terça-feira, 8 de setembro de 2026

Michael Stu: “Eu e o meu primo somos a melhor tag team de sempre em Portugal”

Michael Stu vai estar no main event do Algarve Wrestlefest
É o campeão nacional mais jovem e metade dos primeiros campeões nacionais de tag team em Portugal, juntamente com o primo Stefan Stu, com o qual também quebrou um estigma de mais de uma década, ao estrear-se no Wrestling Portugal sendo um lutador completamente made in APW.
 
Em entrevista, Michael Stu conta sobre como chegou ao ring name que utiliza (que não é o seu nome verdadeiro), fala sobre o desafio de interpretar o papel de vilão sendo um high flyer, passa a carreira em revista, antevê o Algarve Wrestlefest e revela as datas dos dois próximos shows da APW.
 
DAVID PEREIRA – Estamos a poucos dias do Algarve Wrestlefest, agendado para 19 de setembro no The Warehouse, em Parchal, onde vais defrontar Paulo “Knockout” Cruz e Ricky Boy pela posição de candidato principal ao Campeonato Nacional Absoluto. O que esperar do combate?
Podem esperar um banger autêntico, porque vamos ter três dos melhores lutadores em Portugal neste momento. Temos o Ricky Boy, temos o “Knockout”, temos o Michael Stu, então vai ser um grande combate. Vai ser um banger.
  
Relativamente ao evento como um todo, conheces a venue e o público algarvio. Que dinâmica podemos esperar?
Na venue cabem entre 300 a 400 pessoas, tem ar condicionado, vai estar-se bem lá dentro, e é uma sala escura, então podemos fazer um bom jogo de luzes. E teremos bar no interior do recinto. Se tivermos mais de 200 pessoas já vai ser muito bom. O último show da APW foi muito bom, tivemos muita gente, e seria fantástico juntar o público da APW ao público do Wrestlefest.
  
Nas entrevistas que me concederam, Leo Rossi e Baltazar elogiaram não só o teu, mas todo o trabalho da Stuciedade, como vilões. No teu caso, diria que tens de fazer um papel ainda mais reforçado enquanto heel tendo em conta que és um high flyer. Quais são as tuas principais preocupações quando passas a cortina para que a espetacularidade dos teus golpes seja suplantada pela tua condição de vilão?
A espetacularidade dos meus golpes é suplantada pela minha condição porque é impossível gostar do Michael Stu, que pode fazer um Moonsault, mas vai atirar ao gajo gordo na primeira fila que ele não consegue fazer aquilo, que tenho um shape que ele não tem e que como as gajas que ele quer comer.
 
Michael Stu é personal trainer de profissão
Falaste na questão do shape e realmente és dos wrestlers com melhor shape em Portugal. Achas que o cuidado com a imagem é um dos pontos menos fortes do wrestling português?
Sem dúvida. Não sou um dos, sou o wrestler com melhor shape em Portugal. Se queremos diferenciarmo-nos de alguém do público, temos de ter um físico cuidado. Não entendo quem diz que não é importante. Eu não consigo ver combates antigos porque há muitos lutadores fora de forma. A minha profissão é personal trainer, o que ajuda.
 
Tens algum cliente do wrestling?
Tenho vários clientes que gostam de wrestling, alguns dos quais vão aos shows. Os que fazem wrestling não são meus clientes, são meus amigos, e dou-lhes muitas dicas.
 
Nesse objetivo de gerar heat, os cânticos de “stupido” são algo que te deixa contente?
Claro que ninguém gosta de ser chamado de “stupido”, mas enquanto Victor Stu não me importo, quero é que as pessoas façam barulho.
 
Além de wrestler, sei que és booker da APW. Como tem estado a correr esse desafio e, apesar dos poucos shows, quais são as principais dificuldades com que te deparas?
Era algo que eu não ambicionava, mas foi uma tarefa que me foi confiada pelo nosso presidente, Tony de Portugal. Os principais desafios são ter em conta o show seguinte e fazer algo que seja positivo para toda os envolvidos, sabendo-se que vai haver sempre quem discorda. Neste momento existem muitos bons wrestlers em Portugal e fica difícil encaixar todos nos shows.
 
Também és treinador. Como está a correr esse desafio e quando são os treinos?
Também era algo que não ambicionava, mas tenho gostado muito. O que me dá mais orgulho é ver os meus alunos a saírem-se bem no circuito atual. Os treinos são às quartas-feiras das 19h às 21h e aos domingos das 15h às 18h no Clube Desportivo Recreativo da Pedra Mourinha. Estou presente sobretudo aos domingos.
 
A APW é a mais antiga promotora portuguesa, mas, simultaneamente, é a que realiza menos shows e a que tem uma academia menos reconhecida…
Essa falta de reconhecimento existe de quem está de fora, mas é injusta. Dou dois exemplos recentes vindos da Academia da APW: o Paulinho e o Rodrigues são dois dos lutadores em Portugal que geram mais reações. E ainda há o Rui Mocho, que em breve terá mais destaque e de quem ouvirão muito falar.
 
Michael Stu pontapeando Paulo "Knockout" Cruz
Estão previstos shows da APW nos próximos meses ou a ideia passa por fazer eventos no sul do país apenas em parceria com o Wrestlefest?
A APW vai fazer mais shows. Deixámos o melhor para o fim do ano. Dia 3 de outubro teremos o evento Terror no Ringue e a 5 de dezembro o Super Impacto. Ambos os eventos vão acontecer no Clube Desportivo Recreativo da Pedra Mourinha. Fiquem atentos ao Instagram da APW Wrestling.
 
Ao longo dos anos tem sido comum, em algumas entrevistas, as pessoas à frente da APW serem acusadas de alguma inércia, de não se mexerem, e um dos momentos mais emblemáticos dessas críticas foi quando chegaste a treinar sozinho ou com a tua irmã, que nem sequer é wrestler. Essa realidade mantém-se ou já é diferente?
A APW de hoje em dia está muito diferente da APW daquela altura. Isso aconteceu na fase pré-Covid, quando ainda não havia, por exemplo, o Paulinho ou o Rodrigues. Atualmente a mentalidade é diferente.
 
Voltando atrás na linha do tempo. Nasceste a 16 de fevereiro de 2000 na Moldávia, um país de que se tem falado mais nos últimos anos, devido à proximidade com a Ucrânia, que está em guerra, e a uma possível adesão à União Europeia. Que memórias tens do teu país-natal e como é que vês a possível adesão à UE e a pressão para uma aproximação à Rússia?
Tenho grandes memórias da Moldávia e muito orgulho em ser nasci. É um país muito nobre, mas, infelizmente, corrupto. À primeira vista, parece-me que a adesão à UE teria benefícios, mas não me quero meter muito na parte política…
 
Michael Stu em criança
Aos cinco anos vieste para Portugal para viver em Portimão, onde já morava o teu pai. Quando começaste a ver wrestling, quais são tuas as primeiras memórias e o que achas que te atraiu?
Lembro-me perfeitamente de que comecei a ver durante o build up da WrestleMania 23, em 2007, quando o John Cena e o Shawn Michaels eram campeões de tag team. Mas tornei-me mesmo fã na altura em que o SmackDown passava na TVI, aos domingos de manhã. Também dava desenhos animados, mas eu só queria saber de wrestling. Era como estar a ver super-heróis de carne e osso. Eu via o Swanton Bomb do Jeff Hardy e aquilo era real. Na mesma altura havia videojogos míticos da WWE, então lembro-me que uma vez até recebido o SmackDown vs. Raw 2007 como prenda de Natal.
 
Por falar em Jeff Hardy e no Swanton Bomb, que é o teu finisher. Quais eram os teus wrestlers favoritos em criança e de que forma é que as tuas inspirações têm mudado ao longo dos anos?
Tenho duas inspirações. Para mim o melhor in ring performer de sempre é o Shawn Michaels, que quando regressou de uma lesão grave nas costas ainda voltou melhor, sobretudo nos inbetweens e nas expressões faciais. Todos os combates dele eram bons.
Em termos de ídolo, esse é o Jeff Hardy. Até as minhas calças são largas por causa dele.
 
Curiosamente, tanto o Jeff Hardy com o Shawn Michaels após voltar em 2002 foram quase sempre babyfaces. Quem te inspira para seres um heel com golpes espetaculares? Há quem abdique dessa espetacularidade após um heel turn
O Eddie Guerrero. Ele conseguia ser um grande heel apesar de manter os golpes espetaculares, assim como o CM Punk nas indies. Provaram que é possível conciliar as duas coisas.
 
És um aficionado ferrenho de wrestling ao ponto de saberes os main events de todas as Wrestlemanias. Como é possível?
Sou um bocado nerd do wrestling e do Spider Man. Podes testar-me à vontade. Vi todas as WrestleManias como quem vê todos os filmes da Marvel. Talvez a WWE tenha feito bons video packages, ficaram-me todas na memória.
 
 
O que te levou a dar o passo de fazer wrestling, quando tinhas apenas 16 anos, e qual foi a reação da tua família?
Eu decidi ser wrestling aos nove anos, quando fui ver um evento da WSW na Portimão Arena [WSW European Championship, a 12 de setembro de 2009]. Mais tarde fui ver a Taça Tarzan Taborda 2014 no Aqua Wrestling e foi aí que descobri que havia uma escola e um ringue de wrestling em Portimão, mas esperei até aos 16 anos, que era considerada uma idade adequada. Falei com o meu primo e fomos lá os dois. E, passados dez anos, continuamos por aqui. A minha família não gostou nada, mas respeitaram que era esse o meu sonho, tanto que a minha mãe e a minha irmã nunca faltaram a um evento da APW.
 
Como é que correu esse primeiro treino e quem era o treinador?
Lembro-me de ter ficado sem ar durante uma queda, mas tanto gostámos que continuámos a ir. O treinador era o Arte Gore.
 
Tinhas algum background desportivo?
Sim, pratiquei futebol no Portimonense e na Escola de Futebol João Moutinho. Fui treinado pelo pai do João Moutinho [Nélson Moutinho] e joguei com o irmão do João Moutinho [Alexandre Moutinho]. Eu era muito franzino, sem massa gorda, mas a minha paixão era mesmo o wrestling.
 
Estreaste-te a 11 de junho de 2017, no evento Caminho Para a Vitória, o primeiro show da APW em quase dois anos. Que memórias tens desse primeiro combate e desses primeiros tempos?
Quando comecei a treinar, o meu objetivo era ter um combate, para ver como era. Mas depois passou a ser mais e mais. Nesse primeiro show partilhei o balneário com o A-Kid, um lutador espanhol que agora está na WWE [como Axiom], então para mim foi um grande orgulho partilhar o balneário com alguém tão talentoso.
 
Michael (em cima) e Stefan Stu e Rodrigues num show do WP
Quem se estreou no mesmo evento que foi o teu primo Stefan Stu. Como tens visto a evolução dele, física e em ringue?
Agora está num bicho. Ficou provado num teste de força que ele é o wrestler mais forte em Portugal. Quando treino com ele tenho de me preparar muito bem, e em ringue é dos melhores.
  
Nem o teu nome verdadeiro é Michael, nem o do teu primo é Stefan. E “Veri Stu”, o nome original da vossa tag team, significa “Primos Stu”. Qual o significado do vosso ring name e o que vos levou a transportar essa herança moldava para o wrestling?
Michael e Stefan são dois antigos reis da Moldávia. O booker da altura, o Cougar, gostou, e eu quis ficar com o nome Michael, porque normalmente é um nome de grandes desportistas, como o Michael Jordan. Veri Stu significa “primos Stu” e ao mesmo tempo é como se fosse “Muito Stu”, mas atualmente apresentamo-nos como Os Stus ou Stuciedade.
 
Além da herança moldava, as vossas personagens pautam atualmente pela excentricidade: grandes carros, viagens de avião, promos numa mansão com piscina…
Essa vertente é muito inspirada no Ric Flair. A genética Moldava é uma genética “Stuperior”, os Stus têm os carros, as mulheres, as limusines, as mansões e só viajam de avião. Se querem os Stus nos shows têm que pagar bem.
 
Michael Stu sagrou-se campeão da APW em março de 2019
És um nome incontornável do wrestling português sobretudo por três razões: és o campeão nacional mais jovem da história, uma vez que venceste o Título da APW, aos 19 anos e 43 dias; metade dos primeiros campeões nacionais de tag team (com o primo Stefan Stu); e, juntamente com o teu primo Stefan Stu, quebraste um estigma de mais de uma década ao te estreares no Wrestling Portugal (no WP Ladder match, a 21 de outubro de 2018) sendo um lutador completamente made in APW. Olhando para trás, o que significaram cada um desses feitos para ti e qual foi a façanha mais especial?
Quando comecei, não sabia dessa rivalidade com o WP, apenas os via como a malta de Lisboa que gosta de fazer tanto isto como nós. Só mais tarde é que soube da história da trapalhice, com a qual me rio às vezes. Lembro-me de o Ramon Vegas nos ter dito que deveríamos ir ao WP e de ter surgido um convite, do Afonso Malheiro ou do Luís Salvador, para irmos fazer um treino ao WP para mostrarmos o que sabíamos. Gostaram e fomos convidados para fazer parte da season. Fico feliz por termos ajudado a abrir essa porta.
Ser campeão da APW também teve um grande significado, embora estivesse muito aquém do wrestler que sou hoje. Não tinha muita experiência, mas na altura a APW não tinha muito star power e confiou em mim para mudar de um campeão heel [James Mathews] para outro campeão heel [Luís Mira].
Mas o mais especial foi eu e o meu primo nos termos sagrado os primeiros campeões nacionais de tag team, ainda por cima sendo o main event de um show, o Wrestlefest After Dark [18 de janeiro de 2025]. É incrível como há tão pouca gente que gosta de wrestling em Portugal e juntaram-se dois primos moldavos que gostam e tornaram-se nos primeiros campeões. Tivemos várias defesas e grandes combates. Somos a melhor tag team de sempre em Portugal e isto não é o Michael Stu a falar, é o Victor.
 
Quais são os combates de que mais te orgulhas?
É difícil, porque sou muito crítico dos meus combates e não me orgulhe muito, mas diria o combate em que ganhei o Título da APW, contra o James Mathews, apesar de não ter a experiência nem a qualidade que tenho hoje; o combate contra os Worst Generation [Damião e Luís Mestre] que terminou empatado por limite de tempo no Parque Mayer [Lisboa Wrestlefest 2]; também o combate contra os Murder Business [Damião e RAFA] em que perdemos os títulos; este último três contra três no Porto Wrestlefest Bingança! [Stuciedade contra Paulo “Knockout” Cruz, Nelson Pereira e Ricky Boy], mas se calhar, quando o for ver no YouTube, não vou gostar muito da minha performance. É esse espírito crítico que me faz querer melhorar a cada combate; e o combate contra o Baltazar no Porto Wrestlefest 2, que é o meu singles match favorito de toda a carreira.
 
 
 
Curiosamente, mencionaste vários adversários diferentes. Com quem entendes ter melhor química?
Com o Damião. Fazemos ricochete de ideias e é bastante fácil trabalhar com ele. Também gosto muito de trabalhar com o Paulo “Knockout” Cruz e o Ricky Boy. Embora o odeie admitir, também gosto muito de trabalhar com o Paulinho.
 
Por outro lado, com quem é que no cenário português gostavas de lutar entre os que nunca defrontaste? Pode ser alguém com quem tenhas lutado em tag team, mas não em singles ou dois indivíduos com quem tenhas lutado em singles, mas cuja tag team gostavas de defrontar…
Desde a Taça Tarzan Taborda 2015 que me tornei um grande admirador do RAFA, ele teve um grande combate com o Luís Salvador e depois com o A-Kid no evento da minha estreia, e gostava de o defrontar em singles. Sei que já não vai acontecer, mas tive um dark match com o Ramon Vegas [no APW Regressa, a 11 de junho de 2023] e gostava de fazer algo mais longo com ele.
 
Em março de 2019, em entrevista ao Hoje Falo Eu, disseste que adorarias defrontar o Pégaso, o que ainda não aconteceu…
É outro wrestler que gostaria muito de defrontar.
 
Ainda és bastante jovem, tens apenas 26 anos. Quais são os teus objetivos no wrestling?
Quero ajudar o wrestling a melhorar e a crescer no sul de Portugal. Via-me a vingar lá fora, mas tenho uma profissão de que gosto muito e não me vejo a larga-la.
 
Michael Stu no Porto Wrestlefest: Bingança
Para terminarmos com chave de ouro, peço para que contes a história mais hilariante que viveste relacionada com wrestling…
Depois do Covid, ia voltar a fazer um show de wrestling três anos depois, numa rumble no Wrestling Portugal [WP Taça Real, a 23 de outubro de 2022], e lesionei-me num pé durante um treino no próprio dia do show. Nem cheguei a lutar no evento. Ia ter também um singles match com o meu primo no mesmo show, estava super entusiasmado, e eles tiveram de alterar, colocando o Stefan a defrontar o Baltazar. Na altura o booker era o Pégaso e perguntei-lhe se podia pelo menos acompanhar o meu primo e ele disse que sim. Então, durante a entrada do meu primo, eu estava a andar de muletas e eu lembro-me de ele me ter dado o casaco e os óculos dele e de ter caído tudo no chão e o público começar-se a rir. Na altura foi muito triste, mas agora é muito engraçado. Lembramo-nos e rimo-nos muito com isso. Depois regressei num combate de tag team [contra João Milão e Luís Mira, no WP Alta Tensão, a 22 de janeiro de 2023] e parti um braço. A história é mais triste do que engraçada, mas é uma história que quis contar porque com muito esforço conseguimos superar tudo.
Outra história engraçada foi que tive a minutos de perder o voo para um dos combates mais importantes da minha carreira. Corremos para o avião como nos filmes, fomos os últimos a entrar no avião e por pouco perdíamos o show com a maior crowd do wrestling português dos últimos dez anos [Porto Wrestlefest: Bingança].



 
 

 


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