3 de junho de 2026. O dia e
sobretudo a noite em que Portugal celebrou o wrestling enquanto parte
integrante da cultura pop. Camisolas alusivas ao deporto de entretenimento que
tanto amamos – diria que as de John
Cena e CM
Punk estavam em maioria – coloriram o Centro Comercial Vasco da Gama à tarde
e a MEO Arena à noite. Cantaram-se as theme songs dos lutadores,
apoiaram-se os babyfaces, vaiaram-se os heels e aplaudiram-se os
golpes espetaculares.
Quantos de nós somos, nos nossos
grupos de amigos, na nossa família ou no trabalho, somos dos poucos ou até mesmo os únicos a gostar de wrestling? Quantos de nós sentimos a nossa paixão
tantas vezes incompreendida? Ali, no Parque das Nações, na quarta-feira,
sentimo-nos em casa. Como disse Lilian Garcia no início do espetáculo: “Lisbon
is the place to be tonight!” A festa começou a fazer-se ao
início da tarde. Quando cheguei, reparei que a entrada do Hotel Tivoli estava
repleta de fãs ansiosos pela possibilidade de tirar uma fotografia ou tocar em
estrelas que tanto admiramos, mas que, no que toca aos fãs portugueses, nos
últimos nove anos andavam somente remetidas aos nossos ecrãs. Ainda me cheguei
a juntar por uns breves minutos, mas fui alertado que Trick Williams estava à
entrada do Vasco da Gama para esse efeito e dirigi-me rapidamente para lá.
Eu, o meu filho e Trick Williams
Que momento! Ainda na sexta-feira
à noite o estava a ver no SmackDown
através da Netflix e, juntamente com o meu filho, a entoar o cântico “Whoop
that Trick”. Cinco dias depois, não só estávamos os dois a tirar
fotografias com ele como o Trick perguntou o nome à minha criança e nos disse “Nice
to meet you”. Suspeito que, daqui a uns anos, se o atual campeão dos
Estados Unidos confirmar que toda esta aura não é coisa passageira e se tornar
numa estrela de topo da WWE, este momento ainda se tornará mais valioso nas
nossas memórias.
As horas que antecederam o
espetáculo foram também horas de rever pessoas que o wrestling me colocou no
caminho e que já não via há algum tempo, desde um primo que viajou desde Sines
à “Nossa
Lenda Viva”, Tony de Portugal. Aquele ambiente pré-show nas
imediações da MEO Arena foi de confraternização, convívio e diversão, sem
confusões. Sou suspeito para o dizer, posso
ser acusado de puxar a brasa à minha sardinha, mas as pessoas que gostam de
wrestling não são, de uma forma geral, pessoas com comportamentos mais
agressivos ou violentos. Embora o wrestling seja um conteúdo violento,
acreditem no que vos digo: ir hoje em dia ao futebol é vivenciar um ambiente
bem mais agressivo e tenso no que num show de wrestling. Quanto aos combates, quem já
experienciou estes house shows da WWE sabe que não vai ver propriamente
clássicos. Vai sim assistir a um produto mais virado para a plateia, sem
câmaras nem as consequentes amarras da televisão, e com um pouco mais…
circense, com mais palhaçada. Por falar em palhaçada, um dos
momentos mais altos do show foi a promo de The
Miz. Tentou falar português e fez-se perceber bem. Conseguiu contrariar a
vontade de um público que parecia estar na disposição de o aplaudir apesar de
ser heel, como que reconhecendo a longa carreira, o currículo e os
grandes momentos protagonizados por ele. Disse que odiava Portugal, mandou-nos
calar a boca e chamou-nos estúpidos. Tudo para ser amaldiçoado e derrotado por
um Danhausen que já se vai tornando bastante popular também em Portugal –
confesso que não sou muito fã da personagem nem dos conteúdos que produz, por
uma mera questão de gosto, mas… ainda bem que não gostamos todos do mesmo.
Por falar em não gostar, o que me
fez sentir um sabor algo agridoce foi a composição do card. Porquê?
Porque antes tinha ido espreitar o da noite anterior, na cidade francesa de
Estrasburgo, e constatei que houve um copy/paste integral. Dois dias antes do show, no
Monday
Night Raw, assistimos a dois fatal four way matches a contar
para os torneios King
e Queen Of The Ring. E se, em vez dos oito que vão haver (quatro em cada
torneio) para apurar os semifinalistas, a WWE tivesse distribuído singles
matches dos oitavos e/ou quartos de final por house shows? Acrescentaria
valor e imprevisibilidade – em vez de vitórias óbvias de babyfaces – de
estar a ver algo que impacta o desenrolar da trama. Recordo que, ao longo dos
anos, já houve alguns casos de títulos secundários que mudaram de mãos e
combates de qualificação para o Royal
Rumble em house shows.
Seja como for, três combates
destacaram-se em termos de qualidade: Seth
Rollins vs. Bron
Breakker; Trick Williams vs. Sami
Zayn vs. Carmelo Hayes; e Cody
Rhodes vs. Gunther.
Diria até que por esta ordem (sentido decrescente). Por outro lado, Damien Priest vs. Solo Sikoa foi
o que teve o público mais desinteressado, ao ponto de vários fãs terem
aproveitado para ir ao bar ou à zona de venda de merchandising. Se já se esperava que Rollins
e Cody
estivessem mega estabelecidos, surpreendeu-me a popularidade de LA Knight e
sobretudo de Carmelo Hayes, que não está assim há tanto tempo no main roster.
Prova de que o público português é leal e já o segue desde o NXT.
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