quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Baltazar: “Shows da Invicta vão bombar a partir de setembro e haverá torneio para determinar o campeão” (Parte 1)

Baltazar usou martelos do São João no evento Bingança!
Foi viver para o Porto por motivos profissionais, mas levou para lá, finalmente, o wrestling, uma arte neste país só era, até então, aprimorada em Portimão e na área metropolitana de Lisboa. Criou a Invicta Wrestling e, passados quase dois anos, tem cerca de 40 alunos, dos quais cerca de uma dúzia já se estreou em ringue.
 
Na primeira parte (de três) desta entrevista, Baltazar faz um balanço do evento Porto Wrestlefest: Bingança! e fala sobre o futuro da sua escola, que em breve se tornará também promotora. Revela que o ringue está prestes a chegar e com eles começaram a “bombar” os shows da Invicta, que terá um campeão que será apurado através de um torneio.
 
DAVID PEREIRA - Comecemos por uma pergunta fraturante: o Baltazar é ou não do Benfica?
BALTAZAR - Não, o Baltazar não é do Benfica. Aliás, o Baltazar nunca teve uma ligação grande ao futebol. Quando era criança tentaram impingir-me o Benfica, sim. Cheguei a ter um equipamento do Benfica, na altura em que o Simão Sabrosa estava no Benfica, acho que foi em 2004, se não estou equivocado, e foi quando foi o Euro. Uma vez fui ver um jogo ao estádio do Sporting porque me ofereceram bilhetes no trabalho, ganhei um prémio para ir ver um jogo de Sporting, mas nunca tive uma ligação grande ao futebol. Recentemente, o Baltazar, posso-te dizer que é do FC Porto.
 
Agora mais a sério. Que balanço fazes do Porto Wrestlefest: Bingança, evento que colocou 820 pessoas no pavilhão da Escola Básica 2/3 da Madalena? Foi uma grande noite para o wrestling português em geral e para ti em particular…
Para mim foi, se calhar, aquilo que tive mais orgulho de fazer em Portugal a nível de wrestling. Já tive a sorte de fazer muita coisa grande no estrangeiro, mas, em Portugal poder arriscar sem medo e fazer um evento deste tamanho, não só o wrestling em si, mas também a organização de um evento maior, com meet and greet, food court, estacionamento dentro da escola, staff a organizar tudo, para mim foi uma amostra de que é possível fazer muito bom wrestling em Portugal a nível de negócio, não só no que diz respeito ao que acontece dentro do ringue, e que as pessoas que estão por trás disto só têm de arriscar. Estou muito feliz com o evento. O feedback que eu tenho recebido dos fãs é muito positivo. Não param de me perguntar quando é que há um próximo evento, tanto no Ideal Clube Madalenense, que é a casa da Invicta Wrestling e onde tem sido o Porto Wrestlefest, mas quando é que vai acontecer outro evento deste calibre, com esta quantidade de pessoas. Por isso, em geral, foi muito positivo.
Relativamente à parte do wrestling, do combate com o Tony… para mim, o Tony sempre foi o meu lutador português favorito de sempre. Quando comecei a carreira, ele era aquele lutador para o qual eu olhava e dizia que gostava de ser assim, porque eu achava muito engraçado a personagem, como falava ao microfone, como ele carregava e vivia mesmo a personagem. Anos mais tarde, poder pisar o ringue com a lenda viva, Tony de Portugal, no main event do Porto Wrestlefest: Bingança!, em frente ao maior público português a nível de bilheteira também paga – porque é sempre preciso mencionar isso – foi espetacular. Demorei uns cinco dias a conseguir emocionalmente processar o evento que foi e a oportunidade que foi, porque é tudo muito rápido.  Temos que organizar o evento e estar horas aqui a fazer imensas coisas, como montar o ringue, trabalhar no food court, etc. Uma pessoa nem tem tempo, às vezes, de desfrutar do pouco tempo que está no ringue, porque o resto do dia é muito maior e há muita coisa ainda por fazer. Mas uma coisa que vou dizer aqui foi que o Tony me disse: "quando estiveres a entrar, perde um bocado de tempo a olhar à volta e ver aquilo que construíste e aquilo que está a acontecer". Então, na minha entrada aconteceu muito isso. Parei bastante e fiquei a olhar: "uau, isto está mesmo cheio de gente. Eles ainda estão aqui a esta hora da noite para o main event". Foi espetacular. Depois, a performance de todos os outros lutadores, que estiveram incrivelmente bem. Foi um show bastante positivo, tirando, infelizmente, a lesão de Cláudia, mas em geral foi espetacular e só me dá motivação para querer fazer mais e melhor.
 
 
O Tony de Portugal, para quem não sabe, foi muito importante para a tua carreira. Fizeste um seminário com ele no início da tua carreira, foi quem te chamou para eventos da APW e uma das pessoas que te aconselhou a ir para o Reino Unido e que mais força fez para te sagrares campeão da APW, além de ter chegado a ser teu manager. Imagino que tenha sido uma espécie de full circle moment teres partilhado o main event desse espetáculo histórico com ele… 
Sem dúvida. O meu primeiro combate no qual me apresentei como Mauro Chaves foi na Taça Tarzan Taborda de 2014 e esse booking foi feito pela Associação Portuguesa de Wrestling (APW), que tinha como presidente o Tony de Portugal. Fiz um seminário com ele e, o vencedor do seminário, tanto da parte física como de promo, receberia uma t-shirt dele. E eu ganhei o seminário, ele ficou bastante contente com a minha performance e depois entrou em contato comigo para fazer a minha estreia na APW. Lembro-me que, na altura, só podia ir eu ou o Duarte Silva, e tivemos que fazer uma espécie de storyline em que tivemos um combate de treino que foi gravado para a Internet, antes dos WP Academia, em que ganhei a minha oportunidade de me estrear na Taça Tarzan Taborda contra o Ramon Vegas. Por isso, o Tony teve sempre uma ligação muito grande com a minha pessoa, sempre tivemos uma ligação muito grande um com o outro.
A nível de performance e da ida para o Reino Unido foi mesmo isso que aconteceu. Tive uma conversa uma vez no [Centro Comercial] Vasco da Gama e ele disse-me: "faz aquilo que muitos de nós não tiveram a coragem de fazer. Tu tens talento, pega nas tuas coisas e vai lá para fora." E, passado uns meses, estava eu a sair de Lisboa e a embarcar num avião para ir para o Reino Unido, onde estive cinco anos.
 
 

“Estive cinco dias a processar emocionalmente tudo o que aconteceu”

Imagino que já te sintas em eventos no Porto como o CM Punk em Chicago…
Que bela referência. Adoro. Sem dúvida. Vou dar um exemplo perfeito. Como te disse no início desta entrevista, nunca fui um fã de futebol, nunca foi algo que me prendesse. Para mim sempre foi o wrestling. Mas recentemente gostei muito de ver a performance da Noruega no Mundial, estava a ver os documentários da Netflix sobre as seleções e os jogadores e gostei muito da storyline, digamos assim, da seleção da Noruega. E com isso fiquei com um bichinho pela bola, como já não sentia desde o Euro 2004. E então, aqui no Porto, o que é que aconteceu? Ontem [domingo, dia 9] fui ver o primeiro jogo da I Liga [FC Porto-Alverca] e é incrível a paixão que se sente nos jogos do FC Porto. O Porto em si, as pessoas do Porto, a aura do Porto, o espírito que existe aqui, não tem nada a ver com Lisboa. Nada. Sinto-me cada vez mais em casa no Porto. Vivo no Porto há quatro anos e estou completamente apaixonado pela cidade e pela forma como sou valorizado, tratado e respeitado, tanto pelos alunos da minha escola, a Invicta Wrestling, como pelos fãs de wrestling. É fenomenal. Por isso sim, o CM Punk é recebido como rei em Chicago e aqui no Porto é assim que eles me fazem sentir, como o rei do Porto.
 
As pessoas são mais acolhedoras aí no Norte, como tanto se diz?
100%. Dou-te três exemplos muito básicos: 1 - as pessoas no Uber ou no Bolt falam contigo sobre o teu dia, fazem perguntas, existe uma comunicação; 2 - a malta dos restaurantes é incrível, o atendimento ao público é incrível; 3 - precisas de ajuda na rua, as pessoas estão prontas para te ajudar. E, genuinamente, eu sinto que aqui existe muito amor.
Ao falar com um fã sobre as diferenças do wrestling no Porto, em Lisboa e no Algarve, o termo que ele utilizou é que a malta do Porto tem pujança. E eu sinto que sempre fui uma pessoa com muita pujança. Então, sinto que estou envolvido por pessoas que são como eu, que querem fazer mais, que dão tudo o que têm, que dão o litro e não têm medo de arriscar. É um amor coletivo espetacular. 
Este ano fui aos festejos do São João e foi incrível: fecham a cidade toda, a malta convive toda na boa e diverte-se. Toda a gente dava marteladas nas cabeças uns dos outros com carinho e respeito, pela diversão. É uma aura que não existe em mais lado nenhum. Pelo menos, ainda não consegui encontrar. Usei esses martelos para bater nos cornos do Tony no Porto Wrestlefest: Bingança!.
 
Neste evento também estreaste a tua nova theme song, muito personalizada, chamada “Sempre em pé!”. Como surgiu esta música?
A malta faz muito reach out aqui, que é uma coisa que eu gosto bastante, e houve um fã que me fez uma música. Muita gente diz que estou a usar uma música gerada por Inteligência Artificial (IA), mas a IA existe, foi-me oferecido e eu gostei, então porque é que não posso usar? Decidi que queria usar. Isso não tem nada a ver com não respeitar as bandas nem nada desse género, quem me conhece sabe que sou um gajo do metal e ir a concertos e festivais é uma coisa que eu faço. Tenho a cómoda cheia de t-shirts de bandas. Mas lá está, foi uma prenda, ofereceram-me. Foi um fã que gosta do meu trabalho, decidiu que queria escrever algo para mim, tornar aquilo uma música e enviar-me. Eu gostei e, com isso, essa música teve a estreia no Porto Wrestlefest: Bingança! É uma música que planeio utilizar tanto em Portugal como no estrangeiro. E como a música diz bem alto: O Baltazar fica sempre em pé! Acho que é uma música top para o wrestling e estou muito contente com isso.
 
 

“Vamos andar pelo Norte e fazer com que exista muito mais wrestling em Portugal”

E agora? O que se segue para o Baltazar?
É uma pergunta cuja resposta vou ter de deixar os fãs de wrestling em Portugal a esperar. Há muitas mudanças que vão acontecer daqui para a frente. O Porto Wrestlefest: Bingança! foi um evento que ficou na história em Portugal e com isso terminou muitas das histórias que estavam a ser escritas. Neste momento tenho muitos e-mails a ser enviados, muitas ofertas, muitas possibilidades de fazer mais eventos e tanto eu como o Wrestlefest vamos fazer com que exista, a partir de agora, muito mais wrestling a acontecer em Portugal. Da minha parte, especialmente no Porto e andar pelo Norte de Portugal, não só no Porto. Por isso, não tenho bem uma noção daquilo que vai acontecer. A única coisa que te posso garantir é que quando agarrei o Título Nacional da APW, senti que aquele título tem de voltar a casa. Durante anos, a casa do Título da APW foi o Algarve, mas, a meu ver, aquele título pertence aqui ao Porto.
 
O que está planeado em termos shows de wrestling no Norte? Já há datas?
Existe muita coisa planeada e datas fechadas, mas ainda não posso avançar. Daqui para a frente, vai haver uma divisão no sentido em querer continuar a trabalhar com o Wrestlefest e a apresentar o Porto Wrestlefest, que é a minha forma de agradecer toda a ajuda que o Wrestlefest deu à Invicta Wrestling; mas, ao mesmo tempo, depois do Porto Wrestlefest: Bingança! e dos fãs poderem presenciar a Battle Royal no qual tive vários alunos a estrearem-se e a mostrar que estão prontos para estar em eventos, eu quero começar os eventos da Invicta Wrestling. Com isto, estamos a falar de eventos da Invicta Wrestling na Madalena e pelo Norte, mais o Porto Wrestlefest. Ou seja, há muita coisa a acontecer, mas ainda não consigo avançar com datas específicas.
 

Invicta Wrestling terá eventos a partir de setembro… com torneio para determinar primeiro campeão

Baltazar após mais um treino recheado de alunos 
Podes avançar com o mês ou a localização do primeiro evento?
Sim, em setembro começamos a bombar. Mas para ter tantos eventos, preciso de algo que ainda não tenho, que é um ringue de wrestling. Se tudo correr bem, daqui a duas sou três semanas, o ringue já poderá estar no Porto. E com isto vamos poder fazer muitos mais eventos e tanto a logística de fazer eventos da Invicta Wrestling pelo Norte de Portugal ou do Porto Wrestlefest será muito mais fácil. Já não teremos de transportar um ringue de Almada até ao Porto sempre que quisermos fazer um evento.
 
Há planos para haver pelo menos um campeão?
Claro que sim. A Invicta Wrestling vai ser uma promotora como o Wrestlefest, a APW e o Wrestling Portugal.
 
A ideia é determinar um campeão já em setembro?
Haverá um torneio e antes vão existir combates de qualificação para o torneio que vai coroar o campeão da Invicta Wrestling. Não sei se o nome será esse ou outro, porque tenho outro em mente, que é campeão do Norte, porque eu pretendo andar pelo Norte de Portugal a fazer eventos e, para mim, a Invicta Wrestling não é só Porto, mesmo que o nosso estilo seja conhecido como “Wrestling à Moda do Porto”. É uma energia, uma paixão, um amor. E nós queremos que o Norte possa experienciar isso mesmo. Daí campeão do Norte para mim fazer mais sentido. No final desse torneio, será coroado o primeiro ou a primeira campeã do Norte, porque não podemos esquecer que neste momento há mais uma mulher no wrestling português e o nome dela é Lina Hero, uma das alunas da Invicta Wrestling que venceu a Bingança Battle Royal no Porto Wrestlefest: Bingança! e é claramente um nome que já está no radar de muitos fãs em Portugal.
 
E é para haver um campeão ou campeã até ao final do ano? O que é que podes desvendar?
Vamos ter de aguardar. Quero dizer que sim, mas neste momento não depende de mim, porque eu acho que um campeão, a ser coroado, tem de ser num evento com a dimensão do Porto Wrestlefest: Bingança! Gostava muito que isto acontecesse no Ideal Clube Madalenense, mas, ao mesmo tempo, acho que temos fãs incríveis que estariam dispostos a encher um pavilhão para que possamos coroar o campeão.
 
O Baltazar vai participar nesse torneio ou vai colocar-se à parte da coroação do campeão da Invicta?
O Baltazar vai estar presente, mas terá de participar nas qualificações. O Baltazar, a personagem “Sangue de Portugal”, tem sido intitulado de “Rei do Porto” pelos fãs. Por isso, um torneio pelo título de Invicta Wrestling ou para determinar o campeão do Norte não ter a presença do Rei do Porto não faz muito sentido.
 

O clique entre vinho do Porto e francesinhas

Baltazar fundou a Invicta a 12 de outubro de 2024
Foste para o Porto de propósito para abrir uma escola de wrestling ou foi algo que quiseste fazer quando te mudaste para a Invicta?
Essa é a minha história favorita de como é que começou a Invicta Wrestling. Mas primeiro quero só explicar o background do Baltazar: comecei a minha carreira, depois estive cinco anos no Reino Unido e apareceu a pandemia, o Covid. Então, tive de voltar para Portugal e houve uns dois anos, se não estou equivocado, em que não pôde existir wrestling em Portugal devido ao Covid. Nessa altura estava a viver na casa da minha avó, no Cacém, e na empresa onde eu estava a trabalhar houve a possibilidade de me arranjarem um quarto, só que não havia dissipabilidade em Lisboa e propuseram-me o Porto. E pensei: "porque não?". Não tinha nada a perder. Então vim para o Porto.
Na altura, eu sabia que gostava de fazer wrestling aqui e tentei procurar, porque era campeão da APW, fazer um evento no Porto, ainda antes da existência da Invicta Wrestling. Mas a logística de trazer o ringue do Algarve extremamente difícil, as pessoas com quem eu estava a trabalhar – não as da APW – não se mexiam, falavam, falavam e não faziam nada, e estava a ficar muito complicado. Então não deu e deixei esse plano para trás.
Entretanto tirei o curso de ator, estive a estagiar na RTP, fiz umas curtas e umas peças de teatro, tive a possibilidade de aparecer em alguns filmes como Balas & Bolinhos 4 e estava a gostar disso, mas não me preenchia tanto como o wrestling. Num dia, estava no Jardim do Morro (Vila Nova de Gaia) a celebrar o aniversário de um amigo e decidimos ir a um restaurante supersimpático – que ainda hoje me deixa sempre deixar lá flyers dos eventos de wrestling que fazemos, que é o Casanova. Quando estamos a chegar à paragem do Metro do Marquês, um rapaz com a t-shirt dos Bullet Club perguntou-me se era o Baltazar. Disse que sim e ele perguntou-me: “olha, tu não disseste que ias trazer o wrestling para o Porto?”. Disse-lhe que tinha razão. Isto é o que me lembro da conversa, porque já tínhamos bebido muito vinho do Porto. Quando estávamos a comer uma francesinha no Casanova, os meus amigos perguntavam-me o que se passava, porque estava muito calado, e eu disse: “olhem, disse que ia trazer wrestling para o Porto e ainda não trouxe. Acho que está na altura.”
Então, na semana que se seguiu eu saí à rua e fui a ginásio e academias de jiu-jitsu, aos sítios que eu achava que dava para fazer um treino de wrestling sem ringue, que tivesse um tatami, por exemplo. Durante esta procura, encontrei-me no meio da rua com um homem gigante, o Bruno Leal, dono do Six Pack Academy, que agora infelizmente fechou. Apresentei-me, disse que era lutador de wrestling e campeão nacional da APW, e perguntei-lhe se era possível abrir uma escola de wrestling no ginásio dele. E ele: “wrestling? Como aquele da televisão?”. E eu pensei para mim: “vai dizer que odeia isto, que é strongman e não curte nada disto.” Disse que sim e ele responde: “Adoro wrestling, o meu favorito era o Batista.” E eu: “está feito!” Marcámos e passados umas horas sentámo-nos e falámos, tentámos agendar tudo. Esse rapaz, que conheci no Jardim do Morro, foi a pessoa que acabou por fazer o logotipo da Invicta Wrestling, porque se não fosse ele, o clique não teria acontecido, a conversa com o Bruno não teria acontecido e não teríamos marcado uma data para o primeiro treino da Invicta.
E dia 12 de outubro [de 2024] foi o primeiro treino da Invicta Wrestling. Com a malta do Wrestling Portugal que apareceu para ajudar, tivemos perto de 40 pessoas, o que foi surreal. E a partir daí foi o que a malta já sabe. Não parámos. Neste momento estamos com perto de 40 alunos e já não estamos no Six Pack Academy. Infelizmente, o Bruno teve de encerrar as portas e estamos agora no Ideal Club Madalenense, que é onde fazemos o Porto Wrestlefest. Está tudo a correr super, híper, mega bem, com muitos alunos motivados, e assim que chegar o ringue acredito que o crescimento da Invicta vai ser ainda maior, tanto a nível de alunos como de treinos. Vamos ter mais um dia de treinos por semana, serão três treinos com ringue por semana, e daqui para a frente é sempre para cima, é sempre em pé. 
Na sexta-feira vou meter na página de Instagram da Invicta Wrestling uma curta metragem feita por uma escola sobre a fundação da Invicta Wrestling e o primeiro Porto Wrestlefest. 
 
Para quem não souber e estiver interessado: quais são os horários dos treinos da Invicta Wrestling?
Em agosto está a ser às quintas e sábados. Quintas das 19h30 às 22h e aos sábados das 11h às 14h. A partir de setembro, devemos adicionar um treino à sexta-feira das 18h às 21h, mas temos de aguardar para ver se, em coordenação com as outras modalidades que há lá, se este será o horário correto. Se eu não estiver presente, felizmente há dois alunos meus que têm feito um trabalho espetacular e daí terem tido um singles match no Porto Wrestlefest: Bingança!, que são o Arménio “Botas Fofas” e o Daniel de Pombal, que são os alunos em quem mais confio, que sinto que têm aprendido com mais facilidade e que têm conseguido carregar os treinos super bem.
 
 

“O que tenho mais a oferecer ao wrestling português é formar lutadores que são characters

Olhando para os teus alunos que já se estrearam e generalizando um pouco, diria que mesmo os que já têm mais rodagem ainda não atingiram a maturidade plena em ringue, mas quase todos têm um character muito desenvolvido. Praticamente nenhum tem uma gimmick mais genérica. Peço-te para que fales um pouco deles…
Isto tem a ver com a forma com que eu os treinos. Fiz muitos seminários com muitos lutadores de WWE e do México e tive a oportunidade de aprender com vários lutadores da Europa, mas quem me treinou, quem me ensinou aquilo que sei, foram estas pessoas:
- Ruben Branco no WP, que na altura estava a tirar um curso de comédia com o Rui Sinel de Cordes e explicava-me como me preparar para o trabalho de televisão, ou sejam, trabalhar as câmaras, saber falar, encarar uma câmaras, falar ao microfone, e tínhamos muito esta ideia de um wrestler estar num palco quando está no ringue, então tem de ter caráter e fazer com que as pessoas olhem para ele e ver algo com que se identifiquem, que foi algo que levei para o resto da minha carreira;
- Depois, em Londres, os meus três treinadores principais, dois da London School Of Lucha Libre, a escola que formou o Will Ospreay e outros grandes nomes, que eram o Greg Burridge e o Gary Vanderhorne. Na London School of Lucha Libre, os treinos eram muito baseados em be a fucking star. Tu tinhas que ser uma estrela, desde a gear que vestes à música que utilizas, aos teus maneirismos, à tua performance, porque o pay-off de treinar na London School of Lucha Libre é que depois eras chamado para a Lucha Britannia. E na Lucha Britannia, o que acontecia lá é que eras obrigado a não fazer a tua gimmick normal, ou seja, tinhas de ter uma personagem diferente. No meu caso, eu era o Triffidos, que era um monstro em forma de uma árvore, que queria destruir todos os humanos que destruíam o planeta Terra. Com isso, parecendo que não, colocamos uma máscara e incorporamos um character do zero, o que nos fazer perceber como é a criação de uma personagem: porque é ela é assim, porque se chama assim, porque se veste assim, porque se carrega assim e porquê este move-set? Como Triffidos, o meu finisher era o da AJ Lee, o Black Widow. Não pelo nome, mas porque visualmente parecia uma árvore a pôr os ramos sobre o oponente e a asfixia-lo, retirando-lhe oxigénio, oxigénio esse que só é fornecido pela natureza, pelas árvores. Ou seja, era o contradizer disso: “vou-te tirar o ar que tu tens porque tu estás-me a tirar o ar.” Estas pequenas coisas fazem-te ter um entendimento completamento diferente de wrestling;
Baltazar como Triffidos na Lucha Britannia
- E depois outro dos meus treinadores, na escola Hustle Wrestling, que era o Sid Scala, que na altura já estava a trabalha com a WWE, neste caso com a WWE UK.
Então, eu tinha muito conhecimento e muito ensinamento do que é que eles queriam e do que é que era importante, e também como é que um wrestler tem de ser a nível de business, merchandising, porque se calhar não vale a pena fazeres um golpe que alguém já faz, porque é que o teu padrão de cores é importante. Todo este bolo de informação que recebi destas quatro pessoas e de todos os seminários que fiz e todas as escolas de wrestling que fui visitar, como o Projo e a escola do Pete Dunne e do Trent Seven (Fight Club, no Norte de Inglaterra), fez com que começasse a perceber realmente o que é que funciona e que o mais importante não são os golpes, mas sim os sonhos e contar uma história.
Os meus alunos levam muito com isso, certifico-me que não tenho alunos iguais, o meu trabalho é conseguir perceber de que forma é que essa pessoa tem criatividade e tirá-la cá para fora. Ou, se não tem, porque é que não tem e como é que vamos lá chegar. Daqui para a frente, vocês ainda vão ver mais characters diferentes a sair da Invicta Wrestling, porque at the end of the day é isso que se quer. Naquela Bingança Battle Royal conseguiste, sem dúvida, ver isso. Eram todos diferentes. Mesmo malta que usava preto – e nós no wrestling temos esta coisa de usar preto – tinha algo completamente diferente do resto. Por exemplo, o Valentino com as penas vermelhas e a maquilhagem vermelha era completamente diferente do Lima, e ambos são homens de cabelo comprido preto. Mas a entrada, o move-set, o que cada um tem como catchphrase ou a forma de andar, falar e mexer-se são completamente diferentes. E isso, para mim, acho que é o que tenho a oferecer mais ao wrestling português, formar lutadores de wrestling que são characters, com que os fãs se identifiquem e para que, eventualmente, consigam fazer merchandise e ter bookings tanto em Portugal como no estrangeiro, porque são diferentes, o que ajuda os promotores a ter facilidade em criar histórias com eles, porque não são genéricos, têm algo mais a entregar. Um exemplo perfeito são os Dragões de Ouro, os Drago G e o Pedro Ferraz, que são neste momento os dois alunos da Invicta Wrestling que estão a ter mais trabalho. O Wrestlefest e o WP estão muito admirados com eles e só a APW é que não está a usá-los tanto porque é sediada no Algarve e não está a fazer eventos com tanta regularidade. Mas penso que, depois das férias, serão eles, o Arménio, o Daniel e estes alunos todos serão nomes que eles certamente vão querer ter nos seus eventos. 
 

Tudo começou com um Chokeslam de Kane a Hurricane

Voltando tudo atrás na linha do tempo. Nasceste a 4 de novembro de 1992…
A mesma data de nascimento do Luís Figo e do Matthew McConaughey.
 
Quando começaste a ver wrestling, quais são tuas as primeiras memórias e o que achas que te atraiu?
A primeira vez que vi wrestling foi quando estava a fazer zapping e penso que vi o Kane a fazer um Chokeslam ao Hurricane Helms. Eu não sabia o que era aquilo, mas achei muito fixe. Tive de ir ao teletexto ver que programa era aquilo. Eu não era fã de boxe e outras modalidades do género também não me interessavam, mas adorei a primeira vez que tive a oportunidade de ver um Raw. O wrestling foi, primeiro que tudo, o aspeto físico dos lutadores, achei que tinham todos um aspeto surreal. Até me lembro de ter o sentimento de que não devia estar a ver aquilo, porque estava a ver algo que era demasiado perigoso para a minha idade.
Quando vi o Raw, foi quando o Randy Orton ganhou o título mundial no SummerSlam [2004]. Ele estava a celebrar com os Evolution e eles deram-lhe um excerto de porrada, deixando-o cheio de sangue. Naquele momento, fiquei completamente agarrado ao wrestling, até porque eles falavam inglês e sempre me senti extremamente atraído pela língua inglesa, sempre gostei muito de aprender inglês e as músicas que eu ouvia sempre foram de bandas que cantavam em inglês. O wrestling ajudou-me a perceber inglês por causa das legendas. O J.R. falava e eu percebia que elbow é cotovelo. Foi uma boa aprendizagem. A partir daí, não parei e comprei o jogo SmackDown vs. Raw para a PlayStation 2, um amigo meu tinha o Here Comes The Pain e fui aprender um bocadinho mais sobre wrestling. Na altura, não tinha Internet, ouvia tudo na televisão. Tinha um amigo da escola, que era o Pedro, que tinha Internet e mostrava-me o site da WWE. Eu achava aquilo espetaculares, mas ficava intrigado por os shows serem transmitidos com semanas de atraso. Adorei os personagens, o fogo de artificio, as músicas e as storylines. Vivia aquilo 24 horas por dia, como vivo ainda hoje.
 

A boleia a MJF e o toque no peito de Triple H

Mauro Chaves enquanto campeão da London Lucha League
Já contaste que os teus favoritos eram geralmente wrestlers com cabelo comprido, tatuagens e vibes do rock, como Triple H, Shawn Michaels, Edge, Jeff Hardy e CM Punk. Como é que as tuas inspirações têm mudado, se é que mudaram, ao longo dos anos?
Se mudaram foi porque comecei a estudar wrestling. E, sinceramente, vou mais para trás do que para a frente. O estilo que hoje em dia é muito praticado não é o meu favorito. Nunca foi. Aquilo que sempre tive orgulho na Lucha era que eu não queria aprender a fazer os flips todos, mas sim aprender a levá-los, porque percebi logo que para conseguir trabalho nesta área tinha de ser o gajo que conseguia bumpar para os flippy boys, porque é o género que existe hoje em dia. Se tu não estás apto a fazer isso, dificilmente vais conseguir ter vários combates. Por isso, gosto muito de lutadores antigos. Gosto mais de characters e de promo guys do que propriamente gajos que vão para o ringue e fazem muito wrestling. Isso nunca me interessou. At end of the day, para mim, o mais importante sempre foi do less, get paid e ser capaz de contar uma história. Porque depois as pessoas esquecem-se que o wrestling dói. E quantas mais bumps tu teres, a possibilidade de ficares magoado é maior. E, infelizmente, nenhum de nós aqui em Portugal tem um vencimento que permita viver de wrestling ou, caso te magoes, esteja tudo OK e fiques super bem porque podes não trabalhar durante o ano. Não é assim. Então, sempre tive esse cuidado.
Os meus favoritos serão sempre esses cinco, porque me deram muitos momentos importantes na minha infância e foram a grande razão pela qual eu quis ser um lutador de wrestling, mas gosto muito do Roddy Piper e atualmente do MJF. Já conheci o MJF, numa vez em que estive em Inglaterra, demos-lhe boleia a ele e ao Tate Mayfairs da companhia onde estávamos até Londres. Ele foi extremamente simpático connosco e super rude contra o resto das pessoas, o que foi incrível.
É muito difícil também caracterizar outros lutadores. Há tantos hoje em dia. Mas posso dizer que, se eu tiver de pagar bilhete para ir ver um show, adorava ver o CM Punk ao vivo. Ainda não tive oportunidade. Estive recentemente no MEO Arena e ele não veio, fiquei um bocado desapontado por isso. Tenho pena também que a WWE tenha escolhido ir ao MEO Arena e não ter vindo ao Super Bock Arena, acho que teria sido muito mais fixe, mas é algo que deixo no ar.
Falta-me o CM Punk e gostava muito de ver o Edge, porque ele agora está a começar a fazer uns bookings fora da AEW e, quem sabe, se calhar vai fazer uns bookings pela Europa e aí gastaria dinheiro para o ver ao vivo.
 
O que te levou a dar o passo de começar a treinar wrestling e qual a reação da tua família?
Com o amigo David este ano no MEO Arena
Eu sabia que queria fazer wrestling, mas não sabia como. Numa das vezes que a WWE veio a Portugal, era o SmackDown em [24 de setembro de] 2008, eu estava numa bancada bem lá em cima, que tinha um corrimão, e fiquei com um bocadinho de inveja das crianças que tinham a possibilidade de estar na primeira fila, porque venho de uma família que não tinha posses muito grandes para poder gastar assim 100 ou 200 euros de uma só vez e também nunca fui uma criança que pedisse muito aos meus pais, sempre fui feliz com pouco, felizmente. Nessa altura, tive de ir trabalhar, fazer limpezas, para conseguir dinheiro para ir ver os shows da WWE, e na altura ainda foi uns 50 ou 60 euros, mas era o que era preciso fazer e eu fiz. Pensava que ia conseguir mais dinheiro para ir lá para a frente com o meu amigo David, mas não conseguimos.
No main event, era o Triple H e o Undertaker contra o Big Show e o MVP. Virei-me para o David e disse: “olha mano, eu tenho de saber o que é estar lá à frente. Está aqui a minha mochila e as chaves de casa da minha avó – ele era meu vizinho –, eu vou saltar lá para baixo e vou correr até lá à frente e dar um high five ao Triple H. Se alguém me apanhar da polícia, diz à minha avó.” E arrisquei. Não estou a dizer para fazer isto, mas na altura senti que que era aquilo que queria fazer e fiz. Empoleirei-me, saltei, cai de pé, dei uma cambalhota para trás, olhei para o David, que me incentivei, e com o fogo todo no cu fui a correr, pus-me em cima das cadeiras e nunca me vou esquecer: toquei no peito esquerdo do Triple H e na mão direita onde ele tinha a tape toda.  Olhei para a minha mão, eu e o David olhámos um para o outro e ficámos eufóricos. Incrível! Consegui sair e fomos juntos para casa, sem ninguém me apanhar. E naquele dia decidi que ia ser lutador de wrestling.
Eu já sabia da existência do WP, mas o WP pedia uns documentos a nível de saúde que eu não tinha na altura e eu também não me sentia confortável em dizer à minha família que ia fazer wrestling, porque eles podiam não gostar e dizer não, então depois descobri o CTW, fui um bocadinho rebelde e fui lá. Estive lá a treinar durante perto de dois anos e aquele seminário com o Tony de Portugal aconteceu lá. Mas tive problemas com o CTW. Não me vou alongar, mas, basicamente, vou só dizer que não fui bem tratado. O treinador do CTW, que é o Red Eagle, não me tratava bem. Não sempre, porque durante muito tempo tratou-me muito bem, mas tivemos vários conflitos no final e eu saí do CTW e juntei-me ao WP.
Só depois é que fiz a minha grande estreia, na Taça Tarzan Taborda de 2014, porque até lá tinha tido um combate cá e uns combates no Reino Unido, quando fui lá fazer uma tour a uns sítios que o Red Eagle me arranjou, mas ainda me estava a descobrir e isso para mim não conta. Foram só reps, como eu costumo dizer.
Depois disso, fiz os cinco shows do WP Academia, o WP depois finalmente voltou à vida, abriu o Shotokai para fazer eventos normais e eu, nessa altura, já estava a caminho do Reino Unido.




 
 


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