quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

400 mil escudos por ano, clima húmido e escolta policial. Como Béla Guttmann trocou o FC Porto pelo Benfica

Béla Guttmann trocou o FC Porto pelo Benfica no verão de 1959
Depois de guiar o FC Porto à conquista do campeonato apesar do Caso Calabote, Béla Guttmann levou ainda os dragões à final da Taça de Portugal, mas foi derrotado no Jamor pelo rival Benfica, num jogo decidido por um golo marcado aos 13 segundos por Domiciano Cavém, sem que os jogadores portistas tivessem sequer tocado na bola.
 
O que os adeptos azuis e brancos desconheciam, porém, é que o treinador húngaro já tinha um acordo secreto para se tornar treinador do Benfica depois da final. Os encarnados ofereceram-lhe um salário de 400 mil escudos por época, quase o dobro do que o FC Porto lhe pagava.
 
Devido à rivalidade entre os dois clubes, na altura a viver uma fase mais quente na sequência do Caso Calabote, Guttmann passou a ser uma pessoa bastante impopular na Invicta. Sempre que teve que deslocar-se ao Estádio das Antas nos anos seguintes, fê-lo com escolta policial. Nada que incomodasse aquele que era um sobrevivente do Holocausto.
 
Na sua autobiografia, o técnico deu uma explicação pormenorizada de como entendia o papel de um treinador e de como as rivalidades entre os clubes lhe eram indiferentes no momento de decidir o passo seguinte na carreira. “Vendo a minha perícia a um clube por determinado tempo. Se tivesse uma ligação fanática a algum clube, não conseguiria trabalhar para outro com total empenhamento… Um especialista como deve ser não pode permitir-se esse tipo de coisas. Saí do Porto com a consciência limpa, como um pai que morre deixando os filhos bem protegidos. Com o título e o acesso à Taça dos Campeões Europeus, deixei os meus jogadores na melhor das situações”, escreveu.
 
No entanto, na altura da troca de clube não foi tão sincero, pois disse que tivera que mudar-se porque a mulher, Mariann, não conseguia suportar o clima húmido do norte de Portugal. Era a segunda vez em 12 meses que usava a aversão da mulher ao clima como desculpa para sair de um clube, depois de ter utilizado essa justificação para deixar o São Paulo, quando o verdadeiro motivo era o dinheiro. A explicação, ainda assim, só deixou ainda mais irritados os adeptos portistas.
 
Curiosamente, o FC Porto escolheu como próximo treinador o italiano Ettore Puricelli, ex-adjunto de Guttmann no AC Milan e um homem que o húngaro culpava pelo despedimento nos rossoneri e, consequentemente, por lhe ter roubado o campeonato transalpino em 1954-55.
 
Puricelli foi dispensado do FC Porto no início de novembro de 1959, com seis derrotas em nove jogos, incluindo a eliminação na ronda preliminar da Taça dos Campeões Europeus diante do Inter Bratislava. Um falhanço tão clamoroso, com o mesmo conjunto de jogadores que conquistara o título na época anterior, que só contribuiu para cimentar a reputação de Guttmann como obreiro de milagres.
 
O FC Porto teria, aliás, de esperar mais 19 anos para voltar a vencer um campeonato, tendo-o conseguido finalmente em 1978, com José Maria Pedroto, um homem que Guttmann havia afastado da equipa em 1958-59.







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