segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A desordem organizada de Paulo Fonseca

 Fonseca tem dado ao SC Braga o 'upgrade' que procurava
O SC Braga conheceu os seus tempos áureos com Domingos Paciência e Leonardo Jardim, entre 2009 e 2012. Foi durante esses anos que terminou por duas vezes no pódio da Liga (2.º em 2009/10 e 3.º em 2011/12), chegou à final da Liga Europa (2010/11) e ainda bisou em presenças na fase de grupos da Liga dos Campeões (2010/11 e 2012/13). Algo sem paralelo para aqueles lados.

Os guerreiros eram, essencialmente, uma equipa fortíssima em transições, que explorava bastante os passes em profundidade – Hugo Viana era especialista - para jogadores rápidos na frente como Alan, Hélder Barbosa, Mossoró, Lima ou Matheus. Mas com a notoriedade conquistada, os seus responsáveis entenderam que tinha chegado a hora de fazer um upgrade no estilo de jogo, para que a equipa se parecesse definitivamente com uma equipa grande e não com a maior das mais pequenas.


O primeiro a tentar tornar os minhotos numa equipa essencialmente de posse controlo de bola foi José Peseiro, ainda que mantendo a estrutura de 4x2x3x1 deixada por Jardim – realce-se que tática e modelo de jogo não são a mesma coisa. Até venceu a Taça da Liga, mas terminou em 4.º no campeonato, atrás do Paços de Ferreira, e foi substituído por Jesualdo Ferreira no final da época.


Mas os resultados também não foram os melhores – os bracarenses falharam pela primeira vez em dez anos a qualificação para as competições europeias – e surgiu no comando técnico Sérgio Conceição, depois de Jorge Paixão se ter revelado um autêntico flop durante alguns meses.

Curiosamente, com Conceição, a equipa voltou um pouco atrás no tempo, apostando essencialmente no ataque rápido e nas transições. Os velocistas Pardo, Rafa e Salvador Agra e um meio-campo mais combativo do que tecnicista relegaram Alan para personagem secundária, mas os arsenalistas voltaram a fazer uma boa época: ficaram em 4.º na Liga (apenas atrás dos três grandes) e chegaram à final da Taça de Portugal, perdida milagrosamente para o Sporting.

O tal 4x2x2x2 ou o falso 4x4x2
Sérgio Conceição também não resistiu à exigência do presidente António Salvador e eis que entra em ação Paulo Fonseca, depois de duas excelentes temporadas no Paços de Ferreira e de pelo meio se ter revelado uma desilusão no FC Porto.

Fonseca sim, deu continuidade ao upgrade estilístico do SC Braga, Olhou para os seus jogadores e encaixou-os num 4x4x2, o mesmo sistema que tinha experimentado com algum sucesso nos pacenses na temporada passada. Um 4x4x2, no entanto, que apenas o é no papel. Na verdade, atrevo-me a chamar-lhe de 4x2x2x2, pois na prática os alas – habitualmente Alan e Rafa – passam a maior parte do tempo em zonas interiores.

Essencialmente, o modelo de jogo de guerreiros do Minho caracteriza-se ofensivamente pela preocupação em controlar e dominar os encontros através da posse de bola, com os dois laterais projetados no ataque, os tais dois extremos a funcionarem precisamente como falsos-extremos e os dois avançados com muita liberdade de movimentos.

Tudo somado, o resultado é uma desordem… organizada. Organizada por Paulo Fonseca. Ao trabalhar os seus (falsos) flanqueadores para aparecerem na zona central e os avançados para surgirem um pouco por todo o lado no último terço, vai retirar referências de marcação aos defesas adversários.
Rafa a aparecer no meio e Goiano marcado pelo lateral

Os laterais contrários ficam baralhados ao terem de manter a posição mas ao mesmo tempo verem o suposto alvo de marcação em zonas que supostamente que não são as suas. Os centrais não se podem fixar num avançado pois quem pode cair no seu lado é o outro. Os próprios extremos adversários não sabem se devem acompanhar os alas bracarenses para o meio ou se devem vigiar os laterais.  


Alan arrasta o lateral com Wilson sozinho na direita
Ao causar tanta confusão no processo defensivo de quem está pela frente, há mais possibilidade de aparecer um atacante livre e com espaço. E aparecendo um atacante livre e com espaço, aumentam as possibilidades de se criar uma oportunidade de golo. E quem cria oportunidades, está mais perto de… marcar. Explicado de forma simples e sem recurso a palavrões futebolísticos, é isto que pretende Paulo Fonseca.

E apesar do upgrade na forma de atacar, há que realçar a consistência defensiva dos minhotos: têm a segunda melhor defesa do campeonato (oito golos sofridos em quinze jogos), apenas superada pela do Sporting (sete).








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