segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O norueguês que Vale e Azevedo acusou de se ter “mijado nas calças”. Quem se lembra de Rushfeldt?

Rushfeldt durante um treino do Benfica em julho de 1999
Chegou a Lisboa após 80 golos em 83 jogos ao serviço de um Rosenborg que era cliente habitual na Liga dos Campeões. Foi apresentado e treinou mesmo de águia ao peito, mas a transferência não chegou a concretizar-se. O clube norueguês, farto de esperar pelo dinheiro, desviou-o para os espanhóis do Racing Santander, mas Vale e Azevedo deu a sua versão dos acontecimentos durante uma sessão do seu julgamento: “Quando o levei ao relvado da Luz, ele viu aqueles adeptos todos e tivemos de voltar aos balneários, pois ele tinha-se mijado nas calças.”
 
Sigurd Rushfeldt, que aterrou na capital portuguesa com o intuito de reforçar o Benfica em julho de 1999, deu os habituais toques na bola na velha Catedral e juntou-se à equipa então orientada por Jupp Heynckes, a estagiar na Áustria, mas a falta de garantias bancárias abortou o negócio. O então presidente dos encarnados, porém, alegou que a contratação tinha falhado porque o jogador não reunia condições psicológicas, uma versão desmentida pelo próprio e pelos seus representantes.
 
O episódio foi tão marcante que Rushfeldt foi requerido para prestar declarações durante o julgamento de Vale e Azevedo, que havia mencionado o seu nome numa sessão anterior. “O Benfica não ficou com o jogador não por não haver garantias bancárias, que as havia. Mas por outra razão, que revelo agora pela primeira vez: dois ou três dias antes da partida para estágio da equipa, o Rushfeldt é apresentado na Luz. Passa pelo campo número três e, pela pressão de ver três mil espectadores à frente, faz chichi pelas pernas abaixo. Antes da apresentação na sala de Imprensa, chorou que nem uma madalena. Não tem estrutura psicológica para atuar num clube com a dimensão e as pretensões do Benfica!”, declarou o antigo líder do clube.
 
“Fizemos uma mise-en-scène: ele foi-se embora do estágio e nós queixámo-nos à FIFA. Acabámos por receber o dinheiro que já tínhamos enviado para o Rosenborg. Daí a encenação. Não ficámos com o jogador, porque não o pretendíamos e devolveram-nos o dinheiro que era aquilo que nós realmente queríamos”, acrescentou Vale e Azevedo, que ainda se aproveitou do insucesso de Rushfeldt no Racing Santander: “quase não jogou no clube para onde se transferiu, prova de que tínhamos razão.”
 
 
Já o avançado norueguês manifestou-se desapontado após a transferência abortar: “Estou desapontado. Não esperava isto. Foram seis semanas de longa espera. Não foram corretos nem honestos comigo, porque ainda ontem [anteontem] me ligou uma pessoa do Benfica a dizer que tudo ia ser resolvido. Gostava de ter ido para o Benfica, era o melhor clube para mim. Mas, se adivinhasse isto, não teria aceite a proposta nem teria ido até à Áustria. Não fiquei contente com Vale e Azevedo.”
 
E quando ficou a conhecer o depoimento de Vale e Azevedo, apelidou-o de “ridículo”. “É ridículo, rio-me desse homem. (…) O que aconteceu é que o Benfica não pagou o que devia. Quando não te pagam nem pagam ao clube que detém o teu passe, é óbvio que não podes continuar. Não se pode contratar um jogador quando não se tem dinheiro. Ele [Vale e Azevedo] apenas me dizia que a situação ficaria resolvida amanhã, sempre amanhã. Finalmente chegámos a um ponto em que já não era possível adiar”, afirmou o nórdico, que contestou as afirmações sobre a sua passagem por Espanha: “Ele não faz ideia do que fiz no Santander.”
 
Mas a carreira de Rushfeldt não se esgotou a esse caso no verão de 1999. Nascido a 11 de dezembro de 1972 em Vadsø e no ano em que fez 20 de idade reforçou o Tromsø, que o catapultou para a seleção principal da Noruega em 1994, tendo marcado presença no Mundial realizado nesse ano. Nessa altura começou a construir o estatuto de um dos principais goleadores do seu país, ao ponto de ser, ainda hoje, o melhor marcador de sempre do campeonato norueguês, com 172 golos.
 
Depois de 49 golos em 97 jogos na liga e de 78 em 124 jogos em todas as competições pelo Tromsø e de uma curta passagem pelos ingleses do Birmingham, explodiu ao serviço do Rosenborg entre 1997 e 1999. Nesse período somou 80 remates certeiros em 83 encontros em todas as provas (e 67 em 66 no campeonato), venceu três campeonatos, uma taça (1999) e sagrou-se melhor marcador da liga por duas vezes (1997 e 1998).
 
 
 
Após as peripécias do verão de 1999 seguiu para Espanha. É mentira que quase não tenha jogado, como Vale e Azevedo sugeriu, pois atuou em 43 jogos pelo Racing Santander no espaço de dois anos, mas é verdade que não foi feliz: apenas apontou cinco golos.
 
Depois de um curto regresso ao Rosenborg, passou cinco belíssimos anos no Áustria Viena, entre 2001 e 2006. Ao serviço do emblema da capital austríaca venceu dois campeonatos (2002-03 e 2005-06) e três taças (2002-03, 2004-05 e 2005-06), assim como o prémio de melhor jogador da temporada do clube em 2003-04.
 
 
Em 2006 regressou ao Tromsø, dez anos depois de lá ter saído, tendo permanecido no clube até 2011, somando um total de 65 golos em 144 encontros nessa fase terminal da carreira.
 
Apesar dos mais de 300 golos que marcou na carreira, não conseguiu replicar esse êxito na seleção. Embora se tivesse tornado internacional A em 1994, falhou o Mundial 1998 e o Euro 2000, tendo somado apenas sete jogos pela Noruega até 2001. E somente em 2002 marcou o primeiro golo pela equipa nacional. Em 2007 encerrou a carreira internacional com apenas sete remates certeiros em 38 partidas.
 
 
 
Após pendurar as botas tornou-se treinador, tendo trabalhado vários anos como adjunto no Tromsø. 



 




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