sábado, 10 de novembro de 2012

Diário de um fã de wrestling: É hoje!


Hoje acordei, por volta de 9:00, o data sabia-a de cor: 10 de Novembro de 2012, o dia em que a espera de sete anos chegou ao fim. Muitos que lerão este texto perguntam, mas afinal, para quê tanta comoção com a ida a um espetáculo de wrestling? Decerto que terão razão, no Pavilhão Atlântico estarão milhares de pessoas e duvido que sejam muitas a fazer todo este espalhafato.


Continuando, lembro-me do meu percurso enquanto fã deste tipo de entretenimento ao longo dos anos. Recordo-me da sua existência desde muito novo, quando um primo meu via em canais por cabo, na altura, ao que apurei, era a WCW, e soube perfeitamente de quando em 2003 a SIC Radical começou a transmitir programas da WWE, só que foi apenas em 2005 que a paixão começou.
A meio desse ano, durante uma sessão de “zapping”, assisti durante vários minutos a uma “promo” entre vários lutadores, entre os quais Rey Mysterio, Eddie Guerrero, JBL e Booker T, que apresentavam argumentos que lhes poderiam dar uma oportunidade pelo título principal da Smackdown, pareceu-me algo interessante, mas não fazia a mínima ideia do que se tratava, e por uma qualquer razão, acabei por mudar de canal.

Em Outubro, sensivelmente, com o regresso às aulas, a moda na escola não era outra, todos os dias se falava de personagens como John Cena, Batista, Big Show, Triple H ou Undertaker, e eu, sem acompanhar as transmissões, lá ficava calado a ouvir os meus colegas falar sobre tal novo fenómeno, que por curiosidade, comecei a acompanhar com regularidade a partir dessa altura. Era engraçado, via aquilo como uma espécie de evolução de desenhos animados, uma espécie de versão mais adulta e realística de um Dragon Ball que me marcou a infância, em que haviam diversos indivíduos, praticamente todos diferentes entre si, que resolviam as suas intrigas dentro de um ringue. Dos campeões com bastante crédito nos meus colegas e público em geral que eram John Cena e Batista, do irritante Edge, do tirano patrão Vince McMahon, do maléfico Triple H, do escultural Chris Masters, do pequeno e mascarado Rey Mysterio, do “bad boy” Randy Orton, do “morto” Undertaker, do gigante Big Show, do olímpico Kurt Angle, até ao Boogeyman que comia minhocas, entre outros, começaram a ocupar um lugar no meu pensamento pelo seu carácter “larger than life”.
O vício foi crescendo, já não perdia um episódio, se não via a Raw à sexta à noite, via depois na segunda, Smackdown era mais difícil acompanhar porque ao domingo era dia de futebol, mas lá me ía desenrascando, e depois, fora isso, as conversas sobre wrestling mantinham-se a um bom ritmo, o meu mp3 estava invadido de músicas dos lutadores, e como adolescentes com pouca consciência, lá arranjámos um sítio onde imitávamos o que víamos na TV, organizávamos combates não planeados (recusávamos a ideia de que o wrestling era coreografado) e estas brincadeiras que felizmente nunca nos saíram caro (e daí, minhas ricas costas!) foram durando por uns anos.

Em 2006 foi o ano da confirmação, colecionava tudo o que via em jornais e tudo o que havia para consumir em termos de “merchandising” em Portugal, descobri uma promotora que passava alguns PPV’s na Eurosport, uma tal TNA com um ringue hexagonal, divertia-me a ver John Cena, meu favorito por esta altura, os DX, os PPV’s importantes, estava convertido um fã acérrimo, mesmo contra vontade dos meus pais, que receavam distúrbios de tanta ligação a algo violento, no entanto, a maior mágoa deste ano foi não ter ido assistir a um House Show que a WWE promoveu no nosso país, já em Dezembro, e mesmo só porque sim, deixei também fugir oportunidades em 2007 e 2008, era completamente um adolescente no armário.

Em 2007, esta paixão viciante continuou como era óbvio, mesmo contra a maré, numa altura em que começou a haver uma distinção entre os “fãs da moda”, que iam acompanhando porque na altura era algo bom de se ver, porque era tema de conversa, e os verdadeiros fãs de wrestling, que mesmo começando a ver influenciados pela moda, ganharam um amor àquilo que não parou.

Quem se aproveitou do “boom” deste espetáculo em Portugal foram diversos clubes de Luta Livre, que recrutaram muitos jovens para a prática de uma modalidade que tinha diversas semelhanças com o que se via de wrestling na TV, e eu não fui exceção, tendo praticado durante vários meses, chegando até a ser vice-campeão nacional.

A meio do ano, surgiu uma notícia inesperada, Chris Benoit, campeão dos EUA durante boa parte do meu percurso enquanto fã, suicidou-se após ter morto a mulher e o filho. História contorcida? Não, pura realidade, infelizmente. Já em 2005, nos primórdios da minha paixão, também Eddie Guerrero tinha falecido de forma súbita, e não tardei a descobrir que estas catástrofes não são assim tão raras como se pode imaginar, porque os esteróides e outras substâncias, para se manter um corpo grande e parecer uma estrela, era uma rotina da maioria dos lutadores, e que o excesso do seu consumo só poderia ter efeitos trágicos. Com o decorrer dos anos, personagens como Umaga e Lance Cade, que me entravam pelo ecrã a dentro, acabaram também por perder a vida.

Em Julho de 2007, apareceu a Internet em minha casa, e as palavras que mais procurei no google teriam de estar relacionadas com wrestling, era inevitável. Aí descobri imensos blogues e sites portugueses, nunca eu tinha pensado que haveria tanta gente a partilhar deste mesmo capricho. Nos primeiros meses, as dúvidas sobre o realismo do espetáculo tinham terminado, mas nem por isso deixei de gostar ou de acompanhar, mesmo em filmes e séries, há sempre personagens que nos marcam, e aqui não foi diferente, e por esta altura que descubro o significado de palavras como “face” (o bom da fita), “heel” (o vilão) e “feud” (rivalidade), entre outras.
Dado o meu gosto pela escrita, a resistência durou um mês, também tive que criar o meu blogue, chamado AWP, com um link que tinha pelo meio a palavra “vadalhoco”, palavra essa que nunca permitiu uma grande credibilização de tal espaço cibernético, ainda que tenha conseguido, durante três anos, mantê-lo com uma média de visitas e com conteúdos com uma qualidade mínima invejável, entre o Top 5/10 da blogosfera nacional. Passei também por entre outros blogues, e à exceção do Duplo Impacto/Impacto Global, passei pelos principais portugueses, e aqueles pelos quais não passei, não foi por falta de convite, não é para me gabar, mas felizmente as pessoas gostavam do meu trabalho, da minha escrita, de saber a minha opinião, de me preocupar com um wrestling nacional e de apresentar conteúdos diversificados, alguns dos quais podem aceder na barra lateral esquerda deste meu blogue pessoal.
Só em 2010 deixei o AWP, que entretanto se uniu com outros e agora faz parte do Universo Wrestling, e segui um percurso mais tranquilo no Wrestling Notícias, que apesar de eu ser suspeito para falar, é a meu ver, e de muitos leitores, o blogue que de há uns anos para cá tem mais e melhores conteúdos, ao qual continuo a pertencer, embora vida académica me obrigue a fazer alguns hiatos de vários meses.
Quanto a “nicks”, comecei como AWP, mudei-me para Jericho, dado ser um grande fã de “Y2J”, e posteriormente, para dar um ar mais profissional, foi alterando o meu nome nestas lides para David “Jericho” Pereira e posteriormente para David Pereira, ou David J. Pereira, apenas.

Pela blogosfera fui conhecendo pessoas que se haveriam de cruzar comigo na minha vida pessoal, no futuro, entre às quais algumas figuras do wrestling nacional, algo que sempre apoiei e continuo a apoiar, não que esteja num nível assim tão elevado, mas porque pode-se tornar algo muito consistente com o decorrer dos tempos, embora assista frequentemente uma série de retrocessos.
No final de 2009, desloquei-me a Queluz para ver o meu primeiro “show” de wrestling, promovido pelo WP, fui continuando a espalhar a palavra do que se faz por cá em Portugal, vou assistindo a mais “shows” durante o ano seguinte, cheguei inclusivamente a fazer dois treinos com lutadores da APW e tenho privilégio de ter participado num programa de rádio sobre a modalidade na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa, o Pontapé no Céu da Boca, apresentado por David Francisco, das pessoas com quem tenho melhores relações dentro do “business”, e que por mérito próprio, com 20 anos apenas, é comentador na Eurosport, já está licenciado, é Campeão da APW, revela uma maturidade invulgar para a sua idade e tem certamente um futuro risonho pela frente em diversas áreas, um bom rapaz sem dúvida alguma.

No início de 2011, em Fevereiro, cai a bomba no meu telemóvel! A APW ía realizar um evento na Baixa da Banheira, perto da minha zona, já me preparava para estar lá como espetador, mas o David pediu-me para os desenrascar como “ring anouncer”, algo que aceitei de pronto.
Anos a olhar para Lilian Garcia, Justin Roberts, Tony Chimel ou o próprio Axel no plano nacional, e agora, era eu, que sempre quis ter um papel na modalidade que não fosse o de lutador, a estar a anunciar os intervenientes.
Acabei por ser o mestre-de-cerimónias durante mais espetáculos, entre os quais dois na Baixa da Banheira, um em Ribeira de Pena e outro em Coimbra, com direito a estadia e tudo, onde partilhei o mesmo espaço que vários lutadores de gabarito europeu e até mundial, como Joe E. Legend, que já formou uma “stable” com duas estrelas que admiro muito, Edge e Christian, e treinou uma das minhas tag teams favoritas, os Motor City Machine Guns (Alex Shelley e Chris Sabin).
Confesso, no exercício dessa função, não me acho nada de especial… mas tive sorte, tal como em outras circunstâncias da vida tive azar. Que posso eu fazer?

Todo este percurso, cheio de aventuras, oportunidades únicas, possibilidade de conhecer pessoas fantásticas, o “business” por dentro, participar em espetáculos, tem hoje aquele que, até há data, é o seu momento alto, ver um espetáculo da WWE pela primeira vez, ainda que um House Show da Smackdown, com a inclusão de um Meet and Greet em que posso conhecer, conversar e tirar fotos com as estrelas.

Muitos me perguntam o que vejo de especial no pro wrestling… É difícil explicar uma paixão, mas certamente que a sua componente “larger than life”, a história que os lutadores contam em ringue (não, não é só despejar golpes!), a sua componente circense da espetacularidade dos golpes, o drama, a interatividade com o público que um filme ou muitos teatros não proporcionam, a forma como se constroem histórias e rivalidades para culminarem de forma emocional e física num ringue são fatores importantíssimos.


Daniel Bryan é atualmente o wrestler que mais me entretém

O favorito nos meus primórdios como fã, John Cena, pela forma como transmite valores

Passei do ódio à admiração por Edge, bastante entretido pela sua  irreverência

Para mim o "total package", Chris Jericho é o meu favorito de todos os tempos

Wrestling é contar uma história com o corpo, e a meu ver não há melhores expressões faciais que as de Randy Orton
Kurt Angle e Chris Benoit, encontrar um combate mau dos dois é um achado!
Uma das minhas tag team preferidas, que combinam a arte do colectivo com um intenso "high-flying"

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