terça-feira, 30 de abril de 2024

O “portista” das camadas jovens do Benfica. Quem se lembra de Cândido Costa no FC Porto?

Cândido Costa somou 57 jogos e três golos pelo FC Porto
Portista desde que se lembra, Cândido Costa nasceu em São João da Madeira e começou a jogar futebol no maior clube do seu concelho, a Sanjoanense, mas os bons desempenhos e a preferência clubística sempre o levaram a ter aspirações legítimas de representar o FC Porto.
 
“Houve ali um ano em que se falava que o FC Porto andava a ver a Sanjoanense, andava a ver a equipa. Eu andava com um peito…”, recordou à Tribuna Expresso em março de 2018. No entanto, quem saiu da Sanjoanense com destino às Antas foi um colega de Cândido, Gustavo, o que lhe provocou uma sensação de injustiça.
 
Cândido insistiu, pediu ao pai para o levar a treinar no FC Porto, mas não o deixaram mostrar-se. “Cheguei, com as chuteiras na mão, sem ter avisado ninguém. Fui ao departamento do futebol juvenil: ‘Boa tarde, vim cá treinar’. ‘Mas você falou com alguém?’. ‘Não, mas estão interessados em mim aí dentro, mandaram-me vir cá, não me lembro do nome do treinador, acho que é Bandeirinha, mas não tenho a certeza’. E o porteiro ‘Ok, tudo bem’, deixou-me passar. Quando cheguei ao roupeiro, pedi um cesto e ele: ‘Mas quem és tu?’. ‘Eu vim cá treinar para ver se eles me querem’. ‘Epá, isto não é assim. Dá meia volta e andamento. Pensas que isto é o da Joana?’. E pôs-me lá fora. Aquilo foi um momento... ui. Então eu ando à porrada na escola por causa do FC Porto, é FC Porto isto, FC Porto aquilo, chego aqui e sou espezinhado, nem sequer me deixam treinar? Cheguei ao carro e comecei a chorar”, contou.
 
O desgosto foi grande, mas o jovem Cândido não se deixou ir abaixo, tendo assumido para si próprio o objetivo de chegar a um grande. Ainda como jogador da Sanjoanense, foi chamado pela primeira vez a uma seleção nacional, a de sub-16, o que aguçou o interesse dos principais emblemas nacionais. “O Benfica, na altura, foi quem tomou as rédeas, porque passados dois dias estavam aqui, em São João da Madeira. Vieram à sede da Sanjoanense reunir com o presidente, ligavam para o meu pai quase todos os dias”, lembrou o antigo lateral/extremo, que não sentiu grande vontade do FC Porto em recruta-lo, apesar de algumas abordagens.

 
Seguiram, por isso, três anos nas camadas jovens do Benfica, mas nem aí escondeu qual era o clube do coração: “Sabiam, toda a gente sabia. Havia até pessoas que me chamavam: ‘Ó portista’”. No entanto, nem a paixão clubística o impediu de festejar efusivamente um título nacional de juniores ganho… diante do FC Porto: “Fiz uma época incrível e o título foi discutido no Estádio das Antas, no campo número dois. Eu tive uma ação nesse jogo preponderante, além de ter feito o golo, a forma como o festejei, levava a crer que das duas uma: ou este gajo é um portista ou está cheio de raiva. Foi isso que suscitei nas pessoas do FC Porto: ‘Quem é este gajo que faz um golo e parece que ganhou a Champions?’. No fundo, eu estava a desafiá-los. ‘Porque é que vocês nunca olharam para mim? Como é que é possível vocês nunca terem olhado para mim?’ Mas isto não era uma traição ao Benfica. Aliás, costumo dizer que foi pelo que fiz no Benfica que tive oportunidade de jogar no meu clube de sonho. Entreguei-me ao Benfica nos três anos que lá estive.”
 
Entretanto, surge a hipótese de se mudar para a equipa principal do Salgueiros quando ainda lhe faltava cumprir um ano de júnior, através de Jorge Mendes, que lhe acenou com uma posterior transferência para o FC Porto. “’Há a possibilidade de ires para onde sempre quiseste ir’. Passados dois ou três dias, ligou-me o presidente do FC Porto. ‘Se o FC Porto quisesse que viesses, tu vinhas?’. ‘Amanhã já presidente, é o meu maior sonho’. ‘Então continua a trabalhar’. Só assim. Fiquei com as pernas a tremer. E no dia seguinte fui para o Salgueiros. No próprio Salgueiros dão-me indicações de que eu ia para o FC Porto”, recordou.

 
Em janeiro de 2000, meio ano após ter assinado pelo emblema de Paranhos, mudou-se mesmo para o FC Porto, tendo começado pela equipa B. “Estava nas nuvens, estava muito feliz. Para mim foi o concretizar de um sonho. Foi mesmo. Vestir a camisa do FC Porto, ver aquele símbolo... para mim foi muito especial. Mesmo sendo na equipa B. O cruzar-me nos corredores com pessoas que eu idolatrava. A primeira vez que me cruzei com o Paulinho Santos...só vinha à memória aquilo que falei no início, aqueles relatos do Gabriel Alves (imitando a voz): "Paulinho Santos, na raça, corta aqui"... A primeira vez que me cruzei com ele num túnel parecia que estava a ver um Deus. Tudo isso só senti no FC Porto. O presidente... Quando entrei na sala para assinar o contrato, a minha mão a tremer, nem conseguia olhar para a cara dele. Ele notou e disse: ‘Calma, rapaz’”, lembrou.
 
A passagem para a equipa principal só aconteceu na pré-época da temporada seguinte, no verão de 2000. “Logo no final da época avisaram-me que ia fazer a pré-época com a equipa A, em França. Atenção: não me disseram ‘vais para a equipa A’. Disseram-me: ‘Vais fazer a pré-época com a equipa sénior’. Fui de férias e apresentei-me para fazer a tal pré-época. Quando cheguei, comecei a ver o desfile de estrelas, nos seus magníficos carros. Só pensava: ‘Meu Deus, eu vou fazer a pré-época com estas figuras, com estes jogadores’. Muito envergonhado, cumprimentava-os e eles sem me passar cartão, o que era normal, era mais um miúdo que vinha para ali. E confesso que a probabilidade de eu ficar era remota porque jogava na posição do Capucho, tinha jogadores a chegar. Era eu e mais dois miúdos, que não me recordo agora o nome, à experiência. Mas fiz uma pré-época tão boa que o Fernando Santos era obrigado a ficar comigo”, contou Cândido Costa, puxando a cassete atrás.

 
“Percebia que ali tinha de estar sempre 100% focado para poder dar nas vistas. Quando uma pessoa vai fazer uma pré-época, miúdo, não basta correr bem, tens que pôr as pessoas a olhar para ti, a falar de ti. Depois havia uma coisa, essa admiração que eu tinha por esses jogadores, esse deslumbramento, entrando para o campo... Eu dava porradinha neles se fosse preciso, eu era muito aferroado. Parecia que tinha choque no corpo. Caía com eles e quando diziam ‘ó miúdo, tem cuidado aí com o pé’ eu respondia logo ‘cuidado com o pé? Estou a treinar’. Era muito bravo. Depois, no final já voltava a admiração toda, a subserviência. Já era: ‘Ó miúdo traz aí o gelo’, ‘Ó miúdo chega-me isto’, ‘Ó miúdo não te esqueças das minhas botas’. E eu ia buscar, era muito humilde, muito submisso. Lembro-me que, um dia, o Vítor Baía deu-me as chaves do carro: ‘Ó miúdo, vai-me ali à bomba num instante lavar o carrito que está cheio de pó. Não te importas?’. Aí fui eu com o Porsche à bomba de gasolina, buuuu, buuu.... Cheguei ‘Sr. Vitor, está aí. Fiz a lavagem que pediu’. Mas, lá dentro do campo, não me deixava calcar, não facilitava. Depois comecei a perceber, durante a pré-época, que o Fernando Santos estava a gostar muito do que estava a ver. Já me dava mais minutos que aos outros. Começou a falar comigo: ‘Ó miúdo, olha que eu vou ficar contigo’”, recordou, sobre episódios que vivenciou ainda com 19 anos.
 
Sempre com muito respeito pelos mais velhos, passava viagens de autocarro com as pernas de Jorge Costa em cima das suas. Desportivamente, foi ganhando o seu espaço, tendo atuado em 31 jogos (16 a titular) e marcado dois golos na temporada 2000-01, marcada pela conquista da Taça de Portugal. “Ganhei o prémio revelação atribuído pelo jornal A Bola. Fui muito falado, o Capucho deixou de jogar muitas vezes por minha causa. Foi uma época em cheio. O que gerou uma expetativa muito grande em relação a mim, já se falava muita coisa, ‘O miúdo de 18 anos já é titular e encostou o Capucho’. Era projetada uma época a seguir ainda melhor”, lembrou.

 
Porém, as coisas mudaram com a chegada de Octávio Machado ao comando técnico. “Deixei de jogar tanto. Não era das primeiras opções do Octávio. Mas depois vem o Mourinho, em dezembro, porque os seis meses do Octávio não foram felizes. A liderança do Octávio é claramente diferente da do Mourinho. E houve uma libertação enorme em nós. É quase como passar de uma liderança ditatorial para uma democrática, com tudo o que isso tem de bom. Essa libertação foi muito importante para o que veio a acontecer ao FC Porto depois. Aqueles títulos. Na época a seguir ganhamos a Taça UEFA, o campeonato, a Taça de Portugal”, explicou Cândido Costa, que em 2001-02 foi utilizado em 21 encontros (nove a titular) e marcou um golo.
 
Apesar da nova vida ganha com Mourinho e de uma boa pré-época, acusou a pressão a poucos dias do arranque da temporada 2002-03: “Faço a pré-época toda como titular. Toda. O meio campo era o Costinha, Deco e eu. Não jogava o Maniche nem o Alenichev. Na semana que antecede o primeiro jogo da época seguinte, creio que era com o Belenenses, tudo indicava que eu ia jogar a titular e comecei a fazer uma semana horrível de treinos. Na pré-época encontrei equipas fortíssimas como o PSG e saí-me muitíssimo bem, nessa semana... acusei a pressão. Lembro-me que ele me chamou à parte e perguntou: ‘Miúdo, estás bem? Não acertas uma. Está tudo a sair-te mal’. E eu a dar tangas: ‘Ó mister, más decisões acontecem’. E ele: ‘Não, não estás bem, eu conheço-te, a tua linguagem corporal, não estás bem, não estás harmonioso, parece que estás pressionado’. Eu sempre a fugir: ‘Não, dormi mal’. E às tantas ele diz-me: ‘Vou sacar-te, vou meter o Maniche no jogo. Tenho de pôr. Tu punhas, tu próprio punhas o Maniche a jogar’. E assim foi. O Maniche pega e engata. Faz dois golos nesse jogo e pronto começou a jogar o Maniche. Eu entrava, participei em jogos da Taça UEFA, mas...”

 
“Eu não deixava de ter 19/20 anos e estar a jogar no clube dos meus sonhos, com um projeto que era de ser campeão nacional, a titular, com jogadores internacionais russos no banco. Eu acusei a pressão. Comecei a ver o facto muito perto e comecei a sentir a pressão, a ansiedade, as coisas a não saírem bem, falhava um passe e já mexia comigo. Eu era titular, mas sabia que estava na corda bamba. Eu era titular porque estava a trabalhar muito bem e eu não podia falhar e, falhei. (…) Depois de o Maniche começar a jogar, eu voltei a ser o mesmo Cândido. Por isso é que ele gostava tanto de mim e diz, nesse período, que eu era para o FC Porto o que o Luis Enrique era no Barcelona, por causa da intensidade, da raça. Dizia: “Enquanto eu cá estiver o Cândido fica no FC Porto”. Porque depois eu descomprimi, soltei. Depois do primeiro jogo em que joga o Maniche e ganhámos, foi um alívio. Comecei tanto a lutar por ela que a dada altura achava que já a merecia outra vez. E é por isso que peço para sair em dezembro”, prosseguiu o então extremo, que foi emprestado ao Vitória de Setúbal em janeiro de 2003, depois de apenas cinco jogos pelos portistas na primeira metade da temporada, e não voltou a jogar de dragão ao peito. 




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