O campeão europeu “infortunado” pelo FC Porto que virou comentador. Quem se lembra de Casagrande?
Casagrande passou pelo FC Porto no primeiro semestre de 1987
É um dos principais nomes do
comentário desportivo no Brasil há cerca de três décadas, mas antes foi campeão
europeu pelo FC
Porto, em 1987. Um “campeão infortunado”, segundo palavras de Pinto
da Costa, tendo custado um milhão de dólares e não ido além de nove jogos e
dois golos de dragão ao peito.
Nascido a 15 de abril de 1963 em
São Paulo, Walter Casagrande concluiu a formação e iniciou o percurso como
sénior no Corinthians,
mas um desentendimento com o treinador Oswaldo Brandão, numa altura em que
tinha apenas 18 anos, motivou o seu empréstimo à Caldense. Após brilhar no campeonato
mineiro, voltou ao timão
em 1982 e foi um dos líderes do célebre movimento da Democracia Corintiana, juntamente
com Sócrates, Wladimir e Zenon, que criou uma espécie de autogestão no clube.
Apesar de ter sido emprestado ao São
Paulo em 1984 após desagradar ao treinador Jorge Vieira por causa da sua vida
boémia, viveu no Corinthians
a melhor fase da carreira, até 1986, tendo conquistado dois campeonatos
paulistas (1982 e 1983). Paralelamente, foi chamado pela primeira vez para a seleção
brasileira, por Telê Santana, em abril de 1985, tendo disputado uma série
de jogos na antecâmara do Mundial
1986 que lhe valeram a convocatória para a fase final do torneio,
disputado no México. No Campeonato
do Mundo, “Casão” teve de se contentar com o estatuto de suplente de Careca
e Müller, tendo fechado logo a seguir a sua história no escrete,
ao fim de 19 internacionalizações e oito remates certeiros.
Em janeiro de 1987 foi contratado
pelo FC
Porto por um milhão de dólares, tornando-se na altura a maior contratação
do futebol português até então. Estreou-se com um golo num empate a dois com o Vitória
de Guimarães, nas Antas, e faturou também na semana seguinte, numa goleada
ao Samora Correia para a Taça
de Portugal (5-0). Manteve a titularidade no jogo
seguinte, uma visita ao Desp.
Chaves (2-1), mas não marcou e foi relegado por Artur
Jorge para o banco, até porque nessa altura a grande referência do ataque
portista era Fernando Gomes. Recuperou um lugar no onze na
segunda-mão dos quartos de final da Taça
dos Campeões Europeus, no terreno do Brondby, a 18 de março, mas lesionou-se
ainda na primeira metade da primeira parte, tendo fraturado a tíbia numa
disputa de bola. “Empatámos o jogo a um golo, mas perdemos um grande trunfo
para alcançar os nossos objetivos. Mas o que impressionou, e nunca mais
esqueci, foi que na viagem de regresso sentei-me a seu lado para o confortar,
lamentando o seu e o nosso azar. Então, ele serenamente disse-me: ‘Presidente,
importante é que passámos e eu vou ser campeão europeu.’ Fiquei sem palavras,
mas orgulhoso de ouvir estas palavras de um atleta que só tinha quatro meses no
nosso clube. Mais tarde, na meia-final, referi este episódio à equipa, antes do
jogo FC
Porto-Dínamo Kiev, para lembrar que um jogador assim tinha de ser campeão
europeu. E foi! Foi um campeão infortunado, mas foi”, recordou Pinto
da Costa no livro Azul até ao Fim, lançado em outubro de 2024.
Casagrande ainda voltou aos
relvados antes do final da época, tendo participado jogos diante de Farense
e O
Elvas para o campeonato e estado no banco na final
da Taça dos Campeões Europeus, diante do Bayern, em Viena. Depois mudou-se para Itália, onde
representou Ascoli e Torino.
Em Turim formou uma parceira muito bem-sucedida com o belga Enzo Scifo e o italiano
Gianluigi Lentini, tendo vencido a Taça de Itália em 1992-93 e contribuído para
a caminhada até à final da Taça
UEFA em 1991-92, marcando mesmo dois golos ao Ajax
na primeira-mão da final europeia (2-2 em casa, antes de 0-0 em Amesterdão).
Após cerca de meia dúzia de anos
afastado do seu país, regressou ao Brasil para vestir a camisola do Flamengo
em 1993, tendo sido ovacionado pelos adeptos do Corinthians
durante um jogo entre as duas equipas. Acabou por voltar ao timão
em 1994 para encerrar uma história com 256 jogos e 103 golos, tendo ainda
representado os modestos Paulista de Jundiaí e São Francisco da Bahia antes de
pendurar as botas em 1996, aos 33 anos. Praticamente desde o momento em que
encerrou a carreira de futebolista que tem sido comentador desportivo em vários
canais de televisão no Brasil, tendo passado pela ESPN e pela rede Globo.
Desde julho 2023 que está ligado ao portal de UOL. Paralelamente, publicou três
livros em parceria com o jornalista Gilvan Ribeiro: Casagrande e Seus
Demônios (2013), Sócrates e Casagrande - Uma História de Amor (2016)
e Travesia (2020). Em maio de 2015 sofreu um enfarte
e esteve internado numa unidade de cuidados intensivos, tendo sido sujeito a
uma angioplastia e a um cateterismo.
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