terça-feira, 16 de março de 2021

Carlitos. A “pressão de ganhar” no Alverca, a morte de Apolinário e a seleção angolana

Carlitos está no Alverca desde o início da temporada
A viver uma época atribulada no Alverca, Carlitos integra a equipa que lidera a Série F do Campeonato de Portugal, mas problemas físicos e a covid-19 não lhe têm permitido jogar tanto quanto desejaria.
 
Em entrevista, o lateral direito internacional angolano fala das diferenças entre jogar num sistema de três centrais e num de quatro defesas, da infância numa aldeia de Vale de Cambra, da morte de Alex Apolinário, do antigo companheiro de equipa Pizzi, da possibilidade de voltar a jogar pelos Palancas Negras e dos três campeonatos que ganhou em oito anos no Girabola.
 
O Carlitos esta temporada realizou até ao momento oito jogos e marcou um golo na Série F do Campeonato de Portugal. Como tem estado a correr a época em termos individuais e coletivos?
Em termos individuais não está a ser das melhores épocas. Com alguns percalços pelo meio: uma lesão e covid-19.  Em termos coletivos estamos dentro das expectativas e tudo se vai decidir nas últimas jornadas.
 
Tendo em conta que é um lateral que também pode atuar como extremo, sente que o sistema de três centrais é um sistema que mais beneficia as suas características? O que um sistema com três centrais muda nas suas funções em campo?
Sim, de facto é um sistema que vai de encontro às minhas características ofensivas. O sistema de três centrais, permite aos alas serem muito mais ofensivos e com menos tarefas defensivas, não deixando de as ter, claro.
 
O Alverca já desde a época passada que persegue a subida à II Liga e tem sido um dos clubes que mais tem investido para concretizar esse objetivo. Como tem sido viver sob esta pressão e a luta titânica com o Torreense pelo primeiro lugar?
Desde o início da época já projetávamos que iria ser o Torreense o nosso maior rival, dado ao investimento que também realizou. É a pressão que todos gostamos de sentir. A pressão de ter de se ganhar todas as semanas.
 
O Alverca é um clube histórico português, que participou cinco vezes na I Liga. É um peso extra representar um emblema que já esteve entre a elite do futebol português?
Não considero um peso extra, considero um motivo de orgulho, algo que também vivi na época passada no Olhanense.
 
 

“Morte de Alex Apolinário fez-me dar mais importância às coisas simples da vida”

Recentemente uma tragédia abalou o plantel do Alverca, a morte de Alex Apolinário. Como é que tem digerido a perda de um companheiro de equipa e o que este trágico acontecimento fez mudar na forma como olha para a vida?
Tenho digerido da melhor maneira possível. Sendo algo que me vai acompanhar para o resto da vida, fez-me dar mais importância às coisas simples da vida, porque hoje estamos aqui, mas amanhã podemos não estar.
 
Voltemos atrás no tempo. Nasceu em Vale de Cambra, no distrito de Aveiro, mas tem raízes angolanas. Fale-nos um pouco de si, como foi a sua infância e quando é que a bola entrou para a sua vida…
Tive a infância normal de uma criança que cresceu numa aldeia perto de Vale de Cambra: escola de manhã e jogar futebol com os amigos a tarde toda.
Desde que me lembro, o futebol sempre fez parte da minha vida, mas só comecei a jogar futebol federado aos 14 anos na Oliveirense, até lá sempre joguei em torneios de Verão e na escola.
 

Só posso ter boas recordações da Oliveirense. Pedro Miguel fez de mim jogador”

Carlitos ajudou Oliveirense a subir à II Liga em 2008
O Carlitos fez toda a formação e iniciou a jogar na categoria de seniores com a camisola da Oliveirense. Que memórias guarda desses tempos? Em 2008 participou na subida à II Liga
Guardo ótimos momentos. Logo no primeiro ano de sénior conseguir a subida á II Liga, mesmo não tendo jogado tanto quanto pretendia só posso ter boas recordações.
 
Na equipa principal da Oliveirense foi orientado por Pedro Miguel, que passou grande parte da última década e meia no comando técnico da formação de Oliveira de Azeméis. Que impacto é que ele teve na sua carreira e como vê esta rara longevidade à frente de uma equipa?
O Pedro Miguel é um treinador a quem vou estar sempre agradecido. Foi alguém que fez de mim jogador. A fase de transição de júnior para sénior é a fase mais difícil para um jovem e o Pedro Miguel apostou em mim. A carreira que consegui muito se deve a ele.
O caso de longevidade do Pedro Miguel na Oliveirense é algo que não me surpreende. Se repararem, as duas últimas subidas do clube à II Liga foram com o Pedro Miguel. É um técnico bastante competente e algo que me admira é nunca ter tido oportunidade de treinar uma equipa de I Liga.
 

“No Paços, Pizzi já mostrava ter muita qualidade”

Carlitos num jogo da Taça UEFA ao serviço do Paços
Da Oliveirense saltou para o Paços de Ferreira, clube pelo qual jogou na I Liga e na Taça UEFA. Como surgiu o convite e que balanço faz do ano que passou na Capital do Móvel?
O convite surgiu através de um empresário com o qual trabalhei durante quatro anos. Faço um balanço bastante positivo. Na primeira época na I Liga acabei por realizar 23 partidas e jogar na Taça UEFA, são experiências que vou guardar para sempre.
 
No Paços de Ferreira foi companheiro de equipa de Pizzi, hoje internacional português e uma das figuras do Benfica. Como era ele na altura? Esperava que atingisse um nível tão elevado?
Já na altura mostrava ter muita qualidade e maturidade para a idade que tinha e foram-lhe dadas as oportunidades que precisava para confirmar todo o potencial.
 
Em pouco mais de um ano passou por II Divisão B, II Liga e I Liga. Sentiu uma grande diferença entre os vários patamares competitivos?
Sim, há uma diferença enorme e requer tempo de adaptação.
 

Primeiro ano inesquecível em Angola

Carlitos com a camisola do Recreativo Libolo
Em 2012 decidiu prosseguir carreira em Angola. O que o motivou a tomar essa decisão?
O projeto era poder lutar por títulos, conhecer o país de onde a minha mãe é natural e o fator financeiro, que na nossa carreira é bastante importante.
 
Logo no ano de estreia em Angola, ao serviço do Recreativo Libolo, tornou-se internacional angolano e venceu o Girabola sob o comando técnico de Zeca Amaral. Imaginamos que tenha sido uma época inesquecível…
Não podia pedir melhor, no primeiro ano em Angola ser campeão apenas com uma derrota e chegar a internacional angolano.
 
Em seis anos no Recreativo Libolo, sagrou-se campeão nacional por três vezes. Que balanço faz do tempo que passou no clube e qual foi a importância que o emblema do Calulo teve para si?
Faço um balanço bastante positivo. Fui muito feliz no Recreativo do Libolo e só tenho palavras elogiosas para todas as pessoas da direção e colegas que trabalharam comigo ao longo dos seis anos.
 
Em 2018 assinou pelo Bravos do Maquis e meio ano depois pelo Interclube. O que o levou a mudar de ares e como correram ambas as experiências?
Assinei pelo Bravos do Maquis a convite do técnico Zeca Amaral, era um projeto ambicioso. Senti dificuldades de adaptação à província e aí surgiu o convite do Interclube e achei que seria o melhor para mim. No Interclube a expectativa era voltar a ser campeão nacional, mas as coisas não correram como o esperado e aí decidi voltar para Portugal.
 
Em sete anos em Angola, quais foram as melhores memórias que guardou?
As melhores memórias são o primeiro campeonato ganho em 2012 e a primeira internacionalização pela seleção nacional de Angola.
 

“Fiquei com uma impressão muito boa do Olhanense. Estávamos dentro dos objetivos propostos”

Carlitos representou o Olhanense em 2019-20

No verão de 2019 regressou a Portugal pela porta do Olhanense. O que o fez voltar?
A principal razão para regressar foi a família, sentia que o meu tempo em Angola a nível desportivo tinha terminado. Já tinha feito tudo que era possível e precisava de algo novo.
 
Que balanço fez da sua passagem pelo histórico emblema algarvio e com que opinião ficou do clube?
Faço um balanço positivo a nível individual e coletivo estava tudo dentro dos objetivos traçados, fiquei com uma impressão bastante boa do clube como das pessoas com quem trabalhei.
 
Aos 32 anos, quais são as suas ambições que ainda o movem no futebol?
As ambições que ainda me movem são o querer ganhar e querer sempre melhor. Para no dia em que terminar não olhar para trás e dizer que podia ter feito melhor aqui ou ali. E o prazer que ainda sinto que é imenso.
 

“Estou sempre disponível para a seleção angolana

Carlitos em ação pela seleção angolana
Somou cinco internacionalizações pela seleção angolana, todas entre 2012 e 2015. O que sentiu quando ouviu pela primeira vez o hino?
Uma emoção enorme e o concretizar de um objetivo. 
 
O que falhou para não ter somado mais internacionalizações nem participado em nenhuma fase final de uma Taça das Nações Africanas?
Acho melhor não responder.
 
Tem o desejo de voltar à seleção?
Não considero um desejo porque já lá estive e neste momento a seleção está bem servida com os laterais direitos disponíveis. Mas estou sempre disponível se o selecionador entender chamar.
 
Quais são as principais diferenças entre o futebol português e o angolano? Com que patamar competitivo em Portugal se compara o Girabola?
As grandes diferenças entre futebol português e o angolano é a intensidade e taticamente. O Girabola tem quatro ou cinco equipas que conseguiriam competir na II Liga sem qualquer tipo de problema.
 
Continua a acompanhar o futebol angolano? Como analisa o nível e qualidade no Girabola e da seleção angolana?
Continuo a acompanhar, tenho lá imensos amigos ainda. O nível do Girabola nos últimos anos tem vindo a decair devido às dificuldades financeiras que o país atravessa. A nível de seleção tem jogadores para fazer melhores resultados do que os que tem tido ultimamente, mas é preciso dar tempo ás pessoas para se organizarem e trabalharem com tranquilidade.
 
Entrevista realizada por Rui Coelho












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