quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

“Zezé” Meyong chegou a Setúbal há 20 anos

Meyong marcou o golo que deu a última Taça de Portugal ao Vitória
Na edição de O Setubalense de 31 de janeiro de 2000, o jornalista Teodoro João escreveu a notícia da chegada ao Vitória de Setúbal de um tal “Albert”, avançado camaronês oriundo do Ravenna, da 2ª Liga Italiana. “O ponta de lança foi pré-selecionado “A” pela seleção dos Camarões para o Campeonato do Mundo de França [1998]. Ao serviço do Ravenna, apontou 8 golos em 12 jogos, entre jogos oficiais e particulares. O atleta vem a custo zero, porquanto era um jogador livre”, podia ler-se, numa apresentação de um futebolista que há muito passou a dispensar apresentações.


Contudo, a estreia do então craque de 19 anos só se viria a verificar mais de um mês depois, devido a um atraso na chegada do certificado internacional. “Contactámos a Federação Italiana, que nos disse que o passe está em posse da Federação Espanhola. Entretanto o jogador garante-nos que não assinou nada pelo Mérida, clube onde esteve à experiência”, esclareceu o presidente do Vitória na altura, Jorge Goes, em peça publicada a 18 de fevereiro.

Finalmente, a 4 de março, Meyong lá vestiu a camisola verde e branca pela primeira vez, entrando ao intervalo num triunfo caseiro sobre o Rio Ave (2-0), para a I Liga, mas a tempo de impressionar o jornalista António Elias. “Uma estreia de boa nota. Bons apontamentos de ordem técnica”, escreveu, a 6 de março.


Primeiro golo… a Jorge Jesus

A exibição do avançado africano também na retina do então treinador vitoriano Rui Águas, que lhe atribuiu a titularidade nas jornadas seguintes, na visita ao Farense (0-0) e na receção ao Estrela da Amadora (0-0). Frente aos amadorenses, a 19 de março, apontou o primeiro de 81 golos com a camisola sadina, para desgosto do técnico adversário, Jorge Jesus, que o viria a orientar em Setúbal, no Belenenses e no Sp. Braga. “Golo de Meyong, a emendar de cabeça um remate de Ricardo Esteves que havia saído na diagonal à baliza”, descreveu António Elias, sobre o lance ocorrido aos 64 minutos.

Nas descidas e nas subidas

Com dois remates certeiros em nove partidas na segunda metade de 1999-00, o contributo de Meyong foi insuficiente para manter o Vitória na I Liga. Na temporada seguinte, continuou à beira-Sado, mas só em outubro começou a jogar, porque esteve em Sydney, na Austrália, a ganhar a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos ao serviço dos Camarões.

Ainda assim, regressaria a tempo de alinhar em 22 jogos e apontar 13 golos, o último dos quais a garantir a promoção, aos 89 minutos da derradeira jornada, num triunfo sobre a Naval (2-1), num Bonfim à pinha, a 27 de maio de 2001. "É um dos golos mais importantes para mim e dos que mais festejei. Nesse jogo o estádio do Bonfim estava cheio. Foi a primeira vez que vi o estádio tão cheio e um ambiente fantástico. Consigo fazer o golo mesmo no fim. Mudou muitas coisas e a vida de muita gente", contou à Tribuna Expresso em abril de 2019.


Voltou a descer de divisão em 2002-03, mas tornou a subir na época seguinte, sob a orientação de Carlos Carvalhal, naquela que foi a sua temporada mais produtiva da carreira: 21 golos.

Muito encanto na hora da (primeira) despedida

Entre os 216 jogos em que Albert Meyong Zé – ou Zezé, como popularmente é conhecido – vestiu a camisola verde e branca, o mais significante foi disputado a 29 de maio de 2005, quando também vestiu a pele de herói da Taça de Portugal. O camaronês apontou o golo que deu o triunfo sobre o Benfica (2-1), em pleno relvado do Jamor.


Com esse remate certeiro se despediu dos vitorianos. "Primeiro falei com o presidente, o Chumbita. 'Senhor presidente, eu fico aqui no Vitória, nem quero subir o meu salário'. O Braga dava-me o mesmo, o Belenenses dava-me mais - 'mas baixar salário também não quero. Não quero que me aumentem, quero o mesmo salário. E fico cá no Vitória'. Ele disse que tinha de falar com a assembleia, porque não é o presidente que decide. Na assembleia decidiram que o Vitória não tinha condições para pagar o mesmo salário. E fui para o Belenenses", contou à Tribuna Expresso.

Depois de se ter sagrado melhor marcador do campeonato ao serviço dos azuis do Restelo, transferiu-se para os espanhóis do Levante, que o emprestou ao Albacete e ao Belenenses. Esteve três anos e meio em Braga, mas voltou a Setúbal em janeiro de 2012. Já trintão, não tão veloz, mas mais experiente, apontou 21 golos em 34 jogos, até se voltar a despedir um ano depois.

Após três temporadas nos angolanos do Kabuscorp, regressou ao Sado em janeiro de 2016, para o último ano e meio carreira. "Chegou uma altura em que eu queria terminar a minha carreira aqui. Era a melhor coisa que podia acontecer-me. Falei com o presidente [Fernando Oliveira] e ele disse-me que podia ficar aqui para terminar a carreira." Nesta terceira passagem pelo Bonfim, apenas marcou um golo, mas continuou a merecer a admiração de todos os adeptos sadinos. 


Aos 36 anos, foi alvo de homenagem no Jantar de Aniversário do clube, com o Prémio Reconhecimento, e na gala organizada pelo Núcleo Fidelis Causa, com o Troféu Golfinho Verde.  “Uma velha glória ainda em atividade”, descreveu Fernando Tomé na altura.

Desde que pendurou as botas, em maio de 2017, tem estado integrado no staff técnico do plantel profissional. Depois de adjuvar José Couceiro, Lito Vidigal e Sandro Mendes, foi chamado a assumir interinamente o comando da equipa no final de outubro do ano passado, tendo somado uma vitória, um empate e uma derrota antes da chegada do espanhol Júlio Velázquez.























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