segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Lobo Ibérico: “Só soube que ia ser campeão de Lisboa uma hora antes do show começar” (Parte 1)

Lobo Ibérico é o quarto wrestler a deter o Cinturão de Lisboa
Desde 14 de março que detém o Cinturão de Lisboa, conquistado de forma surpreendente (até para o próprio) num combate disputado na escola secundária que frequentou e diante de dois companheiros da stable Alcateia e do seu primeiro aluno graduado na Project Wrestling, escola sediada em Alenquer desde março do ano passado.
 
Na primeira parte desta entrevista, o Lobo Ibérico revela que o fim da carreira está próximo e que já idealizou o seu último combate, fala sobre o “território do Oeste” que se está a querer criar, avalia a evolução de Tiago Torres e compara o seu próximo adversário, Paulinho, a uma lenda do wrestling português que terminou recentemente a carreira.  

 
DAVID PEREIRA – És o detentor do Cinturãode Lisboa desde 14 de março, quando venceste um four way match no qual também constavam os teus companheiros de Alcateia (o até então campeão Luís Mestre e O Gomes) e Tiago Torres. Que significado é que esse título tem para ti, tendo em conta a história do mesmo e o facto de ser o teu primeiro, e que balanço fazes destes seis meses de reinado?
LOBO IBÉRICO – Considerando a minha carreira, finalmente terem-me colocado na posição de confiarem em mim para representar o título, ainda por cima um título que é a representação de algo que já tem uma linhagem muito grande, é algo que é pesado em termos de significado para mim. Fico feliz por me darem essa importância. Agora faço uma pequena revelação: só soube que eu ia ser campeão de Lisboa há uma hora antes do show começar. Estes filhos da mãe… toda a gente já sabia. Só descobri uma hora antes. Fizeram-me a surpresa nesse dia, ainda por cima, foi no Wrestlefest Odivelas, na Escola Secundária de Caneças, que eu frequentei e a cinco minutos de minha casa. [começa a ficar emocionado] Não só me fizeram a surpresa de ser o novo campeão como o fizeram na minha hometown. Foi tipo: “seus filhos da mãe, vocês vão levar na boca… mas eu adoro-vos a todos.” Se formos a pensar bem. em termos de pro wrestling ser campeão não significa que és o melhor, mas que a companhia confia em ti para representares esse título. Agora, é claro que este título vai levar a outras coisas, como a conclusão ou continuação de uma das rivalidades mais antigas que temos a Portugal, entre mim e o Nelson Pereira.
 
Visto de fora, foi uma conquista surpreendente, pois estavas bastante inserido na dinâmica da divisão de tag team. É quase como imaginar o D-Von Dudley campeão intercontinental da WWE em 2000 ou 2001…
Anda por cima, numa fase da minha carreira em que eu já nem estava à espera de ganhar títulos singulares. O facto de eu ter andado a fazer tanto tag team wrestling nos últimos tempos de certa forma ue ajudou a prolongar a minha carreira, porque já há uns tempos que ando a dizer que aguento até aos 40 anos e depois logo vemos… porque já são muitos anos e isto já causa as suas mazelas. Estou muito grato ao Gomes por me ter permitido fazer equipa com ele este tempo todo. Criámos uma das equipas mais dominantes do panorama nacional, o que permitiu, de certa forma, estender a minha carreira. Se tivesse continuado a fazer só singles, provavelmente já tinha terminado. Então quando me disseram “olha, vamos decidir dar-te o título de Lisboa porque achamos que é a tua vez e que tu mereces", quis verter uma lágrima na altura. Foi um momento de felicidade, mas ao mesmo tempo de raiva e irritação.
 
Mas é já para o ano que fazes 40…
Eu digo: aguento-me até aos 40. É mais um aninho. Faço já um prognóstico: tinha uma fratura na minha mão, outra no meu pulso, uma lesão antiga no tendão de Aquiles do pé esquerdo, escoliose desde os meus 11 anos, recentemente descobri que ando há pelo menos um ano com uma rutura de ligamentos num dos pés e estou com 39 anos. Quanto mais velho fico, mais isto se vai acumulando. Eu tenho a noção do desgaste que isto causa e não quero chegar a um ponto em que só me já estou a arrastar, só porque sim. Se estiver no ringue, quero estar o melhor possível. E admito: não estou na minha melhor forma neste preciso momento. Estou um bocado limitado em certos pontos. Felizmente, agora comecei a fazer fisioterapia e já estou a começar a recuperar. Mas tenho noção de que isto vai acumulando, vai acumulando… Não quero chegar a um ponto em que estou no ringue e malta que está de fora me pede para parar. Vejo muitos wrestlers estrangeiros que estão nos seus 50 e 60 ainda a fazer isto e eu só penso: “epá, não”. Tenho essa meta dos 40 anos, mas não vou dizer que vou parar logo. Que motivo tenho eu para continuar? Há alguma história que seja precisa? Há alguma coisa para a qual ainda consiga contribuir? Estou só a fazer isto por mim? Agora já estou numa fase em que já não estou a fazer isto por mim. Já estou a fazer pelo que consigo dar ao wrestling.
 

“Vejo no Paulinho uma versão melhor do Vítor Amaro”

A próxima defesa de título é frente ao Paulinho, no Algarve Wrestlefest, a 19 de setembro. É difícil imaginar o Lobo Ibérico perder o Cinturão de Lisboa devido à storyline com o Nelson Pereira, mas o Paulinho joga em casa. O que podemos esperar deste combate?
Que vou bater no Paulinho com força. Com muita força. Agora falando a sério: já conheço o Paulinho desde que ele se estreou e vejo nele uma versão melhor do Vitor Amaro. O que quero dizer é que o Vítor Amaro nunca foi conhecido pela sua in ring skills, nunca foi o melhor wrestler, mas tinha aquele carisma, aquele fogo, aquilo que basicamente tu não consegues ensinar. E vejo um bocado o Paulinho assim. Não estou a dizer que ele é mau wrestler. É bom wrestler até. Tem dois anos disto e ainda está verdinho, ainda tem muita coisa para limar, é verdade. No entanto, aquelas pequenas coisas que não consegues ensinar, que é o carisma, a interação com o público, o fogo nos momentos certos, ele tem. Então vai ser interessante ter essa dinâmica com ele. Principalmente, ele estando em casa, ver o quanto é que eu captar o ódio do público. Porque o público do Algarve, às vezes, consegue ser difícil de puxar, porque é um público mais pacato, mais calmo. Mas, quando der porrada no menino da casa, poderá ser um momento bastante interessante.
 
 
A t-shirt do suposto último combate entre ambos
Apesar de o Lobo Ibérico já ter defendido o título frente a Sexy Killroy no Porto Wrestlefest Revolta (25 de abril) e diante de Ricardo Neto no evento Morte Súbita (18 de julho) e de ter defesa agendada frente ao Paulinho, a grande história deste reinado tem sido a perseguição feita por Nelson Pereira, que havia prometido não voltar a defrontar-te, mas que quer o Cinturão de Lisboa. Depois de muita insistência, disseste que só aceitavas o combate se o Nelson colocasse a carreira em jogo. O Nelson e o Lobo Ibérico são rivais históricos, têm mais combates um com o outro do que com qualquer outro lutador…
Somos talvez a rivalidade mais antiga em Portugal. Acho que a única que se poderia comparar seria talvez Mad Dog contra Art Gore. Não sei quanto tempo é que andaram os dois à pancada. Para teres uma ideia, eu e o Nelson fizemos, a 24 de agosto, 12 anos que pisámos o ringue pela primeira vez. Começámos os dois a treinar com cerca de uma semana diferença e a nossa rivalidade tem, no mínimo, uma década. Já é uma história que se estica a mais duas companhias, isto se considerarmos os confrontos que tivemos no WP entre SFB e Alcateia. É uma rivalidade já com vários ciclos.
Ele prometeu não me enfrentar mais porque, quando o primeiro Wrestlefest foi anunciado, aquilo era suposto ser um one and done. Era suposto ser o show de aniversário que o Nelson queria fazer há já muitos anos e ele quis concluir a nossa rivalidade na altura. Até fizemos uma t-shirt para isto, para celebrar o que seria o último combate entre nós. Só que ele já tinha saído do CTW e eu ainda estava lá e até estava no main event, na rota do título do CTW. Só que esse Wrestlefest bateu todas as expetativas, foi provavelmente o melhor show em Portugal naquela altura, um show que juntou malta de APW, WP e CTW, e sentiu-se uma aura de backstage que nunca se tinha sentido antes. Malta de sítios diferentes e estavam todos a dar-se bem, motivados para dar um grande show. O ambiente estava espetacular e o Wrestlefest continuou.
Entretanto, grande parte da malta do CTW saiu de lá, o que levou a que boa parte do roster do WP e do Wrestlefest se formasse, porque houve malta que foi treinar para esses sítios, e levou a que, obviamente, eu e o Nelson nos continuássemos a enfrentar, neste caso em tag team e multi-man matches. Ou seja, o que era para terminar a nossa rivalidade não terminou. Continuou, continuou, continuou… Não estou a dizer que é para terminar esta história, mas já que esta rivalidade continuou, vamos dar-lhe, mais uma vez, uma chamazinha. O que é que conseguimos extrair daqui? Claro que não podemos ir só pelo título. Vamos fazer uma dinâmica de storyline, pegar nisto de nós nunca mais nos iríamos defrontar.
 
 

Tem o combate de despedida idealizado

Seria bastante simbólico se o último combate do Nelson fosse frente ao Lobo Ibérico. Que significado teria para ti seres o último a partilhar o ringue com alguém com quem tens tanta e tão longa ligação?
Seres a última pessoa com quem alguém partilha o ringue é sempre especial porque estás a deixar uma marca na história dessa pessoa, és quem vai fechar um capítulo da história dessa pessoa. No caso do Nelson, se eu for o último adversário dele, se terminar a carreira dele, estarei a terminar aquele que é talvez o capítulo mais importante da vida dele. Porque o wrestling é tudo para o Nelson. Como já disse várias vezes, é aquilo que dá felicidade e sentido à vida dele. Se for eu aquele que lhe fecha esse capítulo, será uma responsabilidade imensa. Mas também terá uma grande importância para mim, ainda por cima ser com alguém com quem já partilhei o ringue tantas vezes. Começámos juntos e de certa forma seria terminarmos juntos. É pesado.
Eu, por exemplo, já tenho uma ideia do que quero ter para o meu último combate. Se vai realizar-se ou não, não sei, mas sei que o Nelson aceitou que, quando eu decidisse, ele bookaria esse combate. Não quero deixar spoilers, mas posso dizer que será uma espécie de tributo a um dos meus wrestlers favoritos de sempre, o Kenta Kobashi, que no combate de despedida dele fez um combate contra wrestlers que se podem considerar quatro alunos dele (Go Shiozaki, KENTA, Maybach Taniguchi e Yoshinobu Kanemaru) e aliou-se a antigos rivais dele (Jun Akiyama, Keiji Muto e Kensuke Sasaki). O simbolismo daquele combate, para mim, foi bastante especial. Quando me retirar, é um bocado esse o simbolismo que quero passar. Por isso, o meu último combate vai ser algo dentro desses parâmetros. Agora, quem é que lá estará? Deixo aqui para a malta divagar. Não tenho datas ainda, mas tenho o conceito do combate e já tenho falado disto a várias pessoas e alguns já disseram que querem estar presentes. Quando chegar o momento, há de ser anunciado.
 
 

O “paizinho” bateu o pé e “está tudo bem na Alcateia”

"Está tudo bem na Alcateia", garante Lobo Ibérico
É fácil imaginar quem poderá lá estar. Dois deles, os outros elementos da Alcateia, venceram os títulos nacionais de tag team. Depois de algumas desavenças que desencadearam inclusivamente o combate no qual venceste o Cinturão de Lisboa, está tudo sanado no seio do grupo?
A Alcateia, mais do que um grupo, é uma família. Apesar de muitas vezes dizerem que o Mestre é o líder os outros são os capangas, na realidade, dentro da Alcateia não há propriamente uma liderança. Somos três irmãos, não de sangue, mas somos três irmãos que se juntaram para atingir objetivos em comum. E estamos ali para nos apoiar uns aos outros. Agora, claro que toda a gente que tem irmãos, mais novos ou mais velhos, sempre andou às turras com eles. Existe, é família. E quanto mais próximo tu és dessa pessoa, mais intenso poderá ser esse arrufo. Por isso, arrufos haverão sempre. No entanto, os nossos objetivos estão cumpridos: Temos ouro na Alcateia. O título de Lisboa ainda está dentro da Alcateia, consegui mantê-lo dentro do grupo. E o meu objetivo foi juntar aqueles dois diamantes em bruto, uni-los e fazer com que se tornassem uma das melhores equipas de sempre de Portugal e chegassem ao topo da montanha. Foi realizado. E eles conseguiram não só ganhar os títulos, como ganharam a uma das melhores equipas de sempre, os Murder Business, num show que tinha talvez uma das melhores casas e uma das melhores crowds de sempre. Só tenho pena de não ter lá estado. Se bem que, de certa forma, estive lá representado.
Está tudo bem em Alcateia? Está! Cumprimos os nossos objetivos. Foi duro. Foi preciso um tough love, por assim dizer. Foi basicamente preciso eu fazer um ultimato, o paizinho bater o pé. Mas está tudo bem na Alcateia.
 
Sempre que o Lobo Ibérico aparece, ouve-se o cântico “tu tens pulgas”. Quando foi a primeira vez que o ouviste? Gostas?
“Tu tens pulgas”, “tu és um rafeiro”, “tu vais para o canil”. Já oiço esses cânticos há anos e anos. E não me importa nada. Como heel durante 95% da minha carreira, é esse o meu trabalho, o meu objetivo. Quero que a malta tenha esses cânticos porque isso significa que estão interessados o suficiente para interagir e estão a divertir-se com a situação. São cânticos fáceis, mas são os melhores. Uma coisa que também noto é que, de vez em quando, assim que a minha música começa e se ouve o uivar do lobo, oiço toda a gente a uivar. Por isso há uma dinâmica interessante. No fundo, é isso que interessa, e pelo menos é melhor que os cânticos que eu tinha nos meus primórdios, que era de “Power Ranger”, e esses eu odiava, porque não tinha nada a ver com a gimmick, só com a gear. A estes eu até posso responder e brincar um bocado: “És um rafeiro” – “isso é o que a tua mãe diz ao teu pai, “Vais para o canil” – “Tu vais comigo”.  “Tu tens pulgas” – “Não, tomei pipeta ontem”. Agora, o que é que eu respondo a um cântico de “Power Ranger”?
 

Project Wrestling tem “meia dúzia” de alunos e quer criar “território do Oeste”

Lobo Ibérico é treinador na Project
Além de wrestler, és um dos fundadores e treinadores da Project Wrestling, escola sediada em Alenquer desde março do ano passado. Como surgiu esta oportunidade, que balanço fazes deste ano e meio e quantos alunos têm?
Quando houve o êxodo do CTW, a única escola que havia na altura era o WP e houve uma altura em que o Santos criou o Dojo do Wrestlefest. E durante uns tempos era nesse sítio que íamos treinar. Só que as coisas implodiram. Lembro-me que havia malta que não estava a ir muito com a cara do Santos e também não queria treinar ao WP por vários motivos, que não vou apresentar aqui. E havia malta que queria continuar a treinar, mas não queria esses sítios.
Depois fomos combinando fazer treinos aqui e ali e posso revelar que cheguei a fazer treinos no relvado atrás do Oceanário de Lisboa. Até houve uma situação muito caricata em que estava lá com dois dos meus alunos que acabaram por ser dois dos fundadores da Project a fazer um treino de striking, uns pequenos drills, e, entretanto, um pequeno público começou a juntar-se para ver o que estávamos a fazer. Comecei a topá-los pelo canto do olho e disse a um deles: “vamos mostrar-lhes aqui como é que se faz”. Começámos a fazer coisas mais a sério, até ao momento em que vendi para o chão, caído, e esse público começou aos aplausos e a dizer que era uma “ganda cena”. Foi surreal.
Entretanto, um desses alunos conseguiu contactos com o Sporting Clube de Alenquer, que é um clube que tem artes marciais e outras modalidades e tinham espaço para ter lá outra modalidade. Então ele perguntou-me a mim e ao Mestre se estaríamos interessados em abrir uma escola e sermos os treinadores. E nós concordámos. Eu moro a meia hora de lá, ir para Alenquer ou para Almada (onde era o antigo Dojo do Wrestlefest) era quase a mesma coisa em termos de distância e tempo, então estava tudo bem. Até é engraçado, porque fomos lá em fevereiro falar com o homem, o sr. Júlio – que foi e tem sido sempre espetacular, apoia-nos imenso –, e apresentar o nosso projeto, e ele perguntou quando queríamos começar e sugeriu começarmos logo naquela semana. Acabámos por começar em março.
Quanto aos alunos, há sempre malta que aparece para experimentar e depois não volta, mas contando com os dois membros que são os donos daquilo, temos meia dúzia de alunos neste momento. Não é a explosão que a Invicta teve, que tem uns 30 alunos – e dou os meus parabéns ao Baltazar por isso –, mas o conceito da Project é criar wrestling para o Oeste, do Oeste. Nós não queremos criar um Wrestlefest nem um WP, queremos criar wrestling local, para os locais. A nossa ideia é criar algo que não existe em Portugal, que acho que nunca existiu – a APW tentou por uns tempos, mas falhou, e a MLW foi conseguindo, mas com a qualidade de wrestling que tinha na altura queimou mais os territórios –, que é criar um território, o território do Oeste. Queremos, basicamente, criar quase que uma tour de todos os pontos dentro do Oeste e criar um bocadinho o que se vê no wrestling independente britânico. Queremos shows aqui e ali, ir às feirinhas e festivais, e tentar adaptar o estilo de wrestling para esse público, porque o wrestling que um fã hardcore aprecia não vai ser o mesmo tipo de wrestling que casual, se calhar, vai apreciar, como aquele velhote que vai levar os netos à feirinha. Provavelmente não vai apreciar tanto um wrestling com 500 saltos, mas se calhar vai apreciar mais uma boa personagem que interaja o público e um bom soco e uma boa chapada do que propriamente 500 Piledrivers. Estamos a tentar criar algo diferente em Portugal, a buscar inspiração na estrutura da antiga United States Wrestling Association (USWA), a companhia do Jerry Lawler. Basicamente: wrestling simples, mas bem feito. Agora estamos numa fase de investir em arranjar o nosso ringue, para que consigamos chegar ao próximo patamar. Mas, por agora: basics, basics, basics.
 
 
A Project Wrestling já organizou um evento, a Alvorada no Oeste, a 27 de dezembro do ano passado. Para quando mais shows?
Não estou por trás dessa parte, são os outros três, sou apenas treinador. Dou a minha opinião, que tem o seu peso, mas não sou eu que tomo as decisões. No entanto, sei que eles tencionam fazer qualquer coisa ainda este ano. Quando? Não sei dizer. Estejam atentos a futuras notícias. Mas sim, o objetivo não é só ser uma escola, é ser uma companhia independente e fazer algo. Não estamos a querer substituir o Wrestlefest, o WP, a Invicta… não! Estamos a querer complementar, a querer criar um território. Aliás, o que eu quero para a Project é algo parecido à companhia em que treinei há uns anos, a WrestleZone, da Escócia. Eles lá têm os seus cinco big shows, mas depois têm os seus shows pequenos pelas terriolas à volta, vão a festivais e feiras e acabam por ter shows de duas em duas semanas. É um bocado essa dinâmica que eu gostaria de ver na Project, uma coisa contínua que vai percorrendo toda a zona e atrair um bocado mais para a modalidade, apresentar o wrestling onde o wrestling não existe e poderá não ser tão bem visto. Mas tu sabes tão bem quanto eu que uma coisa é veres o que está na televisão e outra coisa é veres ao vivo.
 
E o ringue, é para quando?
Timings ainda não temos. Temos tido alguns contratempos. Não da nossa parte, mas de outros meios. Para quando não sei dizer. Originalmente queríamos construir o ringue localmente, mas já estamos a pensar em planos B e C caso isso não aconteça. Não te sei dar uma data. Não quero estar aqui a prometer algo que poderá não acontecer tão cedo.
 
Tens gostado de ser treinador? É algo que te vês a continuar a fazer após pendurares as botas?
Sem dúvida. Até já comentei com os meus chefes na altura que, quando deixar de pisar o ringue, tenciono continuar a ensinar. Sinto que tenho ainda muito para partilhar em termos de conhecimento, psicologia, técnica… um bocado de tudo. Sinto que tenho muito para partilhar e que era um bocado desperdício, depois de mais de uma década a investir nisto, a treinar isto, a aprender isto, deixar todo esse conhecimento ali no canto a desaparecer quando finalmente pendurasse as botas. Não. Sinto que o wrestling deu-me esta oportunidade e que está na minha altura de contribuir e passar a outros. Seria um desperdício, na minha opinião, não continuar e não passar o meu conhecimento.
 

“Cada vez que vejo o Tiago Torres no ringue, fico estupefacto”

Lobo Ibérico e Tiago Torres no Wrestlefest Odivelas
O primeiro aluno graduado da Project Wrestling é o Tiago Torres, presença habitual nos shows do Wrestlefest. Como tens visto o desenvolvimento dele?
Cada vez que o vejo no ringue, fico estupefacto, porque a evolução dele tem sido enorme de combate para combate. Ele sempre teve um talento inato, só que precisava de treino e de tempo. Depois de ele se ter finalmente estreado [no APW Super Impacto, a 8 de novembro de 2025], teve o combate com o Mestre na Project e viu-se que o miúdo can go, porque as coisas que ele fez naquele ringue e a dinâmica que mostrou, percebeu-se que o miúdo consegue estar lá com os melhores. Há malta que diz que ele estava com o Mestre e que foi o Mestre que o carregou, mas são precisos dois para dançar o tango e, por muito bom que um gajo seja, se o outro não conseguir acompanhar, não adianta nada. E o miúdo conseguiu acompanhar. Ele tem evoluído de combate para combate, como podemos ver pelos últimos combates que ele te com o Pedras e o Damião, e está a atingir um nível em que é já inegável que o Tiago Torres é um wrestler e está pronto para isto. Isso deixa-me feliz, porque já o conheço há vários anos, ele era um miúdo um bocado fechado, mas que depois se começou a abrir quando se sentiu mais à vontade com o pessoal. Ver a performance dele, que só começou agora e ainda está na casa dos 20 anos… Como é que ele estará daqui a dois ou cinco anos?
 
Mas o Tiago Torres começou na Project ou já tinha treinado em algum sítio anteriormente?
Ele entrou no CTW no último ano em que lá estive, começou lá, apanhou os básicos na altura e depois, quando nós saímos, saiu connosco e teve um período de pausa sem treinar. Quando lançámos a Project, aí ele voltou e como se pode ver conseguiu recuperar o tempo perdido.
 
Faltar-lhe-á desenvolver mais a personagem?
Falta-lhe tempo… falta-lhe andamento. Tecnicamente ele está lá. Desenvolvimento de character? Diria que falta ele descobrir quem é o Tiago Torres, que é algo que eu e o Mestre não lhe podemos ensinar. Podemos dar-lhe a nossa opinião, indicar-lhe caminhos e rotas, apresentar-lhe sugestões, mas é um percurso que tem de ser ele a percorrer. 



 

 





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