segunda-feira, 31 de março de 2025

O homem do charuto, 18 demissões e Toni em vez de Caiado. Assim foi a chegada de Eriksson ao Benfica

Eriksson simpatizou com Toni e juntos construíram o plantel do Benfica
Sven-Göran Eriksson era um jovem treinador de 34 anos que nunca tinha trabalhado fora da Suécia quando foi confrontado com o interesse do Benfica. Quem lhe falou disso foi Börje Lantz, o primeiro empresário sueco, que tinha como alcunhas “Senhor Dez Por Cento” ou “O Homem do Charuto”, porque estava sempre a mastigar um havano.
 
Lantz meteu-se em problemas fiscais na Suécia e veio viver para Portugal, tendo entrado em contacto com o técnico através Bo Rudenmark, um banqueiro que era adepto do Gotemburgo, clube que Eriksson dirigia na altura. Börje disse-lhe que o Benfica procurava um treinador e se mostrara curioso sobre o jovem sueco que estava a ter sucesso com o Gotemburgo, apurado para a final da Taça UEFA de 1981-82, diante do Hamburgo, após ter eliminado FC Haka, Sturm Graz, Dínamo Bucareste, Valencia e Kaiserslautern.
 
Embora existisse uma cláusula no contrato do treinador que lhe permitia sair se houvesse uma oferta do estrangeiro, assim como vários contactos entre ele e Börje, nada ficou decidido antes dos jogos decisivos da prova europeia. “Assegura-te de que ganhas a Taça UEFA primeiro”, limitou-se a dizer o empresário, citado no livro autobiográfico Sven – A Minha História, publicado em 2013.
 
O Hamburgo era claro favorito para a final da Taça UEFA, porque tinha estrelas como Felix Magath, Manfred Kaltz ou Horst Hrubesch e estava à beira de se sagrar campeão da Alemanha, enquanto o Gotemburgo tinha acabado de iniciar o campeonato sueco.
 
Na primeira-mão, na Suécia, os locais beneficiaram do mau estado do relvado, bastante enlameado, para vencer por 1-0, graças a um golo de Tord Holmgren nos minutos finais.
 
 
No segundo jogo, em solo germânico, os suecos depararam-se com um ambiente de grande confiança por parte dos alemães, que já vendiam galhardetes onde se podia ler “Hamburgo – vencedor da Taça UEFA 1982” e faziam eco de declarações repletas de arrogância por parte do treinador adversário, o austríaco Ernst Happel, mas conseguiram surpreender. Eriksson pediu a um dirigente do Gotemburgo para comprar um desses galhardetes e pendurou-o no balneário: “Não foi preciso dizer mais nada. Depois do jogo muitas pessoas perguntaram-me que instruções eu dera aos jogadores. Praticamente nenhumas.” O Gotemburgo venceu por 3-0, numa autêntica aula de como contra-atacar.
 
 
Quatro dias depois, um Eriksson já comprometido com o Benfica guiou o Gotemburgo à conquista de mais um troféu, a Taça da Suécia, ao bater o Öster por 3-2, após reviravolta.
 
A 26 de junho de 1982, o treinador comandou uma última vez os angels, numa goleada em casa emprestada, em Torsby, sobre os dinamarqueses do Naestved (5-0), para a Taça Intertoto.
 
Sven-Göran Eriksson aterrou no aeroporto de Lisboa num “quente dia de junho” e logo nesse momento sentiu a dimensão do Benfica. “Centenas de pessoas estavam atraídas pela aeronave. Pensei que estavam à espera do primeiro-ministro, ou de alguém igualmente importante, mas estavam à minha espera, o novo treinador do Benfica”, contou no livro autobiográfico.
 
Conduzido por Börje e pelo presidente benfiquista Fernando Martins até ao Estádio da Luz, ficou impressionado com o que viu na sala de troféus: “A sala estava atafulhada de troféus. Nunca tinha visto nada de tão impressionante. Então, percebi o que esperavam de mim no Benfica. Penso que foi esse o motivo porque me mostraram aquela sala.”
 
 
Apesar da conquista da Taça UEFA, a opção do presidente por um sueco de 34 anos não fora muito bem vista pela direção. Muitos dos dirigentes mostraram-se contra a direção. Depois de uma reunião na qual Fernando Martins fingiu um problema cardíaco para ser retirado de ambulância, 18 membros dos órgãos sociais demitiram-se em desacordo.
 
Já com a família a seu lado, o treinador nórdico meteu mãos às obras e implementou o seu estilo de jogo. “O Benfica estava a um nível completamente diferente do Gotemburgo. Diz-se que nenhum outro clube do mundo tem tantos adeptos relativos (…) Mas futebol é futebol. O jogo é o mesmo. Sinto que tinha dado o meu maior passo ao ir do Degerfors para o Gotemburgo [em 1979]. Provei que a minha filosofia de jogo funcionava e nunca me passou pela cabeça fracassar. As pessoas perdiam demasiado tempo a pensar nisso, achava eu”, contou o sueco, que ficou chocado com a extensão do plantel encarnado: “Havia 45 jogadores na equipa principal e eu precisava de me ver livre de uma quantidade substancial deles.”
 
A necessitar de ajuda para reformular o plantel, foi-lhe indicado para adjunto Fernando Caiado, um antigo médio do Benfica e da seleção portuguesa, mas a escolha desde cedo que não agradou a Eriksson. “Senti de imediato que a nossa química não era boa. Caiado era um homem de ideias velhas. Por outro lado, simpatizei de imediato com Toni. Toni tinha a minha idade e também tinha sido um antigo médio do Benfica. Ao fim de 13 temporadas e de mais de 400 jogos retirara-se na época anterior. Era um pensador. Tinha estudado na famosa Universidade de Coimbra, vivia para o futebol e era um curioso. Além disso, falava inglês. Em vez de Caiado, escolhi-o a ele para adjunto”, recordou o sueco na autobiografia.
 
Uma das primeiras medidas do treinador nórdico foi terminar com os habituais estágios de pré-época em lugares montanhosos longe de Lisboa, “algo de que os jogadores não gostavam”. “Quando informei que, nesse ano, ficaríamos a trabalhar no Estádio da Luz, todos ficaram contentes. Significava que podiam ficar perto de casa e das famílias”, contou Eriksson, que levou a cabo muitos jogos de 11 contra 11 para, em conjunto com Toni, decidir sobre quem dispensar.
 
 
Após uma semana, a dupla técnica livrou-se dos excedentários e ficou com um plantel mais enxuto no qual pontificavam nomes como Manuel Bento, Humberto Coelho, Fernando Chalana e Nené. A partir daí, Eriksson implementou o 4x4x2 que tanto sucesso lhe havia dado em Gotemburgo e um modelo de jogo pautado por uma marcação à zona e pressão alta.
 
“Os jogadores do Benfica não estavam habituados ao 4x4x2. Não tinham conhecimentos sobre a marcação à zona, a pressão e o apoio. Trabalhávamos um a um, dois a dois e três a três. O ponto chave era a defesa. Pegava num jogador e afastava-o dois metros para um lado, pegava noutro e afastava-o dois metros para outro: como reduzir espaços aplicando a marcação à zona? Se o defesa-esquerdo tinha a bola em dinâmica ofensiva, que devia fazer Chalana, o extremo? Repisámos os mesmos movimentos vezes sem conta. Percebo perfeitamente que os jogadores tenham odiado esses primeiros tempos de treino. Mas eu acreditava. O único problema era o da língua. Toda a equipa falava português e o meu português era praticamente nulo. Tive quatro ou cinco lições e passei a utilizar um intérprete, um rapaz sueco cujo pai era um executivo em Portugal. O seu português era perfeito, mas não era uma pessoa do futebol. A tradução ficava sempre aquém do que eu pretendia. Preferia falar inglês com Toni, que alinhava com as minhas ideias. Sabia do que se tratava. Ambos falávamos futebol”, lembrou, nostálgico.
 
 

 






 

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