso que as emoções também saíram um bocadinho mais, porque, de facto, senti que não só era o culminar de algo, como era o início de outra coisa ainda maior.
 
Conseguiste dormir alguma coisa nessa noite? Como foi essa gestão de emoções?
Sim, sim, sim. Já faço wrestling há alguns aninhos. Já pouca coisa me deixa acordado no que diz respeito ao wrestling. Mas acho que foi mais difícil durante a semana. Eu soube essa semana. E durante a semana foi um bocadinho mais difícil gerir a ideia. Mas acho que foi muito bom. Foi muito bom, em geral. Toda a gente meu deu muito apoio. Toda a gente justificou muito essa decisão.
 
Lembro-me que, quando o combate acabou, parecias incrédulo e até perguntaste ao árbitro, Mascarenhas, se o pin fall tinha mesmo ido até três. Confessaste numa entrevista que, quando ganhaste o Título de Honra, era suposto não saberes, mas, desta vez, sabias de antemão…
Também temos que perceber que o wrestling é sempre uma mistura entre uma certa atuação e eu gosto de dizer que, para além de eu estar a atuar, também estou a permitir-me sentir as emoções. Durante o combate e da forma como o público fica investido, eu pelo menos permito-me sentir. Eu acho que isso também cria uma conexão entre mim e quem está a ver. Quando o combate acaba, só é apropriado eu ter aquela reação, porque lá está, é o culminar de algo maior, é o fim de uma jornada. Mesmo que eu já soubesse durante a semana inteira que aquilo ia acontecer, não deixa de ser um momento de euforia, não deixa de ser uma reação genuína. Portanto, tudo o que eu fiz, tudo o que se passou, não deixou de ser natural. Genuíno. Foram só as emoções a sair.
 
 
És um wrestler que, de uma forma orgânica, tem sido bastante bem recebido e apoiado pelo público. Por outras palavras, és dos wrestlers mais over em Portugal. Ao que achas que isto se deve e de que forma é que vais procurando manter essa popularidade?
É uma boa pergunta. Eu durante muito tempo também pensei nisso e sempre achei que no wrestling havia esta fórmula de como ter sucesso não só dentro do meio como para o público e na forma como somos vistos. Mas realmente, à medida que eu vou ganhando alguma experiência, que vou lutando cada vez mais fora de Portugal, eu percebo que pelo menos o que eu acho que me diferencia de muita gente e o que eu acho que cria realmente esta ligação entre mim e as pessoas é que eu raramente forço alguma coisa.
Eu não gosto de forçar emoções, eu gosto de ser honesto para quem paga bilhete, para isto fazer sentido. Portanto, eu acho que nós entramos ali numa simbiose onde eu vivo um bocadinho deles e eles vivem um bocadinho de mim. E eu acho que o facto de eu conseguir canalizar essa energia que vem de fora para dentro do ringue faz com que as pessoas se invistam emocionalmente no que eu faço porque não estão a ver um performer. Acho que estão a ver também um bocadinho delas. Estão a ver um ser humano que vive e eu acho que isso ajuda. Porque nunca me quis apresentar como algo de larger than life nesse sentido. Sempre quis que fosse bem claro que eu sou uma pessoa normal, mas que por acaso tem este jeito um bocadinho fora do normal para fazer wrestling.
 
Começaste o teu reinado com uma defesa de título diante do Pedras, num combate entre dois babyfaces, no evento Novas Lendas. Na dúvida entre quem escolher apoiar, o público remeteu-se muitas vezes ao silêncio. E tu chegaste a ter de improvisar um papel de heel. Sentes que não foi o arranque ideal para o teu reinado? Estavam à espera de outro tipo de reação por parte dos fãs?
Não, pá. Eu acho que a crowd do WP é sempre desafiante de trabalhar: são muitos amigos, muita família, são muitas pessoas que, se calhar, vão para ver alguém específico e não são tão propícios a fazer barulho tão naturalmente. É muito difícil fazer um combate babyface com babyface puro e duro numa crowd que não é regular de wrestling sem se estabelecer um agressor e um underdog. Portanto, inevitavelmente eu ia ter de assumir um bocadinho mais este papel de heel porque senão ia ser muito difícil conseguirmos uma reação um bocadinho mais forte e até quando depois entrássemos em false finishes, quando entrássemos pós-comeback ia ser muito difícil guiar esta crowd para onde nós queríamos. Então, sim, isso foi pensado entre mim e o Pedras, obviamente. Pronto, agora se foi mais ou se foi menos, isso já deixo em segredo.
 
 
Vem aí o maior evento da season do WP, a Batalha Final 7, no domingo. Vais defender o título diante de três lutadores: Rafa Pedras, Paulo “Knockout” Cruz e Marcos Vitória. O que podemos esperar? Pareces gostar de combates destes combates caóticos, com mais do que dois lutadores em ringue, ação veloz e furiosa…
Eu acho que podemos esperar o melhor dos quatro. Acho que cada um de nós um tem as suas características e as suas qualidades muito bem definidas. Mas eu acho que casar estes quatro estilos pode ser muito engraçado e acho que vai ser uma prenda também para os fãs do WP que têm acompanhado os nossos caminhos, que raramente se cruzaram. A verdade é esta. E acho que vale a pena ir ver, nem que seja só pela curiosidade de ver como é que o Marcos Vitória vai acompanhar os três lutadores da nova geração [risos]. Eu gosto muito do Marcos.
 
 
Uma semana depois, a 20 de junho, vais defrontar Myron Reed, da AEW, no evento do Wrestlefest “Fica Já Aqui Resolvido”. Quais são as tuas expetativas? Embora já tenhas lutado com Lio Rush e Leon Slater em tag team, acreditas que será o combate mais importante da tua carreira?
Sim, sem dúvida. Eu acho que, tal como tu falaste, já enfrentei nomes incríveis que têm nome e estatuto, mas acho que a diferença crucial aqui é que, quando eu tive esses combates, por exemplo, com o Lio Rush ou com o Leon Slater, eu tinha 19 anos ou 18. Tinha pouca experiência internacional ainda assim. Fui posto num lugar onde eu tinha que preencher, se calhar, um espaço que ainda não me sentia tão confortável. Acho que fiz o meu trabalho, não foi o meu melhor trabalho de todos, mas, pronto, fiz e é uma experiência de aprendizagem incrível. O que diferencia esse momento deste é que eu sinto que estou muito mais preparado em todos os aspetos. Neste último ano, cresci muito como wrestler. Tive toda a minha run em Madrid que me ajudou a descobrir, a perceber como é que se faz outros tipos de wrestling, outras formas de pôr um público a fazer barulho. E eu acho que entro para este combate muito mais pronto, mas também com muito mais a provar. Então, é aqui este balanço entre sentir-me confiante e querer mesmo dar este próximo passo.


E estamos todos à espera de um banger. Estive muito tempo afastado do wrestling português e, quando voltei a ir aos shows e pesquisei sobre a nova geração de wrestlers, fiquei surpreendido por teres apenas 20 anos e escrevi que és uma espécie de “Lamine Yamal do wrestling português”. É uma comparação que para ti faz sentido?
Eu percebo, a certo ponto: é este jovem que surge assim, do nada, num contexto fora do comum, logo para um palco grande. Eu percebo essa comparação e não me choca, não me choca em nada. Até me sinto lisonjeado, porque o Yamal, neste momento, é falado como um dos melhores do mundo. Se eu conseguir fazer parte dos melhores como ele faz, acho que a comparação vai ser apropriadíssima.
 

“Com três anos já tinha aprendido a fazer zapping e descobri WWE

Damião começou a treinar com apenas 14 anos
Por falar na tua ainda tenra idade, nasceste a 11 de agosto de 2005, quando a WWE vivia um autêntico boom em Portugal. Ou seja, já não apanhaste essa fase em que o wrestling estava tão presente nas conversas entre os jovens. Quando começaste a ver, quais são as primeiras memórias que tens do wrestling e o que achas que te atraiu?
Eu não me lembro muito bem do meu primeiro contato com o wrestling, porque eu era mesmo muito novo. E quem conta muito esta história é a minha mãe. Diz que eu com três anos, talvez isso, já tinha aprendido a fazer zapping, e que parava muito na SIC Radical, onde ainda dava wrestling. Portanto, talvez à volta de 2008. Mas eu não me lembro exatamente de ver alguma coisa em concreto. Mas a minha mãe, por ver este interesse, começou a comprar-me home videos. Portanto, o meu primeiro contacto real que me lembro com wrestling é o ano inteiro de 2007, ainda com o John Cena campeão, Batista campeão, Randy Orton a surgir como um main eventer real e Triple H.
O meu primeiro home video foi o New Year's Revolution de 2006. Foi o cash-in do Edge, no John Cena, após o Elimination Chamber. Achei aquilo um ultraje, como é que isso pode acontecer a alguém. Mas de facto, aquela emoção puxou qualquer coisa em mim. E a minha mãe rapidamente me explicou. Numa posição de mãe, a minha mãe viu sangue e poderia ter panicado, mas não, sempre foi muito para a frente, sempre foi muito ok com essas coisas. Ela explicou-me logo o que é que aquilo era, como é que se fazia, qual era o intuito. E eu percebi que aquilo não só não era real, mas que as emoções que me causava eram. Eu acho que aquilo só me puxou mais. Pensava: ‘como assim, estas pessoas que não estão a fazer isto, não estão mesmo a querer matar-se, me fazem sentir desta forma?’. Eu quero aprender mais sobre isto e aí surge a minha paixão eterna, que é o wrestling.
 
Mas a tua mãe não era fã, certo?
Não, não, mas era muito entendida. E até hoje temos debates depois dos shows sobre o que é que correu bem, o que é que correu mal, o que é que deveria ter sido melhor. Ela é muito envolvida neste momento.
 

“Começar a treinar wrestling foi quase como entrar para a faculdade”

Damião interpreta o papel de heel em Espanha
Começaste a treinar aos 14 anos, em novembro de 2019, depois de teres ido a um evento do WP. Já contaste que até o Pégaso, que te recebeu, pareceu reticente. Como reagiu a tua família a esse teu desejo e como é que têm vivido a tua carreira? A tua mãe até já fez parte da trama…
Foi muito 50/50. Muita gente achou que era só uma fase, que eu só queria ir lá, ver como era, e depois aquilo me ia passar. Mas acho que nenhum deles entendia bem realmente a minha obsessão cada vez maior. Aquilo era quase como o meu entrar para a faculdade: eu agora vou entrar para aqui e isto é o que eu quero ser. E eu repetia isto milhares e milhares e milhares de vezes e o que a minha mãe me disse foi: ‘se é, então a única pessoa que pode tornar isto real és tu’. E a partir daí, todas as outras opiniões, todos os outros piropos que eu recebia nos jantares de família passavam-me ao lado. Se a única pessoa a quem eu devo a vida me apoia nisto e quer o meu sucesso, então está tudo bem, segue jogo. Eventualmente, com o tempo, todo o resto da minha família agora está a par, todo o resto da minha família agora está muito orgulhosa, claro. Mas foi ali uma porta um bocadinho difícil de quebrar com eles.
 
Por falar em reações… Como é o que o teu corpo reagiu às primeiras quedas?
Foi horrível, foi horrível. Depois do primeiro treino, no dia a seguir eu não me mexia. E foi tipo: quero isto para o resto da minha vida.
 
Alguma vez te passou pela cabeça que o wrestling não era para ti?
Não, nunca, nunca, nunca. Certamente em que eu comecei, até há algum tempo, adentro da minha carreira, nunca pensei em parar, nunca.
 
Qual era o teu background desportivo? Praticaste alguma modalidade?
Na escola sempre fui um miúdo que era muito hiperativo.  Eu corria, jogava a bola, saltava, fazia isso tudo. Mas fiz alguns anos de ginástica desportiva. Porque também sempre curti muito desta dinâmica de controlar o corpo, de saltar e de conseguir dar mortais e aprender a fazer isso bem.
 
Presentemente treinas jiu-jitsu. É somente para te ajudar na preparação física e técnica do wrestling ou tens ambições nessa modalidade?
Eu sempre adorei desporto. E eu sempre adorei competição. E quando és jovem e quando és novo, o wrestling é este mundo muito mágico, muito incrível, em que tudo é bom, em que tudo é ótimo. E conforme o tempo passa, e quanto mais tempo passas dentro daquele ambiente, a relação já começa a ser um bocadinho mais de trabalho, infelizmente. E como nós sabemos, no wrestling não há meritocracia. É um espetáculo, é produzido. E estava-me a faltar o espírito de competição, entendes? No wrestling não há bem uma forma sintética e analítica de dizer que eu sou melhor do que tu. Ou que tu és melhor do que eu. Num Jiu-Jitsu há. Então, como o RAFA faz, o Santos faz, e também o facto de estar à volta deles puxou-me um bocadinho este meu lado mais competitivo. Então, foi um aparte, eu diria. Quando o wrestling começou a ser obsessivo demais, foi um escape ao mundo real.
 

De fã de Cena, Ziggler e Jeff Hardy ao strong style

Damião e RAFA, campeões de duplas desde março
Quais eram os teus wrestlers favoritos em criança e de que forma é que as tuas inspirações têm mudado ao longo dos anos? Já assumiste o teu estilo como strong style português, o teu finisher é o Coup de Grâce que estamos habituados a ver em Finn Bálor e aplicas muitos strikes, sendo que um dos teus principais signatures e mesmo finisher em tag team é o Shining Wizard
Eu mudei muito como wrestler ao longo do tempo. Mas, pá, portanto, se eu hoje me baseava em quem eu gostava quando era miúdo, isto seria diferente. Porque eu gostava muito do John Cena, do Dolph Ziggler e do Jeff Hardy. Portanto, se eu fosse uma mistura qualquer destes três, teria sido um desastre.
Mas, pronto, rapidamente percebi que wrestling não era isso, wrestling não era só apropriar aquilo de que somos muito fãs no ringue. Então comecei a explorar outros mercados, outros tipos de wrestling. E apaixonei-me por isto que é o puroresu, o Japanese strong style. Comecei a saber de pessoas como Kenta, Katsuyori Shibata e Minoru Suzuki. Portanto, estes gajos que, só com a presença deles, sem nada de mais, punham malta a vibrar, e aquilo parecia mesmo pancada. Quando dizia às pessoas que fazia wrestling, eles diziam: “Pois, pois, é como o The Rock ou como o John Cena''. E eu dizia: ''Não, não, não, é como estes aqui''. E quando as pessoas viam, seja o Kenta, seja o Shibata, davam um passo atrás e diziam: ''É pá, mas eles fazem isto a sério''. E eu: “Não, não, é a mesma coisa, mas apresentado de forma diferente”'. Apaixonei-me muito por essa forma de fazer wrestling e de contar histórias, mais física, mais corporal.
O estilo forte português surge porque, logicamente, este fanatismo pelo puroresu leva-me ao RAFA, que é quase o embodiment disso cá em Portugal, e fascinava-me muito essa pessoa, que não existia em lado nenhum, porque o RAFA não estava em lado nenhum, ninguém sabia onde é que estava o RAFA, ninguém sabia bem se o RAFA era real sequer, mas que já tinha feito isto na Alemanha, que tinha apropriado este conceito que eu gosto bem e tinha feito dele o seu próprio estilo e em português, e isso fascinava-me imenso. E quando eu o conheci, quando mais tarde nos tornamos amigos, quase melhores amigos, quase parceiros de vida, foi muito boa esta aprendizagem e a forma como ele me guiou e como me explicou o conceito do estilo forte português. Que não é nada mais nada menos do que a garra tuga, mas dentro de um archetype de puroresu.
 
Por falar em RAFA: inicialmente chamavam-te RAFA 2. Como viveste e ultrapassaste essa situação?
Para mim era incrível, por mim ainda era o RAFA 2. Para um miúdo de 14 anos que sabe o que é o RAFA, o peso que o nome RAFA tem e principalmente o RAFA era das três pessoas que eu queria emular a carreira de. Porque era das três pessoas – as outras são a Kelly e o Santos, porque eu ainda não conhecia tão bem o David [Francisco] – que eu sabia que realmente tentaram fazer disto uma carreira e conseguiram até certo ponto. Então as comparações só me davam mais sangue, só me davam mais gasolina, só me faziam querer melhorar cada vez mais. E pronto, eventualmente parei de ser o RAFA 2 e comecei a ser o Damião 1.
 

Das boleias de e para a Linha de Sintra nasceram os Murder Business

Murder Business venceram títulos em Espanha
Se no Wrestling Portugal vais tendo sucesso a solo, no Wrestlefest e lá fora é como parceiro de tag team de RAFA e “Goldenboy” Santos nos Murder Business que vais dando cartas. Como surgiu este trio? Vocês são de gerações diferentes e com carreiras algo desencontradas até certo ponto…
Como tinha dito, nunca tinha visto o RAFA pessoalmente, mas eu já era fã de todo o trabalho dele que eu tinha visto. Nós conhecemo-nos porque, pelo que ele diz, ele começou a ouvir furor sobre esta nova geração, que está a dar frutos, que está a ser muito giro, que tem que vir e que vai ser bom e que tem que vir e que vai ser bom. E ele começa, lentamente, a surgir lá nos treinos. E eu lembro-me da primeira vez em que eu estou lá num treino, oiço alguns passos e alguém está claramente a entrar. Eu olho para trás e é o RAFA. E o resto da turma meio que não quis saber. E eu estou ali: “Oh meu Deus, é a lenda viva. Ele existe”. E lembro-me que passei a última meia hora a chateá-lo para ele me ensinar como é que se faz um stomp bem feito. E pronto, aí começa um bocadinho essa relação. Entretanto, passam alguns anos e a presença dele não é constante. Ele vem, às vezes vai, às vezes vem, às vezes vai. Mas nós ficámos mais amigos numa passagem de ano [de 2023 para 2024] na qual aquilo já não estava bem para nós e rapidamente percebemos que éramos muito parecidos em contextos sociais. E o RAFA vira-se para mim e pergunta: “Tu és de onde? Eu disse, eu sou das Mercês. E ele disse: “é porque eu sou do Cacém. Queres boleia? É porque vou-me embora”. E fomos embora. Fomos às duas e ficámos, sem exagerar, até às seis da manhã num parque de estacionamento aqui ao pé de nós só a falar sobre tudo. Todas as perguntas que eu tinha, fiz. E acho que aí criou-se a primeira relação entre nós. Ele claramente percebeu que eu queria muito aprender com ele. E eu acho que isso também ajudou a libertar, se calhar, alguns estigmas que ele ainda tinha com o wrestling. E naturalmente daí surge o Santos, surge este trio. E era um bocado óbvio, não é? Eu autoproclamava-me o melhor da minha geração; o RAFA foi, sem dúvida, o melhor da geração dele; e o Santos tornou-se o melhor, indiscutível. Já que estamos aqui os três, só era lógico fazermos alguma coisa em relação a isso.
 
Mas como é que o “Goldenboy” Santos entrou?
O Santos entra na fotografia porque no início do Wrestlefest ele ainda estava muito envolvido. E cria-se a Academia do Wrestlefest, que durou muito pouco, durante alguns meses. Nós íamos todos aos treinos a Almada. E aí juntou-se a turminha: eu, o RAFA e o Santos. Éramos todos de sítios perto: eu sou das Mercês, o RAFA do Cacém e o Santos de Massamá. Então, depois dos treinos, as boleias eram sempre nós os três num carro.  E daí, naturalmente, começámos a marcar cafés e outras coisas. Acho que o que ajudou foi ser uma relação muito humana, muito natural. Pouco wrestling, sabes? O wrestling fazia parte, obviamente, mas não era o principal. Nós somos legitimamente muito parecidos em muitas coisas.
 
Já que estamos aqui no capítulo Murder Business: o que achas que o “Goldenboy” Santos tem de especial e que faz dele um dos wrestlers europeus com mais possibilidades de entrar na WWE?
Eu acho que o Santos tem uma coisa que não se ensina. O Santos tem muita fome de fazer as coisas, de provar que consegue. E eu acho que isso não se ensina. Eu acho que isso vem com a pessoa. O Santos treina muito, o Santos aprendeu muito. O Santos é muito crítico sobre ele mesmo. Quando vamos fazer um combate em Madrid, o Santos é main eventer, é pelo belt, e podia passar o resto daquela noite tranquilíssimo da vida, porque foi um bom combate, a crowd estava lá. Não estragou nada a forma como as pessoas o veem. Mas, em vez disso, muitas vezes a gente sente, por exemplo, num parque, ou no nosso hotel, ou por onde vamos ficar, e ficamos a dissecar detalhe a detalhe o que é que poderia ter sido diferente, porque é que ele fez isto e não fez aquilo. Portanto, este espírito crítico também, eu acho que cria esta aura que ele tem à volta dele e que faz com que ele melhore de combate para combate, que é uma coisa ridícula e que eu tento apropriar para mim também. Eu acho que isso o diferencia não só de toda a gente aqui em Portugal, como de muita gente pela Europa fora.

 
Também te vias a participar num reality show?
Não. Muito simples, não. Não tenho perfil. O Santos controla-se bem, eu não. Eu acho que são fases diferentes de vida. Eu acho que são objetivos de vida também um bocadinho diferentes. Eu tenho 20 anos, estou no início da minha vida em geral, não só no wrestling. Nunca foi um mundo que me puxasse muito. Não tenho grande interesse em ir para os tabloides, nem para as revistas cor-de-rosa, nem nada do género. Apoio muito o meu amigo, mas é porque ele tem as características para, eu não acho que tenha. Nunca sequer pensei nisso, não.
 
No último show do Wrestlefest, o host Ramon Vegas referiu-se a ti e ao RAFA, campeões nacionais de tag team, como a melhor equipa da Europa. Pelo que vais vendo, sentes que é uma afirmação legítima? E crês que será mais fácil conseguir oportunidades lá fora enquanto lutador de tag team ao lado do RAFA?
Sim, sem dúvida. E sim, sem dúvida.
Em relação à questão de sermos das melhores equipas europeias, isso eu acho que vai ser sempre um debate, seja como for, mas, facilitando, eu acho que quando nós começámos a nossa jornada como tag team Europa fora, ainda havia muita gente de níveis acima do nosso. Conforme o tempo foi passando, conforme a nossa experiência como tag team foi aumentando, eu acho que essa distância começou a ficar um bocadinho mais curta, e eu sei pôr-me no meu sítio: há muita gente a níveis de nós, a níveis, níveis. Mas eu acho que já não estamos tão longe como parecia, se calhar, há uns tempos. Acho que já nos aguentamos muito bem com as melhores equipas da Europa, sim. Somos melhores que eles? Não diria isso, mas diria que já não estamos, portanto, out of play, já não estamos out of play ao pé deles.
Se em tag team é mais fácil conseguir oportunidades lá fora? Eu acho que sim. Porque infelizmente, ou felizmente, tag teams não é o que há mais. Porque as pessoas, quando entram para o wrestling, normalmente é tudo muito individual, é tudo muito o sucesso individual, o ego. Conseguir quebrar esse ego e trabalhar em equipa é um trabalho que não só muita gente não está disposta a fazer, como é um trabalho difícil, porque tu tens que ter uma conexão real com a pessoa com quem estás a trabalhar, senão torna-se muito chato. E tem que haver realmente uma dinâmica entre vocês. Mas como há poucas tag teams a surgir, se realmente houver dedicação, e trabalho posto, é mais fácil, porque nunca é fácil este mundo do wrestling independente. Nunca é fácil, mas é mais fácil começar a surgir nos rankings e ter bookings e ser apresentado como: “Olá, Sr. Booker, somos uma tag team”. Há mais probabilidades de nos ser dado uma chance do que dizer: “Olá, Sr. Booker, eu sou o Wrestler X”. Porque o Wrestler X, ele tem 100; tag teams ele tem 20. Em termos de rácio, é muito inferior.
 

 
 
 


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