terça-feira, 1 de setembro de 2026

“Gosto de dizer que o Lobo Ibérico seria eu se fosse um filho da puta de primeira” (Parte 2)

Lobo Ibérico é o atual campeão de Lisboa no Wrestlefest
Começou a ver wrestling ainda no tempo em que a RTP transmitia shows da WWF e esteve ligado à blogosfera durante vários anos, mas após uma sugestão de um dos fundadores e primeiro campeão da APW decidiu trocar o teclado pelo ringue e construir uma carreira que já leva uma dúzia de anos.
 
Na segunda parte desta entrevista, Lobo Ibérico explica o processo de elaboração da sua personagem, explica porque tem um vastíssimo leque de golpes, faz um balanço de uma década de CTW e justifica a saída da promotora liderada por Red Eagle.
 
DAVID PEREIRA – Nasceste a 14 de abril de 1987 na Guarda, o que faz de ti um dos mais velhos wrestlers portugueses no ativo. Quando começaste a ver wrestling, quais são tuas as primeiras memórias e o que achas que te atraiu?
LOBO IBÉRICO – A primeira vez que eu tive contacto com wrestling foi através da RTP e até me lembro que, quando era miúdo, o meu wrestler favorito era o Papa Shango, porque eu tinha um grande fascínio por filmes de terror e personagens de filmes de terror. O Papa Shango fascinava-me na altura por ter o cajado com o fumo, fazer aqueles voodoos e os outros cuspirem preto. Achava piada à personagem e até me lembro que eu tinha brinquedos que na altura saíram, que eram figurinhas estáticas, mas que conseguiam mexer os braços e lembro-me que tive o Million Dollar Man e acho que o Hulk Hogan. Depois também passou a série dos desenhos animados do Hulk Hogan.
Entretanto isso desapareceu da RTP e, anos depois, talvez com os meus 15 ou 16, lembro-me que um primo que estava a morar perto de mim tinha uma PlayStation 2 e ele tinha um daqueles CDs de demos com o WWE SmackDown! Shut Your Mouth. Jogávamos àquilo religiosamente. No demo podíamos fazer dois combates, singles e tag team, só duravam cinco minutos e tínhamos seis personagens: Triple H, Undertaker, Kurt Angle, The Rock, Stone Cold Steve Austin e acho que me estou a esquecer de algum.
Só comecei a ter contacto com o produto mais moderno quando fui de férias para o Algarve e, na casa onde estávamos, que era de um amigo da família, havia parabólica. Eu estava a fazer zapping e parei num canal, não me lembro qual, onde estava a dar o SummerSlam 2003, quando houve a segunda Elimination Chamber. Comecei a vê-los a entrar, vi o Triple H e reconheci-o devido ao jogo. Fiquei a ver e foi aí que comecei a ganhar contacto com o produto mais moderno.
Entretanto, passou a dar na SIC Radical pouco depois, e eu tinha um amigo da escola que gravava os episódios do Raw em VHS, então ele gravava aquilo durante um mês e emprestava-me a cassete, e eu ia lá ver aquilo tudo. Entretanto a Internet nessa altura já estava mais desenvolvida e comecei a ir aos Cybercafés, a investigar coisas, e descobri TNA, New Japan Pro Wrestling e um pequeno site que contribuiu para o fandom do wrestling na altura, o Galáxia Wrestling, que permitiu a fãs em Portugal juntarem-se e partilharem e descobrirem conteúdo.
Havia um membro na altura, cujo nick penso que era RuteHHH, e chamavam-lhe a Deusa, porque ela publicava os vídeos dos episódios dos shows e dos pay-per-views com uns dois dias de atraso. Graças a ela conseguíamos ver os episódios. Depois as coisas começaram a evoluir e outra malta começou a descobrir como é que isso se fazia e a publicar também.
 

“Queria ser para o Red Eagle como o Black Tiger para o Tiger Mask”

Máscaras de Abismo Negro e Taniguchi foram inspiração
E, ao longo de todos estes anos, onde é que foste buscar as inspirações para criar o Lobo Ibérico? Foi um bocadinho daqui, outro dali?
Um bocado por aí. É uma pergunta que as pessoas me fazem: o que é o Lobo Ibérico? Quem me conhece vai dizer que o Lobo Ibérico sou eu mesmo, mas multiplicado por 100. Gosto de dizer que o Lobo Ibérico seria eu se fosse um filho da puta de primeira.
Na altura queria diferenciar-me um bocado e pensei que não era o wrestler mais técnico nem mais forte, mas que me conseguia diferenciar um bocado pela personalidade. Reparei que em Portugal não havia muitos mascarados – havia o Red Eagle no CTW e o Seth na MLW – e pensei em ser mascarado.
E já que estava no CTW e tinha lá o Red Eagle, queria tentar ser o oposto dele, como o Black Tiger para o Tiger Mask, o que é irónico, porque um dos wrestlers favoritos do Red Eagle, na altura, era o Tiger Mask, e tem muitas coisas do Tiger Mask no arsenal dele. Então pensei: “Somos os dois mascarados, então se ele é vermelho, vou ser azul; ele é águia, vou ser outra coisa. O que é que eu posso ser? Um predador, certo? Que predador é que temos em Portugal? Não vou chamar-me dragão ou urso. Vou pensar em algo que tem a ver comigo e que represente Portugal. E o lobo é o maior predador português". É um nome que funciona e que, se traduzir para inglês, funciona bem: Lobo Ibérico, Iberian Wolf.
O fato até fui eu que desenhei. Quanto à máscara, tirei inspirações de vários sítios, como o Abismo Negro e o Maybach Taniguchi. Gostava da dinâmica das máscaras e pensei que, se usasse barba, ia funcionar.
Em termos de personalidade, fui tirando pequenas coisas daqui pequenas coisas dali, experimentando isto, experimentando aquilo, e comecei a aprender que um dos meus melhores atributos era a agressividade. Eu, naturalmente, sou um gajo que, vocalmente, sou bastante alto, então senti que tinha de projetar bastante a minha voz, ser um gajo que berra, que provoca o público. Depois fui construindo o meu estilo e fui evoluindo.
Gosto imenso de technical wrestling. Só que o problema é a imagem que eu passo, a imagem da personagem. Até o Bammer uma vez me disse, quando eu dizia que queria experimentar isto ou aquilo, que quando olhava para mim não me via a fazer isso. Essa é uma luta que tenho tido bastante, porque quero usar um estilo, no entanto, a personagem que eu desenvolvi ao longo dos anos não é compatível com esse estilo.
  

“Tenho a alcunha de ‘O gajo dos 1000 finishers’”

Nota-se que és uma espécie de technical monster
Sim, sim. Basicamente tenho tentado criar um estilo híbrido. Tenho aquela parte de brawler, powerhouse, mas depois tenho um bocado a parte técnica à mistura. Tento usar as coisas técnicas que eu sei, mas de uma maneira que tenha lógica para a personagem. Aliás, uma alcunha que me davam no CTW, e ainda carrego hoje, é de que sou o gajo dos 1000 finishers. Porquê? Não é porque sei mil golpes, se bem que nesta fase da carreira provavelmente sim, mas porque eu queria experimentar coisas novas em todos os treinos, trazia sempre coisas novas que queria tentar, e estava sempre a tentar fazer evoluir o meu arsenal. Por isso é que, nesta fase, já tenho uns sete ou oito Backbreakers e uns seis finishers. Estou sempre a tentar fazer evoluir a personagem. 
 
Um Dragon into German Suplex em Paulinho
Numa recente entrevista ao Hoje Falo Eu, O Gomes considerou-te um dos wrestlers mais subestimados em Portugal, e és constantemente referido como alguém com um vastíssimo leque de moves, uma espécie de “Man of a 1000 Holds” do wrestling português. Crês que é esse o teu legado?
Não. Longe disso. Se há coisa que aprendi é que não são os moves que ficam na cabeça das pessoas. Aliás, vou dar-te um exemplo: Quando estávamos no CTW, lembro-me que um dos primeiros shows que a minha família foi ver foi um em tivemos lá o Mad Dog Maxx, que é um wrestler de Birmingham já com bastante experiência e que foi o primeiro treinador do Andy Hendrix. Lembro-me que, no final do show, vim falar com a minha família e que alguém me disse que o seu preferido foi o gajo da cerveja, ou seja, o Mad Dog Maxx, que fez uma entrada a beber uma cerveja, durante o combate bebeu uma cerveja e depois, no final, ainda bebeu outra cerveja. E isso ficou-lhes na mente.
Por isso, duvido que vá ficar conhecido como o gajo dos mil moves. Vou ser provavelmente lembrado como o gajo mascarado, muito peludo, que mandava as mulheres fazer-lhe uma sandes, que dizia que rafeiro era o pai deles e que as pessoas gostavam de uivar e provocar. Acho que são mais as personagens que ficam na mente das pessoas do que propriamente move-sets, a menos que sejas um Zack Sabre Jr., que tem toda a personalidade dele à volta de ser o melhor technical wrestler. Podem lembrar-se que tal gajo faz um moonsault fantástico, mas não vai ser o meu caso.
O facto de eu querer aprender e saber tantos moves também ajuda um bocado à dinâmica de treinador, porque principalmente agora faço questão de muitas vezes fazer pesquisa de quantos reversals é possível fazer a partir de um Headlock ou de outro move ou quantas versões de um pin consigo fazer. Quanto mais conhecimento eu tiver, mais consigo partilhar com os meus alunos. Agora a minha mentalidade já não é tanto aprender para experimentar, mas poder passar e ensinar.
 
E como foi a adaptação à máscara?
Não foi muito má, mas a minha máscara tem uma vantagem, que é não esconder assim tanto a cara. Muitas máscaras escondem os olhos ou a boca, então é difícil ver as tuas expressões faciais, mas a minha já é um bocado mais ampla e consegue ver-se bem a minha boca, a barba e os olhos, então fica mais fácil fazer as minhas expressões faciais e mostrar o que quero passar. No entanto, a visão periférica fica um bocadinho mais limitada. Não me atrapalha em termos de calor, porque sou praticamente careca e a barba fica de fora, e até diria que tenho mais dificuldade em relação às minhas gears, sobretudo esta última, preta e prateada, que é pesada e quente. Então, traz-me mais dificuldades. Mas tenho a noção que não é fácil lutar de máscara. Aliás, fica aqui um conselho para a malta que quer lutar com máscaras: aprendam a expressar-se corporalmente porque não vão poder depender das vossas faciais, vocês vão ter de ser muito mais expressivos corporalmente para passarem o que querem. É um handicap bastante grande às vezes. Aliás, tenho uma máscara que penso que seja do Dos Caras, que me foi oferecida, e às vezes levo-a para os treinos para a malta que gostaria de lutar de máscara experimentar. E eles aí percebem que não é confortável nem agradável. Outro fator é o preço: muitas vezes uma máscara custa tanto ou mais do que uma gear completa. Para teres uma ideia, tive três máscaras durante a minha carreira, duas delas vieram do México e só em portes custaram-me os olhos da cara. Felizmente, esta última prateada foi feita cá em Portugal pela grande Sónia, que está a fazer quase todas as gears do wrestling português, e a primeira máscara que ela fez foi um trabalho do caraças. Quem quer ser lutador mascarado que se prepare para desembolsar a nota. Essa parte não é barata.
 
 
De onde surgiu a alcunha de “Executor”?
Isso surgiu no meu regresso após o Covid. Quando regressei deram-me uma onda de vitórias, começaram a elevar-me para o main event, para a rota do título do CTW e uma coisa que comecei a reparar foi que, em certos combates, eu parecia decapitar a malta com uma Lariat, uma Chop Lariat, cujo nome oficial é “Morte pela Fé”, em homenagem ao gajo a que eu roubei o golpe, o Aspen Faith, mas em Portugal é conhecido como “Já Foste”. Até tenho uma coletânea desse move no Instagram. Pensei que, com essa onda de vitórias e elevação a top heel, deveria tentar elevar um bocado a aura da personagem, e então, com esse novo finisher e o facto de meter os adversários KO, parecendo que os estou a executar, daí o “Executor”.
 
 

Do teclado para os ringues graças a… Danny Hell

Com Danny Hell, um dos fundadores e primeiro campeão da APW
Começaste a treinar aos 25, 26 anos, e estreaste-te nos ringues aos 27 anos, um pouco mais tarde do que o que é habitual, a 24 de agosto de 2014, numa Battle Royal no CTW Teste de Fogo, e tiveste o teu primeiro singles match pouco mais de um mês depois, diante de Gonçalo Silva. O que te levou a dar o passo de fazer wrestling e qual foi a reação da tua família?
Para a minha família foi OK. Quando comecei a fazer wrestling já era uma coisa conhecida e diziam para não me magoar, as coisas habituais, mas já tinha a vantagem de ter 27 anos e de já poder tomar as minhas decisões. Pelo menos não estou na droga. Não quer dizer que eles apoiassem, mas não desaprovaram e volta e meia aparecem para ver os shows e às vezes têm curiosidade, mas não dão grande importância ao facto de eu fazer wrestling. A malta do meu trabalho fala mais sobre isso do que propriamente a minha família.
Agora, como é que eu decidi fazer wrestling? Essa é que é a história mais interessante. Como qualquer fã, pensava sempre se seria capaz. Na altura comprei uma revista, que acho que se chamava Powerslam, na altura em que a TNA tinha vindo cá a Portugal, e descobri que existia wrestling cá em Portugal. Entretanto descobri que existia o WP, até porque eles aproveitaram o APW Impacto Total ara fazer ênfase à separação da APW, e decidi começar a seguir a promotora, até porque era em Queluz, perto de onde vivia, e cheguei a ir ver vários shows lá. Até houve uma cena engraçada, que é full circle, porque estava presente no dia [WP 9] em que fizeram a primeira chuva de papel higiénico. Há malta, o [João] Basílio inclusivamente, que achava que tinha sido eu a iniciar isso, mas não, foi um casal amigo do Pégaso. Eu simplesmente estava ao lado deles. Anos mais tarde fui um dos que levou uma chuva de papel higiénico [Batalha Real, a 9 de março de 2025].
Pensei várias vezes em começar a treinar no WP, porque era ali perto, e já que ia lá estava a começar a fazer reviews dos shows do WP, já não me lembro se era para o Universo Wrestling ou para o Wrestling Notícias, e comecei a criar amizade com o Pégaso e o Cougar. O problema era que na altura eu não tinha disponibilidade para treinar aos sábados, o que me limitou.
Entretanto, eu não só fazia crónicas como também era moderador do chat de quando fazíamos livestreams dos shows da WWE, então comecei a conhecer a malta que falava lá, a fazer amizade com alguns e havia uma pessoa com quem passei a falar bastante depois de a nossa primeira interação ter sido uma discussão sobre se o Ric Flair era considerado um Junior ou não. Para mim Junior Wrestler era uma espécie de estilo, quase como Cruiserweight, e ele tinha outra ideia. Dessa discussão surgiu uma amizade e essa pessoa disse-me: “olha, o meu amigo Red Eagle tem uma escola na zona da Ajuda. Porque não vais lá experimentar?”. Essa pessoa, a quem de certa forma podem agradecer por eu me ter tornado wrestler, é o Danny Hell, também conhecido como KarmageDan. O Lobo Ibérico existe hoje em dia por causa do KarmageDan, o que é hilariante. Eu não sabia que o CTW existia, mas fui investigar e descobri que havia treinos aos domingos. Decidi experimentar e lembro-me que no primeiro treino fui só eu, o Red Eagle e o João Milão. Na altura o Milão era bastante puto, com bastante cabelo, e era bastante tímido, o que é hilariante, porque ele se tornou exatamente o oposto e é uma das pessoas que mais adoro, é completamente extrovertido agora, mas era bastante fechado antigamente.
Basicamente fui, fiz o primeiro treino e acho que até fiz uma reportagem sobre isso na altura. E depois ficou o bichinho, a vontade de continuar a experimentar. E continuei, fui treinando e o resto é história. Mas sim, o Lobo Ibérico existe porque fiz amizade com o Danny Hell num chat de um show de wrestling e ele me disse para experimentar.
 
Tinhas algum background desportivo?
Nada. Zero. Fazia desporto escolar aqui e ali, mas artes marciais zero. Se bem que eu tinha uma naturalidade para grappling, que eu apanhava facilmente. O que diz muito sobre o wrestling: podes começar a fazer sem teres qualquer background desportivo, desde que trabalhes. Mas é verdade que teres um background de artes marciais ajuda a te desenvolveres muito mais depressa e tenho dois exemplos perfeitos disso: o mais recente é o Paulo “Knockout” Cruz, que se desenvolveu bastante depressa; e um mais antigo que era o HardFlyer, que tinha um background de capoeira, o que lhe permitiu apanhar muito mais facilmente a parte das acrobacias, a parte mais dinâmica do wrestling.
 

“No seminário com Tajiri paguei uma fortuna só para fazer 800 agachamentos e aprender três quedas”

Lobo Ibérico com o conceituado Zack Sabre Jr.
Participaste em seminários com nomes conceituados internacionalmente como Zack Sabre Jr. e Pete Dunne. O que mais aprendeste com cada um deles?
O que eu mais gosto, que é a parte técnica. Tenho aquela dinâmica de dizer que gosto de dar ferramentas aos meus alunos e se eles aprenderem uma ou duas já fico feliz. Os seminários mais significativos para mim foram de três: o do Pete Dunne, o do Wild Boar e o do Johnny Kidd. E não tanto pelo que eles ensinaram, mas a psicologia por trás.
O do Johnny Kidd foi, talvez, o meu seminário favorito, porque ele pedia-nos para mostrarmos como fazíamos um hip toss e mostrou como é que ele fazia, pegando em coisas básicas que nós todos já sabíamos e depois ele apresentava uma versão mais limada, mais clássica, e apreciei bastante isso.
No caso do Wild Boar e do Pete Dunne, o que apreciei imenso e que ajudou bastante à minha personagem foi terem ensinado não só a ferramenta, mas como a usar de várias maneiras.
Depois houve seminários que foram uma cagada completa. Uns em que aprendi imenso, como por exemplo com o Jigsaw. Lembro-me que que toda a gente aprendeu a fazer a Niponesa, que é basicamente uma versão da sequência "internacional", mas mexicana. Aprendemos isso de cor e salteado porque éramos uns 20 macacos e tínhamos todos de entrar no ringue, fazer, sair, e só parámos quando toda a gente fazia aquilo bem. Ficávamos talvez uma boa meia hora a fazer aquilo.
Depois tivemos seminários com nomes grandes, como por exemplo o Tajiri, em que pagámos uma fortuna só para fazer 800 agachamentos e aprender a dares três quedas. E depois o resto foi perguntas sobre o livro dele.
 

“Sinto que só me tornei mesmo wrestler depois de ir para a Escócia”

Lobo Ibérico (à esquerda) como árbitro na WrestleZone
Também treinaste na WrestleZone, da Escócia. Quando foi e o que mais aprendeste?
Foi em meados de 2016. Foi antes do seminário do Johnny Kid e até me lembro que lhe disse que ia para a zona do Aberdeen e ele disse: “a zona dos rapazes da WrestleZone, se quiseres falo com eles, que eu os conheço.” Agradeci, mas disse que ia contactar com eles. E foi um percurso interessante, porque sinto que só me tornei mesmo um wrestler depois de ir para lá.
 
Porque dizes isso?
Estive lá uns quatro anos e metade desse tempo houve o Covid, o que atrasou muito, mas nunca me cheguei a estrear. E não era por falta de qualidade das cenas que eu sabia fazer. Até cheguei mesmo a falar com eles, a dizer que já estava lá há não sei quanto tempo e nem um combate.
A WrestleZone era o que eu queria que o CTW se tornasse eventualmente, em termos de estrutura e de qualidade. O WrestleZone já estava num patamar de qualidade em que eles já não se podiam dar ao luxo de meter malta de qualquer nível no ringue. E eles diziam-me mesmo: “tu sabes fazer as coisas, és bom tecnicamente, mas falta-te interligar tudo, a lógica, os inbetweens".
Também tive de desaprender muitos maus hábitos. Aliás, uma coisa que me irrita imenso e que por acaso foi um grande motivo de discórdia entre mim e o Red Eagle quando eu regressei a Portugal é que me faz bastante impressão quando vejo malta a fazer drills ou outras coisas em treino, fazem mal, e não lhes é corrigido em nenhum momento só pelo simples facto de “Ok, é para fazer, bora, bora, segue, segue, segue”. E para mim não. Repetição é bom, mas também convém direcionares o ensinamento para o lado correto porque senão ganhas maus hábitos, muito difíceis de corrigir. E digo isto porque passei isso na pele. Passei um ano e meio a corrigir certos hábitos que provavelmente ainda hoje tenho. Mas eu tive de corrigir para atingir um certo nível. E o nível da WrestleZone era bastante alto. Estamos a falar de um sítio com malta como Lionheart, Joe Coffey e o Aspen Faith.
Agradeço muito aos meus treinadores de altura, o Blue Thunder e o Scotty Swift, que me direcionaram e me mostraram que eu sabia coisas, mas não sabia tanto como achava que sabia, e isso era o que me estava a impedir um bocado de atingir o patamar que eles queriam para eu me estrear. Depois, quando já estava a atingir esse patamar, veio o Covid, atrasou tudo e, entretanto, por motivos pessoais, acabei por ter de regressar a Portugal em abril de 2021. É o que é.
Mas foi um período da minha vida que apreciei imenso. Não só como wrestler, mas na parte de construir um show de wrestling, como é que uma companhia de wrestling independente realmente funciona. Porque eu não estando no ringue, estava a trabalhar bastante no backstage e aproveitei para aprender o máximo possível. No Wrestlefest, por exemplo, sou um dos principais responsáveis para garantir que o ringue está bem montado. Porquê? Porque tenho essa experiência de quando estava na WrestleZone, estava lá sempre na equipa de montagem do ringue. Também estava sempre na parte do merchandising, então tenho uma ideia de como é que a parte de fora se deve estruturar. É um conhecimento que é bastante importante os wrestlers terem, porque não é simplesmente chegar lá e teres o teu combate. Isso é importante, mas para mim é um bocado aquilo de devolver ao wrestling, de contribuir e ajudar, então convém saber como é que as coisas devem funcionar.
 

“Não sei se por causa da pandemia o Red Eagle ficou mais paranoico”

Contra Gonçalo Silva no primeiro singles match da carreira
Estiveste quase dez anos no CTW, onde te tornaste wrestler, construíste amizades e passaste por seminários enriquecedores. Que balanço fazes desse período e o que te foi passando pela cabeça durante aqueles dias em que tu e o restante roster decidiram sair na sequência da eclosão do caso da Cláudia Bradstone?
Vamos dividir isto por duas fases. Porque sinto que o meu trajeto foi: a fase antes do Covid e o pós-Covid.
Em relação a toda a minha fase antes do Covid, sou bastante grato. O CTW foi o sítio onde comecei as minhas bases, onde aprendi a ser wrestler. O Red Eagle, a ensinar básicos, é um dos melhores em Portugal. Se fores a ver, dos melhores wrestlers que têm básicos, é tudo malta que veio do CTW dessa era: Cláudia, Nelson, Rossi... e sou bastante grato a esse facto. E depois tive imensos momentos que me ficaram sempre na memória. Construí amizades que tenho até hoje e considero-os não amigos, mas família. São a minha segunda família. Às vezes até interajo mais com eles do que com a minha própria família. Mesmo quando eu estava na Escócia fazia questão de voltar a Portugal para os eventos que pudesse. No primeiro grande combate que tive com o Nelson, eu já estava a morar na Escócia. Foi a rixa à moda do Norte que nós fizemos, um hardcore match, mas que tinha o foco em cintos. Esse foi o primeiro hardcore match entre nós. Tirando, novamente, o Mad Dog e o Art Gore, os gajos que mais hardcore matches fizeram entre si fui eu e o Nelson. Temos uns quatro. Ele é de longe o gajo com mais combates hardcore agora. Estive a fazer as contas e acho que neste preciso momento estou empatado com a Cláudia, se contarmos os ladder matches.
 
 
No pós-Covid, houve muita coisa que mudou. Comecei a notar isso pouco a pouco. Quando regressei, o CTW tinha mudado completamente. As únicas pessoas que continuavam lá, do roster antigo, tirando o Red Eagle, era a Cláudia e o João Milão, que regressou nessa altura. O Hendrix também lá andava, mas o Nelson, o Rossi e o Luís Manuel tinham desaparecido. Houve um desentendimento entre eles e o Red Eagle passou a imagem de o terem abandonado. Mas a vantagem de eu ter começado aos 27 anos é que eu, de certa forma, era o paizinho da malta, tinha uma visão um bocado mais adulta das coisas e sabia que não devia ser bem assim, porque as pessoas têm a vida delas e as coisas não correram bem, e já há muitos anos que havia um certo clima de tensão entre o Nelson e o Red Eagle, por diversos motivos sobre os quais não vou aqui falar. Mas regressei com o intuito de reconstruir aquilo e elevar o CTW a um nível mais alto, mas comecei a notar um bocado de mudanças de atitude no Red Eagle, pequenos defeitos que ele já tinha antes que ficaram mais expandidos. Não sei se por causa da pandemia ele ficou mais paranoico, mas começou a dar importâncias a coisas que não faziam sentido nenhum. E depois havia situações em que, durante os treinos, alguém fazia um erro e eu tentava corrigir, mas ele dizia: “queres ser tu a dar o treino?”. E eu: “tu é que sabes, se queres que ele se mate aí, tudo bem, tu é que és o treinador.” E depois coisas que ele escalava desnecessariamente, coisas que se foram acumulando. Se ao início eu queria começar a ajudar, ao fim de um ano já estava a ficar farto daquilo. Adorava o CTW, mas já estava farto de aturar o Red.
Depois aconteceu toda a situação com a Cláudia. Sabia um bocadinho por fora o que estava a acontecer, lembro-me que cheguei a falar com o Red, como eu era um dos gajos mais antigos e ele respeitava-me mais, e disse-lhe: “olha, tu estás numa situação ingrata e vais querer ser imparcial, mas não vais poder ser imparcial, vais ter de tomar a melhor decisão.” Acabou por tomar a pior decisão. Depois de a Cláudia ganhar o combate, porque as coisas entre mim e o Red estavam a ficar tensas e entre ele e a Cláudia mais tensas estavam, aconteceu a situação de a Cláudia fazer aquele anúncio de que ia sair do CTW.
  
Depois o CTW, não sei quem é que escreveu aquilo, se foi o Red, o David Curle ou um dos favoritos dele na altura, fez um comunicado que em termos de relações públicas foi a pior coisa que se podia fazer. Se tens uma companhia e uma situação em que um dos teus membros se sente maltratado ou que sente que não foram justos com ele e decide ir-se embora, a melhor solução é lamentar que tenha acontecido, desejar a maior sorte a essa pessoa e prometer fazer melhor da próxima vez. E o que é que eles fizeram? Uma publicação a descartar-se de qualquer culpa, a dizer que não houve queixa-crime, mas um arrufo entre ex-namorados. Isto foi a uma semana do show em que eu iria ter o combate da minha vida, em que iria defrontar o Shigehiro Irie, que tinha acabado de ganhar o torneio Carat Gold da wXw, mas decidi: “caguei completamente para esse combate! Caguei para esta companhia!”. A situação entre mim e o Red já não estava nas melhores condições, mas ele ainda confiava em mim e eu ainda o apoiava. A partir do momento em que ele decidiu deitar abaixo a Cláudia e descartar-se de toda a responsabilização… o que é isto? Ele é o responsável da escola, uma situação de assédio está a acontecer ali e ele não faz nada, quer ser imparcial? Uma pessoa que é amiga dele há 12 ou mais anos, está nessa situação e ele decide apoiar mais o outro gajo, que é o responsável, que toda a gente está a dizer que é o responsável, mas decide apoiá-lo? Provavelmente estava a dar-lhe benesses.
  
Para mim foi demais. Quando me veio perguntar se eu ia participar no show, disse que não só que não participava como ia embora, recusava-me a estar ligado a eles depois de uma estupidez destas. Sei que o Red ficou magoado com isso e que provavelmente pensou que me deu o main event e o Tamura (porque para ele o Tamura é Deus) e que o havia abandonado. Mas eu não o abandonei. Ele é que decidiu queimar tudo o que estava correto. E por isso toda a gente se foi embora. Só lá ficou o Abreu.



 

 







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