terça-feira, 7 de agosto de 2018

Há 15 anos, Ronaldo convenceu Ferguson a assinar o "casamento perfeito"

Cristiano Ronaldo destemido frente ao Manchester United

6 de agosto de 2003 é uma data histórica para o Sporting e para Cristiano Ronaldo. Foi precisamente neste dia, há 15 anos, que o novo Estádio José Alvalade foi inaugurado e que o avançado português se catapultou para uma brilhante carreira no futebol internacional.

Com o Manchester United como adversário, o então jovem extremo de 18 anos abriu o livro e mostrou um vasto reportório de dribles para trocar as voltas à defesa dos red devils, com o lateral direito irlandês John O'Shea a ser o principal visado pelos truques de magia de CR... 28, que ainda não se tinha estreado pela seleção nacional. O prodígio madeirense até já estava no radar do emblema de Old Trafford, mas foi aquela noite de festa para o Sporting, que venceu o encontro por 3-1, que acelerou a ida para o Inglaterra.


"Cristiano Ronaldo apareceu muito forte nesse jogo. O Manchester United, atento, segurou-o logo, e com toda a razão. Foi um jogo histórico para mim, mas muito mais para ele. Foi decisivo para a carreira dele", começou por contar ao DN o antigo extremo leonino Luís Filipe, autor do primeiro golo da história do novo Estádio José Alvalade - João Pinto apontou os outros dois e Hugo na própria baliza marcou para os ingleses -, um momento que, garante, vai acompanhá-lo para o "resto da vida".

O antigo futebolista, agora com 39 anos e dedicado à produção de framboesas em Vilamoura, recorda como era o agora melhor jogador do mundo naquela altura. "Tinha a irreverência de um miúdo, com muita vontade. Ainda hoje mostra isso. Aquela exibição não me surpreendeu porque trabalhava com ele todos os dias, sabia do que ele era capaz", frisou.


"Não tinha o mesmo estilo de jogo que tem agora. Hoje é muito mais finalizador e joga perto da área, mas antes era forte no um contra um e na velocidade. Marcava a diferença por isso, hoje mais pelos golos que faz. Faz parte do crescimento. Foi para o melhor clube e para ser treinado pelo melhor treinador para limar alguns aspetos. Aliou-se a vontade dele em aprender, e o gosto de Alex Ferguson em ensinar. Foi o casamento perfeito", acrescentou Luís Filipe, que jogou de leão ao peito entre 2001 e 2003 e viu o madeirense ser testado, já nessa altura, aos terrenos que hoje pisa: "Era testado a ponta-de-lança desde os tempos do László Bölöni. Já revelava faro pelo golo e atacava bem a área. Cresceu, foi aperfeiçoando o que tinha de bom e agora faz assistências e golos de todas as formas."

O antigo extremo, que mais tarde foi convertido em lateral e passou pelo Benfica (2007 a 2011), diz que Cristiano Ronaldo "não fez mais do que sabia" naquele jogo, e que o motivo da inspirada exibição não foi o valor do adversário, até porque o Sporting estava habituado "a defrontar grandes equipas". "Era mais um jogo de pré-época, com algumas coisas a afinar, e o que de diferente havia era a inauguração do estádio", vincou, lembrando que a então coqueluche leonina não mostrava ansiedade para se transferir para um colosso do futebol europeu.

"O Cristiano era um miúdo introvertido, no meio de jogadores com alguma maturidade. Ficava mais no seu canto e com jogadores da sua idade. Não me parecia ter ansiedade para dar o salto. Foi uma surpresa ter sido logo, não pela qualidade dele, mas por ser tão cedo. Ficámos muito satisfeitos por ele, mas por outro lado foi mau para nós", recordou Luís Filipe, que acredita que o seu antigo companheiro valeria muito mais hoje do que os 17,35 milhões de euros que o Manchester United pagou: "O mercado está tão inflacionado e há tantos jogadores sem qualidade a ser vendidos por 20 milhões..."

Madeirense nem sequer era internacional AA aquando do jogo

Alex Ferguson explicou negócio na autobiografia

Na sua autobiografia publicada em 2013, o histórico treinador do Manchester United (1986 a 2013) explica que Cristiano Ronaldo já estava identificado um ano antes de rumar a Old Trafford. "A despeito de muita gente dizer que o poderia ter contratado (Real Madrid e Arsenal afirmaram-no), tínhamos um acordo com o Sporting. Fizemos intercâmbio de técnicos nas camadas jovens. Quando o Carlos Queiroz se juntou a nós, em 2002, disse-me: 'Temos de pôr o olho num jovem do Sporting.' 'Qual deles?', perguntei, porque havia dois ou três interessantes. 'Ronaldo', respondeu. Sabíamos tudo sobre ele. Nessa altura, Cristiano jogava como avançado centro", contou Alex Ferguson.

"O Carlos insistiu que devíamos apressar-nos porque se tratava de um miúdo especial, e então mandei o Jim Ryan observar os treinos do Sporting, dentro do nosso acordo recíproco. Quando o Jim voltou, exclamou: 'Uau! Vi um jogador. Acho que ele é um extremo, mas nas equipas jovens do Sporting joga a avançado centro. Não esperava muito mais tempo. Aos 17 anos surgirão ofertas.' Então avançámos com o nome do rapaz-maravilha numa conversa com o Sporting. Responderam-nos que pretendiam mantê-lo por mais dois anos. Sugeri um compromisso que o mantivesse no Sporting durante esse período antes de o levarmos para Inglaterra. Mas ainda não tínhamos falado com o empresário nem com o jogador. Era só conversa entre clubes", acrescentou.


Depois, veio o tal 6 de agosto de 2003. "Parte do nosso acordo acertara que jogaríamos com o Sporting no seu novo estádio. E fomos. John O'Shea era o defesa direito. O primeiro passe que Ronaldo recebeu fez-me gritar: 'Por amor de Deus, John, fica junto dele!' John encolheu os ombros. Um olhar magoado de desorientação espalhou-se pela sua cara. Os outros jogadores, no banco de suplentes, diziam: 'Cos diabos, chefe! Que jogador que ele é!' Respondi: 'Está tudo bem. Temo-lo controlado.' Como se o negócio já estivesse feito há dez anos. Disse ao nosso roupeiro, Albert: 'Vai ao camarote presidencial e diz ao Peter Kenyon [diretor desportivo] para vir cá abaixo ao intervalo.' E apertei com o Peter: 'Não vamos sair do estádio sem contratar o rapaz.' 'É assim tão bom?', perguntou ele. 'John O'Shea terminou o jogo com uma enxaqueca', respondi. 'Assina com ele'", narrou Fergie, hoje com 76 anos.
Cristiano Ronaldo em luta com Nicky Butt

"Kenyon falou com as pessoas do Sporting e pediu autorização para contratar Cristiano. Avisaram-nos de que o Real Madrid tinha oferecido oito milhões de libras por ele. 'Oferece-lhes nove', disse eu. Ronaldo estava numa pequena cabina, no interior do estádio, com o seu empresário, quando lhe dissemos como gostaríamos de o ter no Manchester United. Em frente ao Jorge Mendes, fiz-lhe notar: 'Não vais jogar todas as semanas, aviso-te já, mas tornar-te-ás um jogador de primeira equipa. Não tenhas dúvidas sobre isso. Tens 18 anos, precisarás de te adaptar. Vamos tomar conta de ti'", perseguiu Alex Ferguson, contando que "um avião particular foi alugado para o trazer [para Manchester], assim como a sua mãe, a sua irmã, Jorge Mendes e o seu advogado, no dia seguinte".

Dez dias depois, ocorreu a estreia de Cristiano Ronaldo. Em 2008, a conquista da Liga dos Campeões e a primeira consagração como melhor jogador do planeta. No verão de 2009, a transferência recorde para o Real Madrid por 94 milhões de euros. Pelo meio, três campeonatos, uma taça, duas Taças da Liga, uma Supertaça, um Mundial de Clubes e dezenas de prémios individuais.










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