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| Marcos Vitória com os dois cinturões (Foto: camarneiroedits) |
Marcos Vitória - Como mencionaste, foram 10 anos até a conquista do Título Nacional do Wrestling Portugal e começou muito num ponto de gestão de expectativas e também na minha evolução no Wrestling ao longo destes anos. Porque, honestamente, passados 10 anos, a experiência é totalmente diferente de quando eu estava a começar. Por exemplo, recordo-me perfeitamente quando eu ganhei a Batalha dos 1000. A emoção que eu senti nessa altura é totalmente diferente da de agora. A Batalha dos 1000, quando ganhei, tinha 19 anos. Agora com 27, a gestão de emoções também é totalmente diferente.
Mas foi o culminar de tudo o que tinha sido planeado, ou seja, do culminar de uma visão, a visão esta do Korvo. O Korvo falou comigo há três anos da visão que tinha e onde é que nós poderíamos chegar em conjunto. E a realidade é que, no final, destes três anos, foi mais um sentimento de objetivo cumprido.
A minha preocupação foi mais entregar a melhor performance, entregar o melhor resultado para o público e de que forma é que íamos conseguir transmitir isso para um melhor espetáculo. Não foi tanto sobre mim, foi mais como é que vai ser para os fãs. A gestão de expectativas vai evoluindo ao longo de 10 anos, o meu mindset no wrestling também.
“Quando comecei a tirar queria tirar fotos com o Título do WP e tê-lo agora é muito especial”
Mas em entrevistas anteriores chegaste a assumir publicamente que ganhar o Título Nacional do WP era um objetivo. A partir de algum momento te desinteressaste?Não, desinteressar nunca desinteressa, sempre foi o objetivo principal no wrestling em si. Só que depois passou a ser essa gestão de “Ok, o que faz sentido para a história? Eu quero muito ser campeão, mas será que faz sentido?” E houve muitas fases neste meu percurso que eu fiquei “Ok, já não vou ser”. Estava OK com isso. Estou a contribuir para o espetáculo? Ótimo. Isso é o mais importante. Agora, o objetivo sempre foi o título do Wrestling Portugal. Na altura não havia o Título de Honra, então quando eu conquistei o Título de Honra já fiquei com esse gostinho, digamos. Para mim o ser campeão já dizia muito porque era mais a confiança do balneário, ou seja, de quem está a tomar as decisões. Quando comecei a treinar queria era tirar fotos com o título do Wrestling Portugal e tê-lo agora é muito especial.
Era exatamente a visão e o plano do Korvo quando nós falámos há três anos. Mas claro que há adaptações pelo caminho, acho que o face turn não estava previsto e o mérito é todo do Salvador enquanto booker. Honestamente, quando me falou da ideia de ser babyface eu disse logo que seria uma ideia péssima, porque ninguém quer apoiar o Marcos Vitória e seria horrível. Mas cumpri o papel para dar o choque final que era o objetivo principal. Eu começar com o Título de Honra e acabar com os dois títulos é uma visão do Bruno “Korvo” Almeida há três anos, num dia em que fomos ver o Benfica e ele já tinha tudo definido e perguntou-me: “tu queres ou não queres?”. Perguntei-lhe se tinha a certeza e ele disse-me que era a visão que tinha e que só ia trabalhar se fosse para fazer isso. Acabei por dizer que sim e a visão concretizou-se na Batalha Final 7. As minhas interações com o Korvo foi só “uau, isto aconteceu mesmo tudo em três anos”.
Agora é o ponto de que é o “make it or break it”, que é realmente se foi a decisão correta ou não. Agora já não há mais planos definidos, o que vai ser para acontecer é tudo novo, nem eu faço ideia de qual é a ideia, se é uma realidade eu lutar duas vezes no show, e então vou preparar-me nestes três meses pausa. Mas, no final do dia, é uma responsabilidade alargada, porque a responsabilidade dos dois títulos é a responsabilidade de entregar em dois dos combates principais ou dois dos combates mais importantes nos shows do WP.
Tenho sempre uma bolsa na qual eu transportava o Título de Honra e adicionei lá o Título nacional do Wrestling Portugal. Consigo vê-los, mas estão ali num sítio estratégico para não mexer. Só levo os títulos se for para combater, não vou andar a passear com eles.
É uma boa questão. Por acaso acabei por pensar nisso mais na altura de planeamento. Pode haver aquelas reações positivas exteriormente, mas interiormente a pessoa estar ruída, isso nunca vamos conseguir saber. Mas até que fiquei surpreendido porque não esperava tão boas reações. Houve mesmo boas reações e não só de quem sempre treinou comigo no Wrestling Portugal, mas também dos meus colegas de Wrestlefest, APW e Invicta, a darem-me os parabéns, mandarem-me mensagens, a dizer que é merecido. Eu não estava tão à esfera do “é merecido”. Obviamente que a meritocracia no wrestling é muito subjetiva, é o que faz sentido para o plano, mas genuinamente eu não esperava as reações positivas que tive e expresso aqui a minha gratidão total às pessoas que estão envolvidas comigo.
“Marcos Vitória não era carne nem peixe, se calhar um tofu”
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| Marcos Vitória com o Título de Honra |
Falaste sobre a tal visão do
Korvo. És campeão de Honra do WP há mais de dois anos e meio. Já sabias que era
para ser um reinado tão longo?
Antes do Korvo falar comigo, não era sequer previsto eu ganhar o Título
de Honra, porque não era sequer previsto eu ganhar o Título
de Honra. Ninguém sabia o que fazer com o Marcos. Se formos analisar toda a
minha história desde o Rumo ao Futuro [15 de maio de 2022], nós conseguimos
perceber que o Marcos Vitória era um lutador que ganhava agora, perdia depois.
Não era carne nem peixe, se calhar um tofu. Eu estava nesse ponto. A visão para
o Título
de Honra também estava um bocado perdida e surgiu essa oportunidade assim
meio repentinamente.
Já faço wrestling há 10 anos, serão 11 em setembro, e acredito que o meu melhor trabalho em ringue é das últimas duas seasons. Acho mesmo que até é algo que eu percebo muitas vezes depois do espetáculo. Tem sido bastante frequente alguns fãs me dizerem “este foi o teu melhor combate” e depois no outro “acho que este é que foi o teu melhor combate”. É muito positivo ver que agora que estou com um mindset diferente, ou seja, não é que o wrestling já não importa tanto, não é isso, mas não vivo com aquela intensidade de querer levar isto para a frente e de ser profissional. Agora estou mais relaxado e descontraído e é quando o melhor trabalho tem surgido. Sei que tive os meus desafios, mas agora totalmente bem, totalmente tranquilo. A maneira com que eu vejo o wrestling também é totalmente diferente e graças a Deus estou totalmente estável.
“O Korvo queria que eu fosse a nova referência e usasse o theme song do Bammer com uma velocidade mais lenta”
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| Korvo e Marcos Vitória voltaram a aliar-se na Batalha Final 7 |
Já tiveste uma gimmick
mais virada para a comédia e já foste “o veterano” e “o último batalhante”,
muito focado para a comédia. Como tem sido o desenvolvimento da tua gimmick
e quem é este Marcos Vitória de 2026? E porquê a escolha do apelido Vitória?
Após o meu oitavo treino tive o
meu combate. Foi um combate de exibição, um squash. Passados cinco, seis meses
eu estreei-me como uma personagem e foi tudo muito rápido, eu próprio não tinha
bem uma noção do que é que seria. Na altura o Afonso Malheiro, que era o booker
dos espetáculos e estava presente nos treinos e montava um show no
treino, conseguia apanhar características do que é que seria uma ótima
personagem. Lembro-me que, num dos treinos, eu tive um combate com o Bammer e
ele ficou com uma visão de que eu tinha dito algo meio arrogante e me achava um
veterano por ter mandado uma dica ao Bammer. Então ele pensou em fazer de mim
um rookie que na sua cabeça era muito maior, um veterano, e então surgiu
aí o nome. O Afonso Malheiro na altura até queria que o nome fosse Marco
Vitória, mas discordei, porque Marcos é um nome diferente, não tão normal, que
já soa a nome de wrestling. Ainda por cima, ser Marco seria muito estranho para
mim até porque Marco é o meu pai. Então mudámos o apelido para Vitória, mas
continuei a usar o meu nome. Na altura o treinador do Benfica era o Rui
Vitória, que como treinador até nem gosto, mas era um apelido que para o
wrestling é muito bom, que pode gerar cânticos e piadas.A personagem que eu tenho agora deve ser a visão mais clara que eu tive, ou seja, daquilo que eu queria desde quase o início, que eu conseguiria desempenhar melhor, sem tirar nem pôr. Claro que há adaptações pelo caminho que eu não esperava, mas é esta personagem que eu almejava ter. Eu dizia-lhes que eu como heel ia funcionar. “Mas tu como babyface já és um bocado preso, como é que vais funcionar como heel?”, perguntavam. Muita gente dizia que era impossível funcionar, então só consegui passar a ser heel em 2022. Comecei como heel, mas era uma personagem de comédia, o que acaba por ser diferente. Foi muito natural a transição do “Último Batalhante” para esta personagem, que é muito arrogante, está num ponto acima de toda a gente, que os outros não podem tocar no ringue ou fora, que tem um trabalho melhor que os outros, um carro melhor do que os outros e uma arrogância total, com um sorriso que já dá vontade de dar um soco na cara. As pessoas olham para esta pessoa e automaticamente não gostam. Usa capa e plumas, tem um andar diferente, anda com o casaco pendurado à volta do pescoço, nem mete as mangas.
Quando à theme song, eu queria que houvesse uma parte de classe, um som característico e os diamantes a cair, algum piano. E depois surge a parte da letra e é aí que entra o Kanye West, que acaba por ser uma pessoa diferente porque não assumimos Marcos Vitória como rapper e a música é um rap, mas se associarmos Marcos Vitória aos diamantes e à pessoa do Kanye West, que é larger than life e tem aquele god complex que é maior que os outros, faz todo o sentido. E a própria letra da música tem muitas referências que fariam todo o sentido para a evolução do que foi a personagem do Marcos Vitória. O Korvo tinha outras ideias, queria que a personagem fosse quase a nova referência, no sentido de ser uma substituição direta do Bammer e até queria que eu usasse uma versão da theme song do Bammer com uma velocidade mais lenta. Eu aceitei toda a visão do Korvo, mas disse-lhe que não queria mudar a música, porque eu já tinha a visão da música. O Korvo inicialmente não achou piada à música, mas depois, ao longo dos espetáculos, percebeu que era importante para a personagem, mas agora já diz que gosta e que faz sentido para a maneira como me apresento. E a personagem evoluiu com a música, que agora começa a estar associada a diamantes.
Não se tocam em nada. Sou muito gozão e brincalhão com os meus no meu dia a dia, sempre num tom amigável, mas não me considero arrogante. Quando comecei no wrestling era um adolescente muito tímido, a um ponto em que eu não conseguia trocar contacto visual com ninguém, era mesmo absurdo. Depois a personagem é que me ajudou a não ser tão introvertido e, se agora consigo comunicar facilmente, foi totalmente graças ao wrestling. A arrogância nunca foi algo meu, acho que isso vem daquilo que eu via em filmes de wrestling, aquilo que eu imaginava que poderia ser facilmente. Só quando a minha competitividade é estimulada, a fazer uma corrida ou a jogar PlayStation, é que entra o Marcos Vitória no sentido de dizer aos outros que vou ganhar e sou superior e os outros são inferiores.
“Salvador e Bammer disseram-me que tinha de ir para o marketing se queria ser campeão”
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| Marcos Vitória fez o pin em Baltazar na Batalha Final 6 |
Qual é a tua área, os teus
interesses e objetivos extra wrestling?
Nasci em Fânzeres, no concelho de Gondomar, tenho 27 anos e moro em Setúbal. Acabei por viver em vários pontos do país e fora, porque morei quatro anos no Luxemburgo (entre os meus quatro e oito) e cheguei a viver no Algarve, mas desde os meus dez anos que Setúbal é a minha casa. Passei a morar em Lisboa quando fui para a faculdade, mas desde que fui para lá que o meu maior sonho era só voltar para Setúbal. Neste meu novo emprego estou a trabalhar em home office e estou na minha cidade, que é absolutamente incrível.
Gosto muito de desporto, recetivo a convites para jogar ténis, padel, correr… gosto de ser muito ativo e o meu tipo de desportivo favorito não é tão estático. Gosto de ir ao ginásio, mas não é o que me entusiasma mais. Até jogar badminton vai interessar-me sempre mais. Também gosto muito de ler, interesso-me muito pela área financeira, pela área de investimentos em Portugal e estou a tirar mestrado em gestão de marketing. Gosto muito também da parte do ensino, pode ser que no futuro seja uma área a explorar.
Sou uma pessoa muito tranquila, o meu dia a dia não é cheio de emoção, não tenho de saltar muros nem nada disso. Sou muito contido, acho que o meu maior sonho, acho que também fruto da idade, é comprar a minha própria casa e constituir família. Sou uma pessoa muito familiar.
Um bom soco é a melhor coisa que há. Ou seja, as redes sociais não vão vender se o produto não for bom. O produto é o mais importante e as redes sociais podem ser um complemento, mas antes de estar a comunicar é trabalhar no que o produto é bom ou não.
A melhor parte é que estou a ter agora o Afonso Malheiro como professor no meu mestrado e então parece que não consigo fugir dessa parte. Então, está a ser exatamente o voltar à licenciatura, passados quatro anos, em que tenho um amigo a dar-me aulas e é sempre muito estranho, porque não sei como o abordar. O Malheiro como professor diz aos alunos que o podem chamar por Afonso ou tratar por tu, mas eu nunca sequer o tratei por Afonso, é sempre Malheiro. É muito estranho.
Quanto ao Bammer, nunca na vida o iria chamar de Bammer, até porque mais ninguém ia conhecer essa referência. Portanto, eu chamava-o sempre por professor, mas de uma forma rápida e escondida para que os meus colegas não ouvissem porque eu sabia que ele ia gozar comigo. Era engraçado para a dinâmica da sala, mas nunca escondi que o conhecia e não queria ter protagonismo, tentava esconder-me mais, para não ser constrangedor. Ainda por cima podiam pensar que a nota poderia ser diferente e haver fofoquice. Mas se pudesse escolher, não os escolheria para meus professores. Não pelas suas qualidades, mas pela estranheza de toda a situação.
Foi a dois cabeleireiros no mesmo dia para ficar parecido a Batista
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| Marcos Vitória é campeão de Honra desde novembro de 2023 |
Puxando a cassete atrás: começaste
a ver wrestling quando ainda eras muito jovem e consta que eras um grande fã de
Batista,
ao ponto de chegares a cortar o cabelo em dois sítios diferentes no mesmo dia só
para ter um penteado idêntico ao dele…
É verdade. O corte de cabelo do Batista
não é a cabeça rapada como ele tem agora, era aquela crista que ele tinha. E eu
queria muito ter o cabelo como o Batista.
E lembro-me que a minha mãe até me apoiou nessa decisão, porque saí do primeiro
cabeleireiro a pensar que não era aquilo que eu queria. E então fomos ao outro.
E lá ficou mais parecido. Fiquei todo feliz. A minha gratidão aos meus pais por
suportarem essas ideias do miúdo.A grande comunidade de portugueses no Luxemburgo sempre viveu muito do que estava a dar na televisão em Portugal. Não me lembro se eu via diretamente também da SIC Radical, mas é bem provável.
Em miúdo comecei a ver wrestling socialmente, sem qualquer interesse. Gostava muito do Batista e também muito do Eddie Guerrero. Com o passar do tempo comecei a adaptar mais os meus gostos e passei a ser mais o Marcos de agora. Comecei a pegar em várias coisas de personagem e de lutador de uns e outros. Em ringue identifico-me muito mais com o Nigel McGuinness, que acho que acaba por ser uma das minhas maiores referências; o William Regal; já tive alturas de pegar em coisas do Kurt Angle; já tive fases em que peguei mais em coisas do Okada; e o Jun Akiyama tem uma referência muito grande com a joelhada, vi imensos combates dele e acabei por ficar com a joelhada, um golpe que mantive durante toda a minha carreira.
A minha personagem acaba por ser muito parecida ao que o Nick Aldis era na NWA. Quem via o Nick Aldis na NWA, consegue ver que isto é o Marcos Vitória. E faz todo o sentido. Não posso dizer que estive a ver muitos vídeos do Nick Aldis para ser assim, mas via as promos dele. Há uma promo em que lhe perguntam como é estar no topo e o que vem a seguir para o campeão, e ele disse que, muitas das vezes, no topo, a motivação acaba-se, mas que ele a tinha de encontrar naquilo que ele é, na sua grandeza e no seu legado, e isso é algo que facilmente o Marcos Vitória diria. Um nome muito aleatório é o Tino Sabatelli, que transmitia muita arrogância, vinha do futebol americano e era maior que os outros.
Acaba por ser uma dicotomia entre o que o Marcos Vitória gosta enquanto personagens e os lutadores que tem como referências.





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