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| Nelson Pereira estreou-se nos ringues em agosto de 2014 |
Hoje talvez mais associado ao
facto de ser um dos fundadores e líderes do Wrestlefest,
estreou-se nos ringues há 12 anos, já lutou no Japão, nos Estados Unidos, no
Canadá e na Suíça, foi companheiro de tag team de Tajiri, defrontou Evil Uno e
fez seminários com nomes como Paul London, Pete
Dunne, Zack Sabre Jr. ou Joaquin Wilde.
David Pereira – Embora talvez agora sejas mais associado ao facto de seres um dos fundadores e líderes do Wrestlefest, és um wrestler já com uma carreira longa e recheada de experiências diversas e certamente muito enriquecedoras. Mas viajemos no tempo ainda antes de teres decidido começar a treinar. Nasceste a 18 de março de 1994 em Vevey, uma cidade na Suíça onde se fala francês, e foi lá que tiveste o primeiro contacto com wrestling…
Nelson Pereira – Foi através da televisão. Foi mais ou menos na mesma altura do que toda a gente começou a ver WWE em Portugal, mas aqui era um fenómeno muito maior do que lá. Quando eu comecei a ver wrestling em 2003, aqui já estava a começar, toda a gente já via, mas na Suíça não, só ficou moda forte para aí em 2008 ou 2009, que foi quando aqui começou a desaparecer, o que é engraçada. Quando era puto, eu era o rapaz que gostava de wrestling, porque éramos poucos. O resto via futebol ou outras coisas. Quando vinha a Portugal, no verão, é que ia à FNAC e via coisas de wrestling, no Continente podia comprar pratos de cartão e bonecos com a cara do John Cena e outras coisas que na Suíça não havia. E depois, quando me mudei para Portugal em 2009, lá já estavam a começar a aparecer os DVDs, mas já aqui já estava a desaparecer. A parte engraçada é que nunca estive no meio do boom, exceto agora, que eu acho que estamos mais ou menos num novo boom, mas é a primeira vez em que estou num sítio onde realmente há pessoas à minha volta que gostam de wrestling e veem wrestling.
Netflix e redes sociais, sem dúvida. Acho que nunca mais vai existir o conceito de alguma coisa mainstream que toda a gente vê, mas os nichos conseguem ser todos muito grandes por causa das redes sociais. É engraçado porque morreu o conceito de mainstream que toda a gente vê, à exceção do futebol, mas morreu também o conceito de nicho muito pequenino. Morreu tudo. Agora uniformizou-se tudo e quem gosta muito de wrestling agora tem comunidades enormes na Internet para falar de wrestling. Se gostas de Casa dos Segredos, o teu algoritmo vai mandar-te Casa dos Segredos. Os algoritmos estão a puxar os nichos, porque alguém que antigamente via wrestling e depois deixou de ver, de vez em quando aparece-lhe um clip no TikTok ou no Instagram e essa pessoa meteu um like e apareceu-lhe mais. Essas pessoas foram dragged in no wrestling. Há muita gente que não vê os programas inteiros, mas que se pode considerar que seguem porque veem os clips todos. Claro que a Netflix ajudou, mas acho que é mais ou mundo onde nós vivemos hoje, com os algoritmos. Acho que isso é que realmente trouxe o wrestling de volta. E tem resultado, porque a MEO Arena não encheu [com a WWE, a 3 de junho], mas teve uma casa muito maior do que na última vez em que a WWE esteve no MEO Arena. Vejo no meu dia-a-dia que há mais gente que encontro que tem algum conhecimento do que está a acontecer no mundo do wrestling. Podem não estar a ver constantemente, mas têm algum conhecimento do que está a acontecer. Há muita gente que sabe quem é o Roman Reigns ou o LA Knight do que eu estava à espera. Por isso estamos pelo menos num mini boom.
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| Nelson Pereira na estreia, no CTW "Teste de Fogo" |
O que achas que te atraiu no
wrestling e o que te levou a querer treinar? Começaste por ver WWE, mas o
produto Wrestlefest
parece assemelhar-se mais ao de uma AEW…
Não sei dizer o que me atraiu,
mas uma vez apareceu-me na televisão, achei giro, comecei a ver, na semana
seguinte também vi e por aí em diante. Acho que toda a gente tem um bocadinho
esta evolução. Começamos pelas histórias pelas coisas que não acontecem em mais
lado nenhum, porque não existe esta forma de contar histórias com desporto,
entre aspas. Claro que podemos dizer que há histórias que são contadas em
outros desportos, mas é diferente, não é a mesma coisa. Esta parte de ficção do
wrestling é a primeira coisa que nos atrai. Acho que comecei por aí e depois
comecei a gostar mais pela parte desportiva em si, que me fez descobrir mais
wrestling e que eu poderia fazer isto, porque comecei a perceber o que era o
wrestling, que não era preciso ser um homem gigante nem o melhor desportista do
mundo e que há outros aspetos na performance que não seria impossível eu fazer.
Sempre tive esse sonho na cabeça, de um dia ser wrestling, mas era muito um
sonho de criança, como ser astronauta. Nunca pensei que fosse possível, até
depois descobrir na Internet que havia wrestling em Portugal. Um dia alguém me
convidou, eu disse que sim e nunca mais fui embora.Ainda hoje o vídeo está no YouTube, de vez em quando vou lá e acho muita piada porque naquela fila há imensa gente que hoje faz parte do wrestling português. Estou lá eu, está lá o Baltazar, está lá um rapaz que é o Nuno que as pessoas não conhecem, mas é muito importante para o Wrestlefest, basicamente o nosso diretor de produção audiovisual, chamemos-lhe assim, que se ocupa muito das câmaras, do ecrã e dessas coisas, juntamente com Aurélio, e é também um dos dirigentes da Project Wrestling. Ele tem pelo menos uns cinco ou seis anos a menos do que eu, então ele é literalmente uma criança naquela fila.
Acho que eles nunca pensaram muito sobre isso. O meu pai já me teve mais velho, então teve sempre um bocado aquela mentalidade de não se preocupa tanto, tipo: “ele está bem, está safo, está tudo tranquilo. Desde que não se meta nas drogas, estou bem.” Acho que nunca falámos muito sobre isso. De vez em quando mostrava-lhe coisas e ele ria-se e eu achava piada. Já a minha mãe inicialmente estava muito preocupada, achava que eu me ia aleijar. A minha mãe sabe o que é wrestling, mas às vezes ainda há momentos que ela acha ser realidade, então tem um bocado aquele medo da mãe de ver o filho aleijar-se, especialmente quando vê sangue e outras coisas. E diz: “mas isto aqui não pode ter sido falso.” Mas hoje em dia apoia-me muito, especialmente desde que há Wrestlefest e está a ver que trabalhamos com juntas de freguesia. A minha mãe também é muito old school nesse sentido, acredita que, se estou a trabalhar com juntas é porque estou a fazer uma coisa muito bem. Então, agora está tudo bem.
Era giro. Quando fui para o CTW, o CTW era só uma escola e não sabíamos se íamos fazer shows. Na altura o CTW era mais ou menos a escola não oficial da APW em Lisboa e, para nós, o objetivo que poderíamos ter era talvez ser chamados para a Taça Tarzan Taborda no Algarve, porque na altura a APW também só fazia praticamente um show por ano, que era a Taça Tarzan Taborda no Aqua, em Portimão. E nós basicamente treinávamos para isso. A MLW também tinha começado e na altura eu treinava com uma rapariga, a Dianna Dark, que também estava a fazer os shows da MLW. Então pensávamos que, se ela estava a ir à MLW, talvez também nós poderíamos lá ir. Nunca pensámos que o CTW ia fazer shows. Quando o CTW começou a fazer shows, foi uma coisa que parecia um bocado o Wrestlefest antes do Wrestlefest, mas um bocado diferente, porque éramos todos putos de 18, 19 ou 20 anos com o projeto de fazer um show todos juntos e trabalhar todos juntos. Foi uma altura muito gira por causa disso. Enquanto as pessoas têm sempre uma coisa, como a faculdade, ou fazem parte de um clube qualquer, de alguma coisa, eu tinha o wrestling. Naquela altura era mesmo a minha vida, então ajudei muito. Também fazia muitos vídeos para o CTW. O primeiro show do CTW, quando me estreei na battle royal, foi como que o meu primeiro bebé no wrestling, vamos dizer assim. Estávamos todos juntos, a trabalhar para aquele projeto e foi incrível. Eu não sou uma pessoa que tem objetivos gigantes ou longínquos. Para mim foi “agora vou treinar wrestling”, depois “agora quero ter um combate”. E depois de ter o primeiro combate disse “agora quero ter 100 combates”. Vou metendo objetivos assim, aos poucos.
Eu tenho uma lista, mas acho que não está completamente atualizada. Devo ter uns 120, 130 combates. O meu combate número 100 foi na MLW [vitória sobre Darthus num combate de caixão, a 4 de junho de 2023], quando a MLW voltou há uns anos.
Não se sentiu inferior aos internacionais e arrancou risos ao silencioso público japonês
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| Com Red Eagle, Tajiri e Baliyan Akki num show no Japão |
Fizeste seminários e
participaste em shows com Paul London, Pete
Dunne, Joaquin Wilde, Jigsaw, Johnny Kidd e Zack Sabre Jr., defrontaste
Evil Uno e fizeste equipa com Tajiri. O que aprendeste e como eram as
personalidades deles?
De todos os que vieram cá fazer
um seminário, deu para ver que, se têm muito ego, pelo menos não mostravam.
Mostravam-se mesmo entusiasmados em ensinar. Quando lutei com o Evil Uno, ainda
não havia AEW, o Uno ainda não era tão conhecido internacionalmente, mas eu já
o conhecia, porque era um seguidor do wrestling independente e lutei com uma
pessoa que já esteve em promotoras das quais eu literalmente saco combates da Internet
para ver. É estranho dizer, mas a principal coisa que eu aprendi é que o
wrestling é o mesmo em todos os lugares. É o mesmo universo. Porque estamos em
Portugal, há muita gente que tem muito esta modalidade que aqui estamos a
brincar. Lá é maior em termos de business, mas em termos de modalidade, de
desporto, é tudo igual. Uma pessoa que é boa em Portugal vai ser boa nos
Estados Unidos, no Japão e em qualquer lado. Um bom lutador é um bom lutador em
todo o lado. Lá fora é que há o potencial de ficar melhor mais rápido porque há
mais shows, então a formação é mais rápida. Mas de resto… o Uno perguntou-me
quantos combates é que eu tinha, eu disse-lhe que uns 30, e ele disse-me:
“nunca diria que tu tens [apenas] 30 combates. Não parece.” Na altura ele
estava a começar a promotora dele, que hoje em dia se chama Mystery Wrestling e
que há pessoas que podem conhecer na Internet, e disse-me que se estivesse por
lá que ia ser bookado para os shows dele e que eu era bom o suficiente
para estar nos shows deles. Acho que foi a minha melhor lição.E depois com o Tajiri… eu não me senti inferior aos outros lutadores que estavam no ringue comigo naquela altura. Claro que o Tajiri é uma lenda, mas era um quatro contra quatro e não senti que eu era a pessoa mais fraca por ser de Portugal. Acho que estes combates me deram um boost de confiança de que o que estamos a fazer em Portugal é bom. A única diferença é que eles estão num circuito maior, têm mais oportunidade, mais publicidade, mais pessoas a ver e ganham mais dinheiro. Mas em termos da modalidade, somos todos iguais. O wrestling em Portugal não é mau.
Super calado. O meu público preferido é o português, mesmo, porque o público português ainda não viu tudo. O público americano já viu tudo. Podem estar a ver o melhor combate do mundo, mas já viram tudo, já não ficam assim, pouco os surpreende. E o público japonês é muito silencioso, mas o facto de ser muito silencioso… é um orgulho quando tu consegues mexer com aquele público. Eu lembro-me que na altura estava muito na parte da comédia e lembro-me de fazer um spot que faço muito, que é meter-me em bola e rebolar, e… ouvi risos. Num público japonês que está calado, eu ouvi risos. Eles estão atentos, mas estão calados, estão a gostar.
O Colt Cabana. Acho que é o número eu. Basicamente eu vi um vídeo da Chikara no YouTube e estava lá o treinador da Chikara, que era o Mike Quackenbush, e um lutador que era o Shayne Hawke, a fazer um spot com lá no meio. É engraçado, porque o Shayne Hawke é um dos bookers que bookou um dos meus combates nos Estados Unidos. Por isso tive de lhe dizer: estou no wrestling porque vim um vídeo teu. Pensei: eu não sei fazer muita coisa, não sou muito bom em desporto, mas isto eu sei fazer. Fazer rir pessoas? Acho que consigo. Fez-me descobrir o comedy wrestling de uma forma mais wrestling, menos Santino Marella. Depois as pessoas disseram-me que tinha de ver o Colt Cabana e ele é que me abriu os olhos, porque é um lutador de wrestling muito bom e ainda assim super engraçado. É a minha principal inspiração. É o lutador que eu quero mais defrontar um dia. Se eu pudesse buscar qualquer pessoa para o Wrestlefest, se eu tivesse fundos ilimitados, estava cá o Colt Cabana amanhã.
É de um lutador que é o Johnny Saint e já fazia isto nos anos 1960, 1970. E eu gosto muito de ir ver wrestling muito antigo porque há cosias que são esquecidas. Quando descobri, na altura era muito flexível – hoje sou menos – e estava à procura de coisas em que eu pudesse usar a minha flexibilidade, porque eu era muito pequenino e muito leve, não tinha físico. O que eu tinha era a flexibilidade. Humor e flexibilidade. Então tentava usar um bocado os dois na minha personagem. E então foi aí que surgiu a bola. Acho que sempre que fiz a bola tive reação, a maior parte positiva. Recentemente comecei a ter reações negativas, porque há pessoas que levam o facto de eu me meter em bola como estar a recusar-me a lutar. Nunca tinha tido essa reação antes, antigamente as pessoas só achavam piada. Mas é fixe. Dá para usar isto noutra dinâmica também.
“O CTW tinha o melhor treino, o que te ensinava as melhores bases que havia em Portugal”
Estiveste cerca de sete anos e meio no CTW, que em tempos disseste ser a tua casa. Chegaste a dizer em entrevistas que o Red Eagle era o melhor treinador em Portugal, foi lá que te começaste a sentir wrestler a sério, que fizeste amizades que estiveram inclusivamente na génese do Wrestlefest e que passaste pelos tais seminários e experiências internacionais. Que balanço fazes desse período e o que te levou a sair em 2022? Foi ainda antes de rebentar o caso da Cláudia Bradstone…Continuo a achar, sinceramente, que o Red Eagle é o melhor treinador em Portugal, por mais problemas que eu tive com ele. Ou pelo menos era, porque já há seis anos que não treino com ele. Era um excelente treinador. Agora o WP tem o Damião e o Paulo Cruz, que já tiveram treinos lá fora e começaram a trazer um treino mais parecido com o que era o meu treino. Mas na altura o CTW tinha o melhor treino, o que te ensinava as melhores bases que havia em Portugal. A minha relação pessoal com o Red Eagle é que nunca foi a melhor. Porque é que eu saí do CTW? O CTW era a minha vida durante os sete anos em que lá estive. Quando não estava lá a treinar estava em casa a pensar no CTW. Há muita gente que não sabe disso, mas a equipa que hoje gere o Wrestlefest, que sou eu, o Leo Rossi e o Luís Manuel, éramos os bookers do CTW quando lá estávamos. Basicamente o Red Eagle é que tinha a decisão final, era o chefe, mas nós escrevíamos, apresentávamos e ele dizia sim ou não. E 99% das vezes ele disse que sim. Por isso, eu era booker, trabalhava nas redes sociais, era wrestler… o CTW era a minha vida. Depois com o Covid tudo parou. E quando tudo parou, também deixei de fazer wrestling. E basicamente parece que redescobri a vida, descobri que havia outras coisas fora do CTW e voltei a fazer outras coisas que já não fazia. E o wrestling deixou de consumir a minha vida completa. E depois, quando o CTW voltou, depois da pandemia, fui lá e aquilo tinha mudado muito. O ambiente dos treinos tinha mudado muito. O facto de termos ficado todos muito afastados durante a pandemia mudou o ambiente que tínhamos, que era muito unido. Os treinos, que antes eram uma festa, tornaram-se mais frios, e eu não gostei. A primeira coisa que eu pensei é que já não gostava de wrestling. Quando saí do CTW, era mesmo para sair de wrestling, mas o bichinho voltou. E quando voltou, entrei em contacto com o CTW para voltar a ajudar, mas vi que não havia interessa da parte deles, não sei porquê. Não sei se o Red Eagle estava chateado por eu ter saído, mas vi que ele já não tinha interesse em eu voltar. Então, não voltei e fui para o WP. E depois aconteceu aquilo tudo, da Cláudia. Eu já tinha ouvido coisas, mas eu já não estava lá, por isso, só sei o que me contavam. Mas depois as pessoas saíram todas do CTW para ir para o WP. E na mesma semana do primeiro show do Wrestlefest foi quando explodiu o caso. Mas foi um acaso, literalmente um acaso. Eu não sabia que ia tudo sair. Eu já tinha falado com a Cláudia e o Lobo Ibérico, que eram os meus amigos fora do CTW há muitos anos, mas eu não estava à espera que o CTW explodisse naquela semana. Por isso, eu não tenho nada a ver com essa parte.
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| Nelson Pereira e Cláudia Bradstone são amigos próximos |
Por falar no caso da Cláudia.
Como promotor, como terias gerido essa situação?
A decisão dele [Red Eagle]
foi tipo: “eu tenho de ficar imparcial.” Não pode. Não é assim que funciona. Se
eu tenho os casos à minha frente que mostram factualmente que há uma coisa que
aconteceu e que há uma pessoa que é culpada, eu tenho de ver quem é que está
culpado e sou responsável. Eu não estava lá por isso também não quero estar a
fingir que estava lá e vi tudo, mas ouvi as partes e o que eu sei é que o
roster todo saiu e só ficou lá uma pessoa, o Abreu. Ele e o Red Eagle
foram os únicos. Se toda a gente sai é porque as pessoas estavam lá e viram as
coisas que aconteceram. Tem de haver alguma verdade, não é? Ele não devia ter
ficado imparcial, não se pode ficar imparcial nessa situação. Se tu és promotor
e és responsável por um sítio, às vezes há decisões difíceis, mas que têm de
ser tomadas. Se toda a gente concorda que uma pessoa é um problema, é a pessoa
que é o problema que devera sair. Não deveria ser o resto. Eu não teria feito
como ele.O treino do Red Eagle era muito completo e o treino do WP era menos completo, porque o treino do WP era muito baseado no treno que o Bammer teve do Lance Storm, que segundo sei até porque conheço outras pessoas que treinaram lá, era muito mais baseado em wrestling americano, wrestling WWE, o que faz sentido, porque as pessoas que iam para a academia do Lance Storm eram pessoas que queriam trabalhar no wrestling e durante muitos anos a WWE era o único sítio onde se podia trabalhar no wrestling.
Já o Red Eagle era um bocado um nerd do wrestling, tal como eu, e então ele queria introduzir nos treinos coisas do Japão, do Reino Unido e do México. Então o treino era uma mistura disto tudo. Mas hoje em dia o wrestling já evoluiu para um nível onde se vê de tudo, então acho que a maior diferença que notei é que vim de um treino muito completo para um treino que só tem, entre aspas, uma vertente do wrestling. Não é por culpa de ninguém, foi só a forma como eles, na altura, se formaram e estavam a formar as pessoas. Mas depois foi muito giro ver aparecer muitos lutadores muito novos, que se estavam a iniciar, como o Damião, o Pedras e o Paulo [“Knockout”]. Eram muito novos no wrestling, e era giro ver aparecer essa nova geração, porque no CTW já estávamos lá todos há vários anos. Mesmo o treino não sendo tão completo como no CTW, eu tinha muito gosto de ir treinar ao WP por causa disso, as caras novas, uma nova geração motivada por fazer wrestling, e também porque eu gosto de todo o wrestling e para quem, como eu, que cresceu a ver os Web Shows do WP, poder treinar no Shotokai com o Bammer era giro. Quando conheci o Bammer, o Korvo e o Pégaso, para mim era mesmo estar a conhecer pessoas importantes, que para mim eram estrelas. E quando conheci o Rafa, a primeira vez que o vi, fiquei a olhar para ele tipo parado no tempo, porque o Rafa tinha desaparecido, ninguém sabia onde é que ele estava e passei a trabalhar com ele. Entretanto, o treino do WP também tem evoluído, porque o Paulo e o Damião começam a ter mais experiência internacional.
Carregou o Inter Species Wrestling Undisputed King Of Crazy Championship
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| Nelson com o ISDub King Of Crazy Championship |
Em 2024 e 2025 tiveste dois
reinados enquanto campeão do ISDub Undisputed King Of Crazy Championship, da
promotora canadiana Inter Species Wrestling (ISDub), que pelo meio teve Cláudia
Bradstone como detentora e foi defendido oito vezes em eventos do Wrestlefest.
Como surgiu essa oportunidade e qual é o conceito do título?
Quando estava no CTW e tinha
acabado de me estrear, em 2014, eu seguia uma promotora na Internet que era a
Inter Species Wrestling, que na altura era completamente comedy wrestling,
mas um comedy wrestling mais para adultos. Era muito estúpido, mas no bom
sentido: havia, por exemplo, uma vaca terrorista e um advogado que era meio
homem, meio polvo. Pode parecer muito parvo, mas era o que era e eu achava
muita piada. Então segui nas redes sociais o promotor, que é o Mike [Woods], e
ele um dia estava à procura de alguém para fazer um vídeo, os highlights de um
show. Eu tinha feito isso para o CTW e mandei-lhe e disse que fazia. Então ele
disse que eu podia fazer e fiz, para dois shows dele. Ele agradeceu-me e
disse que, se um dia eu estiver na América do Norte, seria bookado. Em
2018, fui para o Canadá e disse-lhe que estava lá. E ele bookou-me com o Evil
Uno. A partir daí desenvolveu-se uma amizade entre nós, principalmente online,
e fiquei a adorar o Canadá. Depois da pandemia, em 2021, eu estava
completamente fora do wrestling, mas o Mike enviou-me uma mensagem a dizer que
a mulher dele tinha falecido e que o próximo show seria em homenagem a ela e
que, como ela gostava muito de mim, ele queria que eu estivesse no show. Eu
disse-lhe que não lutava há ano e meio, estava mais ou menos reformado, mas eu
não podia dizer não a uma coisa dessas, então fui ao Canadá 24 horas. Fui num
dia e voltei no outro, tive um combate com o Sexxxy Eddy, que também era alguém
que eu seguia nas indies e correu bem o combate. E foi isso que me
trouxe o bichinho de volta, para depois ir para o WP. Por isso, a Inter Species
Wrestling tem uma grande importância para mim por causa disso. Foi a primeira
promotora internacional que realmente me deu uma oportunidade. Não sou uma
simples oportunidade, mas também um nome grande, o Evil Uno. Se não fossem
eles, provavelmente eu não teria voltado ao wrestling. Ou pelo menos não tão
cedo. Quando voltei lá depois para uma tour, disseram-me que me queriam da o
título. Não disse que não. Por isso também foi muito giro, porque foram os
primeiros a confiar em mim para me dar um título. Na altura já havia o Wrestlefest
e eu só queria trabalhar com a Cláudia,
porque somos muito amigos, é a minha amiga mais próxima no wrestling, e
disse-lhe que íamos lutar pelo título. Depois foi ideia do Mike: “olha, e se a Cláudia
ganhasse o título? As pessoas iam gostar?”. E eu disse-lhe que iam gostar e ele
deu-me para eu fazer o que quiser. Depois fizemos esta história entre mim a Cláudia,
de lhe dar o título e depois recuperar para o levar de volta ao Canadá. Sei que
foi super importante para ele e também foi super importante para mim, foi das
melhores coisas que fiz no wrestling e uma das coisas de que mais me orgulho no
Wrestlefest
também. Foi uma história que as pessoas estavam a gostar. Continuou a dizer que
a Inter Species Wrestling é a minha casa e o Mike é um dos nomes mais importante
na minha carreira. O Red Eagle
porque me treinou e o Mike porque me deu estas oportunidades todas, foi
realmente o primeiro promotor que viu alguma coisa em mim.Pois, não aconteceu… Quando ele se retirou do wrestling durante muitos anos, por causa de uma lesão, e depois voltou a treinar, por acaso nós é que tivemos a ideia de o trazer de volta ao wrestling. O Tony de Portugal é uma pessoa que, não parece, mas é super humilde, que não tem a noção do impacto que ele teve para o wrestling em Portugal e do que as pessoas pensam dele como lutador. E eu já lhe disse também que gostava de trabalhar com ele, gostava de ter um combate com ele, e ele diz-me que todos lhe dizem isso e não percebe porquê, mas agradece. Acho que o Tony já provou que consegue manipular um público como pouca gente consegue em Portugal. Então, especialmente se és babyface contra um Tony heel, é uma coisa que eu gostaria de fazer, sem dúvida.
Com quem tenho mais química é o Lobo Ibérico e o Leo Rossi.
Quanto aos combates que mais me orgulho, orgulho-me muito do primeiro com a Cláudia, no qual ela ganhou o título. Acho que foi perfeito, pelo que foi. Dos combates que tivemos, foi o melhor de todos. Gostei muito.
Prometi que não ia lutar mais com ele. Foi a storyline do primeiro Almada Wrestlefest. Eu disse que queria lutar com o Lobo Ibérico e queria que fosse o último combate. Nunca mais irámos lutar um contra um, nunca na vida. Ele ganhou esse combate e, em três anos, nunca mais lutámos um contra um. Estivemos em combate multi-man onde estávamos os dois, mas nunca mais lutámos um contra um. Só que agora ele é campeão de Lisboa e eu quero ser campeão de Lisboa. As pessoas sabem qual é a minha ligação ao Wrestlefest, mas eu nunca usei a minha ligação ao Wrestlefest para me meter em vantagem em lado algum. Nunca aconteceu e nunca vai acontecer. Eu consigo fazer a diferença entre o Nelson lutador e o Nelson promotor. Poderia bookar um multi-man e meter-me ali para ver se posso ganhar o título. Mas eu acho que gosto de ganhar os títulos um contra um. Acho que é uma coisa diferente. Mas também prometi às pessoas… não sei… é uma situação complicada.
Por acaso, não. Tive sorte. Nunca me lesionei gravemente. Nem me consigo lembrar de nada especial. Tive uma lesão que muitos atletas têm, que foi o cotovelo encher-se com líquido, super inchado. E depois tens de ir ao hospital e ele drena. Aconteceu mesmo antes do combate com o Evil Uno. Foi a primeira vez que usei a manga, para proteger o meu cotovelo, que estava inchado. Depois gostei do look e guardei. Mas foi a única coisa. O que é estranho, tendo em conta a quantidade de coisas malucas que já fiz no ringue.
Descobri que, infelizmente, temos de dar crédito aos espanhóis. O primeiro a trazer wrestling a Portugal foi um promotor espanhol, que era o José Salvador, um promotor de Barcelona. Não foi o primeiro a fazer shows em Portugal, mas foi o primeiro a fazer shows constantemente em Portugal. Foi o primeiro a ir para o Parque Mayer e encontrou o Zé Luís, que era na altura o único português que ele usava, não sei como o encontrou… e a promotora de Barcelona tornou-se uma promotora de Lisboa.
1947. Antes houve, nos anos 1930, um promotor de França que trouxe um lutador português que era um lusodescendente que estava nos Estados Unidos, o Al Pereira, que ganhou o título europeu em França. Então ele teve a ideia de trazer o campeão europeu em Portugal para atrair pessoas. E foram só três ou quatro eventos. Mas depois desapareceu e não houve mais wrestling… até ao espanhol, o José Salvador, que trouxe o grupo dele de Barcelona para Portugal e começou a fazer shows no Parque Mayer regularmente.
Depois deu para ver a evolução. Nos anos 1940 e 1950 era uma constante. Todas as semanas havia wrestling no Parque Mayer. E nos anos 1960, quando o Tarzan Taborda finalmente voltou para Portugal, após ter estado em França, tornou-se a estrela e o público realmente aumentou. Nessa altura foram para o Campo Pequeno e para o Pavilhão dos Desportos e o público não parou de aumentar.
E depois, é muito engraçado, acontece o 25 de Abril e o wrestling morre. Na mentalidade de muita gente, ou o país tinha mais para se preocupar ou então simplesmente viam o wrestling como um espetáculo de antes do 25 de Abril. Mas o que é facto é que em 1975, 1976, o wrestling morreu em Portugal. O Tarzan tentou voltar a fazer shows nos anos 1980, e fez um ano, mas foi completamente gozado. Enquanto os jornalistas antes falavam de wrestling com respeito, passaram a gozar com aquilo, a dizer que é tudo circo.
E depois foi preciso esperar quase pelos anos 2000 para voltar a ver wrestling em Portugal. Foi um produto do seu tempo. Não sei o que é lhe causou a morte, mas coincidiu mesmo com o 25 de Abril.
Tenho tantas. Posso contar esta. Hoje em dia rio-me, mas na altura não estava a rir. Quando foi o primeiro Wrestlefest, eu não tinha ringue e falei com a APW para alugar o ringue deles. Tudo muito bem. O que eu não saba é que para alugar uma carrinha era preciso um cartão de crédito. Nunca tinha alugado um carro. Então o que é que acontece? Fomos todos para o Algarve, todos muito felizes buscar uma carrinha, e não temos cartão de crédito. Ficámos em pânico, a ligar a toda a gente que conhecíamos para ter um cartão de crédito para alugar a carrinha. Teve de vir um lutador que é o Luís Mira e um amigo nosso, o Didi, que tiveram de ir num carro que não é feito para viagens longas, que não passa de 80 km/h, de Lisboa para o Algarve, só simplesmente para levar um cartão de crédito para alugarmos a carrinha para haver o primeiro Wrestlefest. Isto na altura foi super stressante. Agora que penso, Coitadinho do Didi, a meio da tarde de uma sexta-feira, a ter de ir ao Algarve, só para eu poder alugar a carrinha, no carrinho dele, que é amarelo vivo. E depois eles chegaram lá ao Algarve. E, quando chegaram, parecia que Portugal tinha ganho o Mundial. Fizemos uma grande festa e depois fomos todos buscar o ringue.
Mas essa história da viagem ao Porto foi a mais hilariante. Posso dar seguimento à história, porque aconteceram mais coisas nesse fim de semana. Fui eu, a Cláudia, um lutador que era o Stephen Oliveira (que para quem não sabe um português que estava nos Estados Unidos e lutou na WCW e que acho que agora ainda está a treinar no CTW) e a Lara, que as pessoas conhecem porque na altura apresentava um programa que era o CTW Primetime. Fomos todos para o Porto e fomos logo montar o ringue no Iberanime. Eu estava de direta e passei o dia todo de direta, a fazer combates no Iberanime. A seguir fomos todos ao Continente e eu estava tão cansado que adormeci no meio do Continente. Nem sei como é possível. Acordei e estava deitado no Continente, ao pé do leite, porque estávamos à procura de leite. O Red Eagle tinha-nos arranjado um hotel qualquer lá no meio do Porto e, naquela altura, por alguma razão, havia obras por todo o lado, as estradas estavam todas cortadas e estava a chover torrencialmente. Estou a tentar voltar para o hotel, a ficar sem gasolina, de direta. O Stephen [aka Steven O], coitadinho, na altura tinha problemas no joelho, um coágulo no joelho, o que faz com que não possa ficar sentado muito tempo, começou a ver que estou em pânico, porque não conheço o Porto, é de noite, está a chover, não sei onde há bombas de gasolina e que o GPS me manda para as estradas que estão cortadas. Ele está a ver que estamos todos a entrar em pânico e também começa a entrar em pânico, aos gritos, a dizer que tinha de sair do carro para não ter outro coágulo no joelho. Parece um filme, com quatro pessoas em pânico no meio do Porto, sem dormir. E finalmente arranjámos gasolina e chegámos ao hotel… e é o pior hotel de todos os tempos, ao ponto de ter havido pessoas que tiveram de tomar banho de chinelos porque não queriam ir descalços para dentro do duche.





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