O homem do charuto, 18 demissões e Toni em vez de Caiado. Assim foi a chegada de Eriksson ao Benfica
Eriksson simpatizou com Toni e juntos construíram o plantel do Benfica
Sven-Göran Eriksson era um jovem
treinador de 34 anos que nunca tinha trabalhado fora da Suécia quando foi confrontado
com o interesse do Benfica.
Quem lhe falou disso foi Börje Lantz, o primeiro empresário sueco, que tinha
como alcunhas “Senhor Dez Por Cento” ou “O Homem do Charuto”, porque estava
sempre a mastigar um havano.
Lantz meteu-se em problemas
fiscais na Suécia e veio viver para Portugal, tendo entrado em contacto com o
técnico através Bo Rudenmark, um banqueiro que era adepto do Gotemburgo, clube
que Eriksson dirigia na altura. Börje disse-lhe que o Benfica
procurava um treinador e se mostrara curioso sobre o jovem sueco que estava a
ter sucesso com o Gotemburgo, apurado para a final da Taça
UEFA de 1981-82, diante do Hamburgo,
após ter eliminado FC Haka, Sturm Graz, Dínamo Bucareste, Valencia
e Kaiserslautern. Embora existisse uma cláusula no
contrato do treinador que lhe permitia sair se houvesse uma oferta do
estrangeiro, assim como vários contactos entre ele e Börje, nada ficou decidido
antes dos jogos decisivos da prova
europeia. “Assegura-te de que ganhas a Taça
UEFA primeiro”, limitou-se a dizer o empresário, citado no livro autobiográfico
Sven – A Minha História, publicado em 2013. O Hamburgo
era claro favorito para a final da Taça
UEFA, porque tinha estrelas como Felix Magath, Manfred Kaltz ou Horst
Hrubesch e estava à beira de se sagrar campeão da Alemanha, enquanto o
Gotemburgo tinha acabado de iniciar o campeonato sueco. Na primeira-mão, na Suécia, os
locais beneficiaram do mau estado do relvado, bastante enlameado, para vencer
por 1-0, graças a um golo de Tord Holmgren nos minutos finais.
No segundo jogo, em solo
germânico, os suecos depararam-se com um ambiente de grande confiança por parte
dos alemães,
que já vendiam galhardetes onde se podia ler “Hamburgo
– vencedor da Taça
UEFA 1982” e faziam eco de declarações repletas de arrogância por parte do
treinador adversário, o austríaco Ernst Happel, mas conseguiram surpreender.
Eriksson pediu a um dirigente do Gotemburgo para comprar um desses galhardetes
e pendurou-o no balneário: “Não foi preciso dizer mais nada. Depois do jogo
muitas pessoas perguntaram-me que instruções eu dera aos jogadores.
Praticamente nenhumas.” O Gotemburgo venceu por 3-0, numa autêntica aula de
como contra-atacar.
Quatro dias depois, um Eriksson
já comprometido com o Benfica
guiou o Gotemburgo à conquista de mais um troféu, a Taça da Suécia, ao bater o
Öster por 3-2, após reviravolta. A 26 de junho de 1982, o
treinador comandou uma última vez os angels, numa goleada em casa emprestada,
em Torsby, sobre os dinamarqueses do Naestved (5-0), para a Taça Intertoto. Sven-Göran Eriksson aterrou no
aeroporto de Lisboa num “quente dia de junho” e logo nesse momento sentiu a
dimensão do Benfica.
“Centenas de pessoas estavam atraídas pela aeronave. Pensei que estavam à
espera do primeiro-ministro, ou de alguém igualmente importante, mas estavam à
minha espera, o novo treinador do Benfica”,
contou no livro autobiográfico. Conduzido por Börje e pelo
presidente benfiquista
Fernando Martins até ao Estádio
da Luz, ficou impressionado com o que viu na sala de troféus: “A sala
estava atafulhada de troféus. Nunca tinha visto nada de tão impressionante.
Então, percebi o que esperavam de mim no Benfica.
Penso que foi esse o motivo porque me mostraram aquela sala.”
Apesar da conquista da Taça
UEFA, a opção do presidente por um sueco de 34 anos não fora muito bem
vista pela direção. Muitos dos dirigentes mostraram-se contra a direção. Depois
de uma reunião na qual Fernando Martins fingiu um problema cardíaco para ser
retirado de ambulância, 18 membros dos órgãos sociais demitiram-se em
desacordo.
Já com a família a seu lado, o
treinador nórdico meteu mãos às obras e implementou o seu estilo de jogo. “O Benfica
estava a um nível completamente diferente do Gotemburgo. Diz-se que nenhum
outro clube do mundo tem tantos adeptos relativos (…) Mas futebol é futebol. O
jogo é o mesmo. Sinto que tinha dado o meu maior passo ao ir do Degerfors para
o Gotemburgo [em 1979]. Provei que a minha filosofia de jogo funcionava e nunca
me passou pela cabeça fracassar. As pessoas perdiam demasiado tempo a pensar
nisso, achava eu”, contou o sueco, que ficou chocado com a extensão do plantel
encarnado: “Havia 45 jogadores na equipa principal e eu precisava de me ver
livre de uma quantidade substancial deles.” A necessitar de ajuda para
reformular o plantel, foi-lhe indicado para adjunto Fernando Caiado, um antigo
médio do Benfica
e da seleção
portuguesa, mas a escolha desde cedo que não agradou a Eriksson. “Senti de
imediato que a nossa química não era boa. Caiado era um homem de ideias velhas.
Por outro lado, simpatizei de imediato com Toni.
Toni
tinha a minha idade e também tinha sido um antigo médio do Benfica.
Ao fim de 13 temporadas e de mais de 400 jogos retirara-se na época anterior.
Era um pensador. Tinha estudado na famosa Universidade de Coimbra, vivia para o
futebol e era um curioso. Além disso, falava inglês. Em vez de Caiado,
escolhi-o a ele para adjunto”, recordou o sueco na autobiografia. Uma das primeiras medidas do
treinador nórdico foi terminar com os habituais estágios de pré-época em
lugares montanhosos longe de Lisboa, “algo de que os jogadores não gostavam”. “Quando
informei que, nesse ano, ficaríamos a trabalhar no Estádio
da Luz, todos ficaram contentes. Significava que podiam ficar perto de casa
e das famílias”, contou Eriksson, que levou a cabo muitos jogos de 11 contra 11
para, em conjunto com Toni,
decidir sobre quem dispensar.
Após uma semana, a dupla técnica
livrou-se dos excedentários e ficou com um plantel mais enxuto no qual
pontificavam nomes como Manuel Bento, Humberto Coelho, Fernando
Chalana e Nené. A partir daí, Eriksson implementou o 4x4x2 que tanto
sucesso lhe havia dado em Gotemburgo e um modelo de jogo pautado por uma
marcação à zona e pressão alta. “Os jogadores do Benfica
não estavam habituados ao 4x4x2. Não tinham conhecimentos sobre a marcação à
zona, a pressão e o apoio. Trabalhávamos um a um, dois a dois e três a três. O
ponto chave era a defesa. Pegava num jogador e afastava-o dois metros para um
lado, pegava noutro e afastava-o dois metros para outro: como reduzir espaços
aplicando a marcação à zona? Se o defesa-esquerdo tinha a bola em dinâmica
ofensiva, que devia fazer Chalana,
o extremo? Repisámos os mesmos movimentos vezes sem conta. Percebo
perfeitamente que os jogadores tenham odiado esses primeiros tempos de treino. Mas
eu acreditava. O único problema era o da língua. Toda a equipa falava português
e o meu português era praticamente nulo. Tive quatro ou cinco lições e passei a
utilizar um intérprete, um rapaz sueco cujo pai era um executivo em Portugal. O
seu português era perfeito, mas não era uma pessoa do futebol. A tradução
ficava sempre aquém do que eu pretendia. Preferia falar inglês com Toni,
que alinhava com as minhas ideias. Sabia do que se tratava. Ambos falávamos
futebol”, lembrou, nostálgico.
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