sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Hoje faz anos o zairense do Belenenses que obrigou a um alargamento do campeonato. Quem se lembra de Mapuata?

Mapuata representou o Belenenses entre 1986 e 1988
Marcou 22 golos em dois anos no Belenenses, um dos quais numa vitória sobre o Barcelona na Taça UEFA, e festejou sempre com um salto mortal. É normalmente lembrado por essa façanha, mas também por ter sido o protagonista de um caso que motivou o alargamento da I Divisão de 16 para 20 equipas.
 
Nascido a 27 de fevereiro de 1965 no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo, Mapuata despontou no CS Imana do seu país, mas estava nos belgas do Standard Liège quando surgiu o convite do Belenenses, no verão de 1986.
 
“Foi o senhor Henri Depireux a levar-me para Lisboa. Ele tinha sido colega de equipa do presidente do meu clube no Zaire e quando me viu nem queria acreditar: ‘Em África ninguém vai conhecê-lo. O Mapuata vem comigo para Portugal’”, recordou ao Maisfutebol em novembro de 2013.
 
 
Na altura, os azuis do Restelo viviam a melhor fase no pós-Matateu, batiam-se com os grandes e somavam algumas participações nas provas da UEFA. “No campeonato fomos sextos em 86-87 e terceiros no ano seguinte”, lembrou o avançado, que apontou 15 golos em 26 jogos na primeira época e faturou por sete vezes em 27 encontros na segunda.
 
 
Curiosamente, foi na temporada menos produtiva que viveu o seu maior momento de glória. Depois de uma derrota por 0-2 em Camp Nou, deixou uma promessa ao guarda-redes do Barcelona: “Acabei esse jogo a chorar. O Zubizarreta veio ter comigo, abraçou-me e eu disse-lhe: ‘no Restelo vou ter de te marcar um golo’.”
 
Promessa cumprida, tendo o zairense apontado o golo da vitória do Belenenses, por 1-0, sobre os catalães, ainda assim insuficiente para garantir a passagem à segunda eliminatória da Taça UEFA. “O Mladenov ganhou uma bola na esquerda, entrou na área e fez-me um passe perfeito. Eu corri uns bons 30 metros e só tive de encostar. No final o Zubizarreta quis trocar de camisola comigo e disse-me a rir que um golo não fazia mal nenhum”, contou, puxando a cassete atrás.
 
 
A dada altura, o Benfica interessou-se pelos seus serviços, mas a saída de Depireux e a chegada de Marinho Peres ao comando técnico travou-lhe a evolução. “O meu amigo Depireux foi embora por uma estupidez e o Marinho Peres mudou muita coisa. Trouxe vários jogadores [Baidek, Zé Mário, Chiquinho Conde] e eu passei a jogar menos vezes”, lamentou o antigo avançado.
 
 
Entretanto, já havia rebentado o Caso Mapuata. A 9 de novembro de 1986, o atacante africano apontou o golo solitário de um triunfo do Belenenses sobre o Marítimo. Após o jogo, os insulares apresentaram um protesto, alegando inscrição irregular de Mapuata na Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Em causa estaria um aval verbal de César Grácio, secretário-geral da FPF à data, em relação à apresentação do certificado internacional do atleta, após a inscrição de Mapuata ter sido suspensa três dias antes do encontro. Grácio defendera-se com a autorização de Silva Resende, presidente da FPF, que negou tudo. Na sequência do caso, o secretário-geral apresentou a demissão.
 
 
Inicialmente o Conselho de Disciplina da FPF não deu provimento à queixa, pelo que os madeirenses recorreram para o Conselho de Justiça, que lhes deu razão. Em função disso, foi aplicada uma derrota por 0-3 ao Belenenses. O Marítimo, por sua vez, passou a ter 25 pontos, o que lhes permitiu garantir a permanência. Assim, descia o Salgueiros, que se sentiu lesado e levou a discussão à Associação Nacional de Clubes, organismo que rapidamente impôs um alargamento do campeonato à FPF para que a decisão não prejudicasse terceiros.
 
Após vários avanços e recuos entre junho e agosto de 1987, lá se decidiu a permanência de Salgueiros, Farense e O Elvas, que tinham terminado em zona de despromoção, e do Rio Ave, que havia acabado o campeonato em zona de liguilha. E para que a I Divisão não tivesse um número ímpar de participantes, uma vez que Sp. Covilhã, Vitória de Setúbal e Sp. Espinho haviam garantido a promoção, também o Penafiel foi repescado, por ter sido o segundo classificado da liguilha. E assim o primeiro escalão passou de 16 para 20 equipas.
 
 
Já Mapuata mudou-se no verão de 1988 para o futebol suíço, onde representou Bellinzona e uma pancada na cabeça lhe precipitou o final da carreira.
 
Após pendurar as botas radicou-se em França, onde se tornou diretor comercial de uma empresa de telecomunicações na cidade de Lyon.
 







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