quarta-feira, 24 de junho de 2026

Marcos Vitória: “Dois títulos? Foi o culminar do que o Korvo tinha planeado há três anos” (parte 1)

Marcos Vitória com os dois cinturões (Foto: camarneiroedits)
Chocou tudo e todos ao juntar o Título Nacional ao Título de Honra do Wrestling Portugal na Batalha Final 7, concretizando um objetivo que vinha a perseguir há quase onze anos, quando se estreou num show do WP Academia com apenas oito treinos realizados.
 
Na primeira parte desta entrevista, Marcos Vitória detalha como e quando surgiu esse plano, explica o falso face turn durante a última season do WP, passa a carreira em revista, conta como a sua personagem foi evoluindo e recorda quando obrigou os pais a ir a dois cabeleireiros no mesmo dia para ficar com um corte de cabelo igual ao do ídolo no wrestling.
 
David Pereira - Sagraste-te campeão nacional do Wrestling Portugal (WP) na Batalha Final 7, a 14 de junho, ao fim de mais de dez anos no WP. O que sentiste quando soubeste e quando se concretizou? Convidaste alguém que não costuma ir ao Shotokai?
Marcos Vitória - Como mencionaste, foram 10 anos até a conquista do Título Nacional do Wrestling Portugal e começou muito num ponto de gestão de expectativas e também na minha evolução no Wrestling ao longo destes anos. Porque, honestamente, passados 10 anos, a experiência é totalmente diferente de quando eu estava a começar. Por exemplo, recordo-me perfeitamente quando eu ganhei a Batalha dos 1000.  A emoção que eu senti nessa altura é totalmente diferente da de agora. A Batalha dos 1000, quando ganhei, tinha 19 anos. Agora com 27, a gestão de emoções também é totalmente diferente.
Mas foi o culminar de tudo o que tinha sido planeado, ou seja, do culminar de uma visão, a visão esta do Korvo. O Korvo falou comigo há três anos da visão que tinha e onde é que nós poderíamos chegar em conjunto. E a realidade é que, no final, destes três anos, foi mais um sentimento de objetivo cumprido.
A minha preocupação foi mais entregar a melhor performance, entregar o melhor resultado para o público e de que forma é que íamos conseguir transmitir isso para um melhor espetáculo. Não foi tanto sobre mim, foi mais como é que vai ser para os fãs. A gestão de expectativas vai evoluindo ao longo de 10 anos, o meu mindset no wrestling também.
 
 
Ou seja, não desabaste em lágrimas como quando venceste a Batalha dos 1000 em novembro de 2017.
Não, não, foi totalmente diferente, ou seja, acaba por ser uma experiência diferente. É uma evolução que nós todos temos no wrestling, acredito. Ao início é muito para nós e, com o passar do tempo, o wrestling deixa de ser para nós e passa a ser mais para quem está na audiência. O que é que eles têm que sentir? Obviamente o resultado não é o esperado, porque é um heel a ganhar, mas é de que forma isso pode ser memorável e de que forma queremos que as pessoas saiam do Shotokai, no caso. E a reação que nós tivemos foi incrível. Tivemos pessoas presas à cadeira. Não conseguiam nem dizer uma palavra e para nós é missão cumprida. Para mim, essa parte foi muito importante, mais do que propriamente agora ser duplo campeão. Não é tanto sobre mim, é sobre a história que foi contada.
 

“Quando comecei a tirar queria tirar fotos com o Título do WP e tê-lo agora é muito especial”

Mas em entrevistas anteriores chegaste a assumir publicamente que ganhar o Título Nacional do WP era um objetivo. A partir de algum momento te desinteressaste?
Não, desinteressar nunca desinteressa, sempre foi o objetivo principal no wrestling em si. Só que depois passou a ser essa gestão de “Ok, o que faz sentido para a história? Eu quero muito ser campeão, mas será que faz sentido?” E houve muitas fases neste meu percurso que eu fiquei “Ok, já não vou ser”. Estava OK com isso. Estou a contribuir para o espetáculo? Ótimo. Isso é o mais importante. Agora, o objetivo sempre foi o título do Wrestling Portugal.  Na altura não havia o Título de Honra, então quando eu conquistei o Título de Honra já fiquei com esse gostinho, digamos. Para mim o ser campeão já dizia muito porque era mais a confiança do balneário, ou seja, de quem está a tomar as decisões. Quando comecei a treinar queria era tirar fotos com o título do Wrestling Portugal e tê-lo agora é muito especial.
 
Começaste a season como heel, fizeste o que acabou por ser um falso face turn quando te distanciaste do Korvo e agora voltaste a aliar-te a ele. Tinhas conhecimento de antemão que esse período como babyface seria transitório?
Era exatamente a visão e o plano do Korvo quando nós falámos há três anos. Mas claro que há adaptações pelo caminho, acho que o face turn não estava previsto e o mérito é todo do Salvador enquanto booker. Honestamente, quando me falou da ideia de ser babyface eu disse logo que seria uma ideia péssima, porque ninguém quer apoiar o Marcos Vitória e seria horrível. Mas cumpri o papel para dar o choque final que era o objetivo principal. Eu começar com o Título de Honra e acabar com os dois títulos é uma visão do Bruno “Korvo” Almeida há três anos, num dia em que fomos ver o Benfica e ele já tinha tudo definido e perguntou-me: “tu queres ou não queres?”. Perguntei-lhe se tinha a certeza e ele disse-me que era a visão que tinha e que só ia trabalhar se fosse para fazer isso. Acabei por dizer que sim e a visão concretizou-se na Batalha Final 7. As minhas interações com o Korvo foi só “uau, isto aconteceu mesmo tudo em três anos”.
 
 
Conquistado o Título do WP… e agora? O que podemos esperar de ti e dos títulos? Estás preparado para dois combates por show?
Agora é o ponto de que é o “make it or break it”, que é realmente se foi a decisão correta ou não. Agora já não há mais planos definidos, o que vai ser para acontecer é tudo novo, nem eu faço ideia de qual é a ideia, se é uma realidade eu lutar duas vezes no show, e então vou preparar-me nestes três meses pausa. Mas, no final do dia, é uma responsabilidade alargada, porque a responsabilidade dos dois títulos é a responsabilidade de entregar em dois dos combates principais ou dois dos combates mais importantes nos shows do WP.
 
Onde guardaste os cinturões?
Tenho sempre uma bolsa na qual eu transportava o Título de Honra e adicionei lá o Título nacional do Wrestling Portugal. Consigo vê-los, mas estão ali num sítio estratégico para não mexer. Só levo os títulos se for para combater, não vou andar a passear com eles.
 
Não é o que o roster do WP seja gigante, mas neste momento há um wrestler que concentra os dois títulos. Acreditas ser uma situação que pode gerar alguma azia ou que o balneário vai encarar com compreensão?
É uma boa questão. Por acaso acabei por pensar nisso mais na altura de planeamento. Pode haver aquelas reações positivas exteriormente, mas interiormente a pessoa estar ruída, isso nunca vamos conseguir saber. Mas até que fiquei surpreendido porque não esperava tão boas reações. Houve mesmo boas reações e não só de quem sempre treinou comigo no Wrestling Portugal, mas também dos meus colegas de Wrestlefest, APW e Invicta, a darem-me os parabéns, mandarem-me mensagens, a dizer que é merecido. Eu não estava tão à esfera do “é merecido”. Obviamente que a meritocracia no wrestling é muito subjetiva, é o que faz sentido para o plano, mas genuinamente eu não esperava as reações positivas que tive e expresso aqui a minha gratidão total às pessoas que estão envolvidas comigo.
 

“Marcos Vitória não era carne nem peixe, se calhar um tofu”

Marcos Vitória com o Título de Honra
Falaste sobre a tal visão do Korvo. És campeão de Honra do WP há mais de dois anos e meio. Já sabias que era para ser um reinado tão longo?
Antes do Korvo falar comigo, não era sequer previsto eu ganhar o Título de Honra, porque não era sequer previsto eu ganhar o Título de Honra. Ninguém sabia o que fazer com o Marcos. Se formos analisar toda a minha história desde o Rumo ao Futuro [15 de maio de 2022], nós conseguimos perceber que o Marcos Vitória era um lutador que ganhava agora, perdia depois. Não era carne nem peixe, se calhar um tofu. Eu estava nesse ponto. A visão para o Título de Honra também estava um bocado perdida e surgiu essa oportunidade assim meio repentinamente.
 
Em entrevista ao “Espaço do Fontes”, em janeiro de 2020, revelaste que estiveste para ser campeão da APW no verão de 2018, mas que à última hora foi decidido que o belt iria, afinal, para o “Goldenboy” Santos. Já muita água passou debaixo da ponte, mas sentiste agora esse fantasma da mudança de planos à última hora?
Eu admito que já nem me lembrava dessa história, honestamente. Passados seis anos tenho outra visão dessa história. É factual o que aconteceu, mas analiso a situação de outro prisma, apesar que realmente a situação não foi gerida da melhor forma. Se o plano não fosse para a frente, estaria tudo bem. No final do dia é o que é melhor para o espetáculo. Se me dissessem, “olha, vais perder o Título de Honra, não vais ganhar nada e acaba assim a história”, eu estava OK com isso. E é a maneira que eu acho que todos os lutadores devem estar porque o mais importante é o que é passado para o público, o que é a história para o público, como é que o público pode ficar feliz ou envolvido na história.
 
Admitiste, na mesma entrevista, que problemas pessoais te prejudicaram em alguns combates.  Agora sentes que estás na plenitude das capacidades físicas e mentais ou que, mesmo quando não estejas psicologicamente tão bem, já tens a maturidade e serenidade necessárias para não transportar isso para o ringue?
Já faço wrestling há 10 anos, serão 11 em setembro, e acredito que o meu melhor trabalho em ringue é das últimas duas seasons. Acho mesmo que até é algo que eu percebo muitas vezes depois do espetáculo. Tem sido bastante frequente alguns fãs me dizerem “este foi o teu melhor combate” e depois no outro “acho que este é que foi o teu melhor combate”. É muito positivo ver que agora que estou com um mindset diferente, ou seja, não é que o wrestling já não importa tanto, não é isso, mas não vivo com aquela intensidade de querer levar isto para a frente e de ser profissional. Agora estou mais relaxado e descontraído e é quando o melhor trabalho tem surgido. Sei que tive os meus desafios, mas agora totalmente bem, totalmente tranquilo. A maneira com que eu vejo o wrestling também é totalmente diferente e graças a Deus estou totalmente estável.
 

“O Korvo queria que eu fosse a nova referência e usasse o theme song do Bammer com uma velocidade mais lenta”

Korvo e Marcos Vitória voltaram a aliar-se na Batalha Final 7
Já tiveste uma gimmick mais virada para a comédia e já foste “o veterano” e “o último batalhante”, muito focado para a comédia. Como tem sido o desenvolvimento da tua gimmick e quem é este Marcos Vitória de 2026? E porquê a escolha do apelido Vitória?
Após o meu oitavo treino tive o meu combate. Foi um combate de exibição, um squash. Passados cinco, seis meses eu estreei-me como uma personagem e foi tudo muito rápido, eu próprio não tinha bem uma noção do que é que seria. Na altura o Afonso Malheiro, que era o booker dos espetáculos e estava presente nos treinos e montava um show no treino, conseguia apanhar características do que é que seria uma ótima personagem. Lembro-me que, num dos treinos, eu tive um combate com o Bammer e ele ficou com uma visão de que eu tinha dito algo meio arrogante e me achava um veterano por ter mandado uma dica ao Bammer. Então ele pensou em fazer de mim um rookie que na sua cabeça era muito maior, um veterano, e então surgiu aí o nome. O Afonso Malheiro na altura até queria que o nome fosse Marco Vitória, mas discordei, porque Marcos é um nome diferente, não tão normal, que já soa a nome de wrestling. Ainda por cima, ser Marco seria muito estranho para mim até porque Marco é o meu pai. Então mudámos o apelido para Vitória, mas continuei a usar o meu nome. Na altura o treinador do Benfica era o Rui Vitória, que como treinador até nem gosto, mas era um apelido que para o wrestling é muito bom, que pode gerar cânticos e piadas.
A personagem que eu tenho agora deve ser a visão mais clara que eu tive, ou seja, daquilo que eu queria desde quase o início, que eu conseguiria desempenhar melhor, sem tirar nem pôr. Claro que há adaptações pelo caminho que eu não esperava, mas é esta personagem que eu almejava ter. Eu dizia-lhes que eu como heel ia funcionar. “Mas tu como babyface já és um bocado preso, como é que vais funcionar como heel?”, perguntavam. Muita gente dizia que era impossível funcionar, então só consegui passar a ser heel em 2022. Comecei como heel, mas era uma personagem de comédia, o que acaba por ser diferente. Foi muito natural a transição do “Último Batalhante” para esta personagem, que é muito arrogante, está num ponto acima de toda a gente, que os outros não podem tocar no ringue ou fora, que tem um trabalho melhor que os outros, um carro melhor do que os outros e uma arrogância total, com um sorriso que já dá vontade de dar um soco na cara. As pessoas olham para esta pessoa e automaticamente não gostam. Usa capa e plumas, tem um andar diferente, anda com o casaco pendurado à volta do pescoço, nem mete as mangas.
 
E porquê a música Diamonds From Sierre Leone, de Kanye West, para theme song?
Quando à theme song, eu queria que houvesse uma parte de classe, um som característico e os diamantes a cair, algum piano. E depois surge a parte da letra e é aí que entra o Kanye West, que acaba por ser uma pessoa diferente porque não assumimos Marcos Vitória como rapper e a música é um rap, mas se associarmos Marcos Vitória aos diamantes e à pessoa do Kanye West, que é larger than life e tem aquele god complex que é maior que os outros, faz todo o sentido. E a própria letra da música tem muitas referências que fariam todo o sentido para a evolução do que foi a personagem do Marcos Vitória. O Korvo tinha outras ideias, queria que a personagem fosse quase a nova referência, no sentido de ser uma substituição direta do Bammer e até queria que eu usasse uma versão da theme song do Bammer com uma velocidade mais lenta. Eu aceitei toda a visão do Korvo, mas disse-lhe que não queria mudar a música, porque eu já tinha a visão da música. O Korvo inicialmente não achou piada à música, mas depois, ao longo dos espetáculos, percebeu que era importante para a personagem, mas agora já diz que gosta e que faz sentido para a maneira como me apresento. E a personagem evoluiu com a música, que agora começa a estar associada a diamantes.
 
 
No que é que o Marcos Vitória e o Marcos Abreu se tocam e se distinguem?
Não se tocam em nada. Sou muito gozão e brincalhão com os meus no meu dia a dia, sempre num tom amigável, mas não me considero arrogante. Quando comecei no wrestling era um adolescente muito tímido, a um ponto em que eu não conseguia trocar contacto visual com ninguém, era mesmo absurdo. Depois a personagem é que me ajudou a não ser tão introvertido e, se agora consigo comunicar facilmente, foi totalmente graças ao wrestling. A arrogância nunca foi algo meu, acho que isso vem daquilo que eu via em filmes de wrestling, aquilo que eu imaginava que poderia ser facilmente. Só quando a minha competitividade é estimulada, a fazer uma corrida ou a jogar PlayStation, é que entra o Marcos Vitória no sentido de dizer aos outros que vou ganhar e sou superior e os outros são inferiores.
 

Salvador e Bammer disseram-me que tinha de ir para o marketing se queria ser campeão”

Marcos Vitória fez o pin em Baltazar na Batalha Final 6
Qual é a tua área, os teus interesses e objetivos extra wrestling?
Sou uma pessoa muito mais simples, da área do marketing digital e neste momento trabalho na mesma empresa do Luís Salvador e do Bammer. Tenho de expressar a minha gratidão a eles e ao wrestling, porque eu era um adolescente, não sabia o que ia fazer da vida e eles disseram-me que tinha de ir para o marketing se queria ser campeão (risos). Puxaram por mim. Não trabalhei sempre na mesma empresa, tive outros empregos, mas agora coincidiu estarmos na mesma empresa. São os meus dois mentores profissionalmente, ajudaram-me neste percurso profissional.
Nasci em Fânzeres, no concelho de Gondomar, tenho 27 anos e moro em Setúbal. Acabei por viver em vários pontos do país e fora, porque morei quatro anos no Luxemburgo (entre os meus quatro e oito) e cheguei a viver no Algarve, mas desde os meus dez anos que Setúbal é a minha casa. Passei a morar em Lisboa quando fui para a faculdade, mas desde que fui para lá que o meu maior sonho era só voltar para Setúbal. Neste meu novo emprego estou a trabalhar em home office e estou na minha cidade, que é absolutamente incrível.
Gosto muito de desporto, recetivo a convites para jogar ténis, padel, correr… gosto de ser muito ativo e o meu tipo de desportivo favorito não é tão estático. Gosto de ir ao ginásio, mas não é o que me entusiasma mais. Até jogar badminton vai interessar-me sempre mais. Também gosto muito de ler, interesso-me muito pela área financeira, pela área de investimentos em Portugal e estou a tirar mestrado em gestão de marketing. Gosto muito também da parte do ensino, pode ser que no futuro seja uma área a explorar.
Sou uma pessoa muito tranquila, o meu dia a dia não é cheio de emoção, não tenho de saltar muros nem nada disso. Sou muito contido, acho que o meu maior sonho, acho que também fruto da idade, é comprar a minha própria casa e constituir família. Sou uma pessoa muito familiar. 
 
Vou fazer-te uma pergunta provocatória, até porque não utilizas muito as redes sociais: que conselhos é que o Marcos Abreu marketeer daria ao Marcos Vitória wrestler?
Um bom soco é a melhor coisa que há. Ou seja, as redes sociais não vão vender se o produto não for bom. O produto é o mais importante e as redes sociais podem ser um complemento, mas antes de estar a comunicar é trabalhar no que o produto é bom ou não.
 
Já tiveste o Bammer como professor. Como é que essa convivência? Como é que o tratavas? Escondiam essa ligação aos outros alunos?
A melhor parte é que estou a ter agora o Afonso Malheiro como professor no meu mestrado e então parece que não consigo fugir dessa parte. Então, está a ser exatamente o voltar à licenciatura, passados quatro anos, em que tenho um amigo a dar-me aulas e é sempre muito estranho, porque não sei como o abordar. O Malheiro como professor diz aos alunos que o podem chamar por Afonso ou tratar por tu, mas eu nunca sequer o tratei por Afonso, é sempre Malheiro. É muito estranho.
Quanto ao Bammer, nunca na vida o iria chamar de Bammer, até porque mais ninguém ia conhecer essa referência. Portanto, eu chamava-o sempre por professor, mas de uma forma rápida e escondida para que os meus colegas não ouvissem porque eu sabia que ele ia gozar comigo. Era engraçado para a dinâmica da sala, mas nunca escondi que o conhecia e não queria ter protagonismo, tentava esconder-me mais, para não ser constrangedor. Ainda por cima podiam pensar que a nota poderia ser diferente e haver fofoquice. Mas se pudesse escolher, não os escolheria para meus professores. Não pelas suas qualidades, mas pela estranheza de toda a situação.
 

Foi a dois cabeleireiros no mesmo dia para ficar parecido a Batista

Marcos Vitória é campeão de Honra desde novembro de 2023
Puxando a cassete atrás: começaste a ver wrestling quando ainda eras muito jovem e consta que eras um grande fã de Batista, ao ponto de chegares a cortar o cabelo em dois sítios diferentes no mesmo dia só para ter um penteado idêntico ao dele…
É verdade.  O corte de cabelo do Batista não é a cabeça rapada como ele tem agora, era aquela crista que ele tinha. E eu queria muito ter o cabelo como o Batista. E lembro-me que a minha mãe até me apoiou nessa decisão, porque saí do primeiro cabeleireiro a pensar que não era aquilo que eu queria. E então fomos ao outro. E lá ficou mais parecido. Fiquei todo feliz. A minha gratidão aos meus pais por suportarem essas ideias do miúdo.
 
Ainda que vivesses no Luxemburgo, acabaste por te interessar por wrestling ao mesmo tempo que houve aquele boom em Portugal, em 2004, 2005…
A grande comunidade de portugueses no Luxemburgo sempre viveu muito do que estava a dar na televisão em Portugal. Não me lembro se eu via diretamente também da SIC Radical, mas é bem provável.
 
Apesar dessa admiração pelo Batista, até por ser grande, tens cerca de 1,90 m, mas não és powerhouse. Como é que as tuas inspirações foram mudando ao longo do tempo?
Em miúdo comecei a ver wrestling socialmente, sem qualquer interesse. Gostava muito do Batista e também muito do Eddie Guerrero. Com o passar do tempo comecei a adaptar mais os meus gostos e passei a ser mais o Marcos de agora. Comecei a pegar em várias coisas de personagem e de lutador de uns e outros. Em ringue identifico-me muito mais com o Nigel McGuinness, que acho que acaba por ser uma das minhas maiores referências; o William Regal; já tive alturas de pegar em coisas do Kurt Angle; já tive fases em que peguei mais em coisas do Okada; e o Jun Akiyama tem uma referência muito grande com a joelhada, vi imensos combates dele e acabei por ficar com a joelhada, um golpe que mantive durante toda a minha carreira.
A minha personagem acaba por ser muito parecida ao que o Nick Aldis era na NWA. Quem via o Nick Aldis na NWA, consegue ver que isto é o Marcos Vitória. E faz todo o sentido. Não posso dizer que estive a ver muitos vídeos do Nick Aldis para ser assim, mas via as promos dele. Há uma promo em que lhe perguntam como é estar no topo e o que vem a seguir para o campeão, e ele disse que, muitas das vezes, no topo, a motivação acaba-se, mas que ele a tinha de encontrar naquilo que ele é, na sua grandeza e no seu legado, e isso é algo que facilmente o Marcos Vitória diria. Um nome muito aleatório é o Tino Sabatelli, que transmitia muita arrogância, vinha do futebol americano e era maior que os outros.
Acaba por ser uma dicotomia entre o que o Marcos Vitória gosta enquanto personagens e os lutadores que tem como referências.
  

 

 


 



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