segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Um Vitória a gerar preocupação

José Couceiro tem razões para levar as mãos à cabeça
Depois de duas temporadas a acompanhar os desempenhos do Vitória de bem perto, é de uma forma mais distanciada – mas longe de ser desligada ou desinteressada – que vou seguindo o início de época da equipa de Setúbal.

A construção do plantel pareceu-me equilibrada ao nível das diversas posições e bem planeada, com uma tentativa de manter grande parte dos jogadores do curso anterior, um núcleo duro ao qual foi acrescentado o valor de atletas oriundos dos grandes (emprestados ou não) e de talentos detetados nas divisões secundárias – desta vez, talvez a colheita no Campeonato de Portugal não tenha sido tão feliz, mas ainda é cedo para fazer balanços.


Os resultados das primeiras jornadas, acredito, não traduziram o que se passou em campo, também por culpa de algumas más decisões das equipas de arbitragens. A expulsão de Vasco Fernandes frente ao Moreirense e o penálti de Nuno Pinto sobre Bas Dost deixaram-me reticente, o golo anulado diante do Desp. Chaves pareceu-me rebuscado e a não marcação de uma grande penalidade no Restelo a não validação do golo em Paços de Ferreira, agora que há videoárbitro, tiveram contornos de escândalo. Tudo incidentes que, por não envolverem os três grandes do futebol português, não tiveram repercussão mediática.

Ainda assim, as exibições menos conseguidas diante de Boavista e Rio Ave, aliadas ao que já se tinha visto noutros encontros, tem deixado os vitorianos preocupados. E não é para menos. O plantel aparenta ter qualidade, o treinador é o mesmo, mas o futebol praticado deu uma volta de 180 graus.

A identidade vitoriana de que Couceiro tanto falou na época passada, do jogar bem e do proporcionar um bom espetáculo aos adeptos, terá ficado na gaveta em 2017/18. O que tenho visto é uma equipa com grandes dificuldades em fazer uma jogada com cabeça, tronco e membros, de trás para a frente, com a intervenção dos vários setores, por dentro e por fora. Dá a ideia de que, em certos jogos e em determinados momentos de outros, os sadinos simplesmente abdicam de jogar, algo que terá muito a ver com a nova composição do meio-campo.

Na temporada passada, o grande motor da equipa foi Costinha. Então adaptado a uma zona mais central, impressionou a forma como se deu bem com as posições de terceiro (inicialmente) e segundo médio (a partir de janeiro). Influente na construção, mostrando estar confortável de frente para o jogo, e fundamental no equilíbrio defensivo, exibindo grande disciplina tática e empenho máximo na disputa de cada duelo, apesar da baixa estatura (1,70 m). Embora tenha sido uma autêntica revelação no miolo, agora tem estado a ser desviado para os corredores laterais, onde não consegue ter o mesmo protagonismo.

O 4x3x3 tem dado lugar ao 4x4x2, e os dois médios mais centrais nas últimas partidas têm sido Nenê Bonilha e André Pedrosa. O brasileiro ainda tem acrescentado qualquer coisa, embora não dê a qualidade que Costinha dava à zona nevrálgica, mas creio que o jovem médio português ainda não está preparado para este nível competitivo. Que é talentoso, não tenho dúvidas, e sei que José Couceiro – “ponho as minhas mãos no fogo em como vai dar jogador”, ouvi da boca dele – e o presidente Fernando Oliveira muito menos as têm. Nutro especial simpatia por ele, por ser barreirense tal como eu, mas o que vejo é ainda um centrocampista soft nos duelos e pouco assertivo, algo que se nota sobretudo quando o cansaço começa a apertar. Por vezes, dá a ideia de que não sabe o que está a fazer em campo, e isso é preocupante. Podstawski também não me encheu o olho, mas então e José Semedo? Não estará no momento de ser lançado?

No entanto, nem tudo está mal na nau sadina. João Amaral ficou no plantel e continua a ser o elemento mais desequilibrador no ataque, por onde vai serpenteando na posição de segundo avançado. Bem de perto, vai apoiando Gonçalo Paciência, que roubou o lugar a Edinho – não dá para que os dois coexistam, mister? - e vai sendo a principal referência ofensiva e uma agradável surpresa, com a mobilidade e profundidade como características mais salientes.








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