terça-feira, 30 de junho de 2020

O egoísmo ocidental para com os que são de um mundo que também é o nosso

Milhões de refugiados tentam chegar a um porto seguro na Europa
Que sorte a nossa que nascemos e crescemos em Portugal no pós-25 de abril. Vivemos num país livre, onde podemos falar, criticar, reunir e manifestar livremente; vivemos num país desenvolvido, com indústria, em que os avanços da tecnologia não demoram a chegar; vivemos num país em paz, com baixos níveis de criminalidade, onde não se sente o risco de um atentado terrorista; vivemos num país europeu, integrados no espaço Schengen e a poucas horas de voo de grandes cidades como Madrid, Londres, Paris ou Berlim; vivemos num país maravilhoso, com uma paisagem diversificada mas com a beleza como denominador comum e uma gastronomia que provavelmente é a melhor do mundo; e até vivemos num país que é o campeão europeu de futebol.


Mas nem todos têm esta sorte. Num mundo que também é o nosso, há censura, repressão, terrorismo, martírio, pobreza, fome, escravidão e medo em vários países. E nesse mundo que também é o nosso, pessoas de carne e osso, com família, ambições, sonhos e competências querem abandonar esses países.

Comparados com estas pessoas, os emigrantes que conhecemos saíram de Portugal ‘por dá cá aquela palha’. É como se uns lutassem para fugir à fome e outros para comer caviar. É como se uns procurassem um simples teto de uma barraca num país seguro e outros um condomínio de luxo. O exercício é simples: comparar as motivações – que são legítimas – dos nossos emigrantes e as dos migrantes que não se limitam a ser migrantes, também refugiados.

Sem espaço Schengen e com muito pouco a perder, os refugiados deixam essencialmente países do norte de África ou do médio oriente em embarcações lotadíssimas ou em caminhadas de centenas ou milhares de quilómetros em busca de um destino seguro, mas incerto. Não à procura do sonho, mas para fugir do pesadelo.

Porém, o egoísmo ocidental, alicerçado numa extrema direita sem escrúpulos, persiste em olhar para a chegada dos refugiados à Europa e não para o que os levou a deixar os países de origem como o grande problema. O egoísmo ocidental persiste em apelidar de ilegais os que chegam à Europa com milhões de argumentos, mas sem qualquer visto ou passaporte. O egoísmo ocidental prefere o populismo dos que acham que as migrações não são um problema nosso e que apenas nos temos de preocupar em erradicar a pobreza dos cidadãos nacionais.

E o direito à vida consagrado na Constituição da República Portuguesa e na Declaração Universal dos Direitos Humanos? Vamos simplesmente estas pessoas que são de um mundo que também é o nosso morrer à fome? Vamos devolvê-los aos países de onde fugiram com medo? Vamos negar a possibilidade de integrar na comunidade um grupo de refugiados só porque não resolvemos todos os problemas no nosso país?

É verdade que tem de existir cooperação internacional não para travar as migrações, mas essencialmente para travar o que as motiva, e para que haja uma distribuição justa dos migrantes pelos vários países, mas acima de tudo tem de existir tolerância e sensibilidade para com seres humanos deste mundo que é o nosso e que não saltaram de um país para o outro ‘por dá cá aquela palha’.

















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