O central que saltou da Académica para o Atlético Madrid e foi internacional A. Quem se lembra de Zé Castro?
Zé Castro disputou 40 jogos pelo Atlético e 148 pela Académica
Protagonizou uma transferência
rara ao saltar diretamente da Académica
para o Atlético
Madrid, passou onze anos no futebol espanhol, chegou a internacional A e
voltou a Coimbra para encerrar a carreira com uma descida de divisão.
Defesa central não muito alto
(1,83 m) nascido na cidade dos estudantes
a 13 de janeiro de 1983, ingressou nas camadas jovens da briosa
em 1990 e sempre se destacou por aquilo a que hoje se chama de “sair a jogar”.
Em 2002-03 transitou para sénior, tendo começado pela equipa B, e na época
seguinte estreou-se na equipa principal pela mão de Vítor
Oliveira, tendo atuado os 90 minutos numa goleada sofrida nas Antas aos pés
do FC
Porto de José
Mourinho (1-4). Por essa altura já era um
internacional jovem português, mas foi a partir da temporada 2004-05 que
explodiu. Estabeleceu-se como titular ao longo de dois anos, conseguindo evidenciar-se
apesar de alguma da aflição da Académica
em conseguir a permanência. No verão de 2006, após não chegar
a acordo para a renovação de contrato, ficou livre e assinou a custo zero pelo Atlético
Madrid. O presidente dos estudantes,
José Eduardo Simões, disse que o futebolista queria ser o mais bem pago do
plantel: “Foi feita uma proposta ao Zé Castro para renovar. Ascendia a mais de 20
mil euros mensais, mas o atleta disse que só renovaria se fosse o mais bem pago
do clube. Tenho pena em o ver sair.” O central, que por volta dessa altura participou
no Europeu de sub-21, desmentiu o presidente. Numa altura de alguma turbulência
no Vicente Calderón, poucos anos após uma impensável passagem pela II Liga, foi
maioritariamente titular nos colchoneros
na época de estreia, em 2006-07, relegando para o banco internacionais como Luís
Perea ou Pablo Ibáñez.
Na temporada seguinte perdeu
espaço e no verão de 2008 mudou-se para o Deportivo
da Corunha, inicialmente por empréstimo e passado um ano a título
definitivo. “O primeiro ano no Atlético
foi incrível, mas depois houve um jogo que me marcou. Foi o jogo, em casa, com
o Real
Madrid, que nós não ganhávamos há muitos anos. Eu estava a fazer um jogo
fantástico e estávamos a ganhar 1-0 (…) e então o Guti fez um passe – o Guti ou
o Cassano – fez um passe para o Higuaín e numa dividida eu fui ao chão e ele
‘táu’, faz o golo do empate. Em Madrid era incrível, qualquer sítio onde fosse
na altura com a minha família não pagava, ia aos restaurantes e nada. Esse dia marcou-me. O Real
Madrid empatou, o jogo acabou empatado. Eu que estava a fazer um jogo
incrível, a partir daquele momento tudo mudou. Nada, não tinha feito nada,
estava a jogar bem com bola, sem bola. Aquele lance marcou-me, depois a partir
daí a imagem foi logo outra. Fui débil na jogada. Dois jogos antes era o líder,
agora como é que era possível um miúdo ter vindo. O Pablo que era o titular da seleção
espanhola não estava a jogar na altura, deixei-o no banco, titular da seleção
espanhola com o Puyol na altura, pois o Sergio Ramos jogava a lateral. Só
que esse jogo marcou-me. Não tenho a mínima dúvida. E convivo com isso e sei
disso. Marcou a minha imagem até em Espanha. (...) Depois, no jogo a seguir –
eu que vinha a jogar sempre – não joguei. Era o Aguirre o treinador e aquilo
marcou-me. Ainda por cima o diretor desportivo mudou, não ia muito com a minha
cara, não me dava muito bem, mas não guardo rancor de ninguém. No futebol há
espaço para todos e os companheiros são sempre bons, para mim, não tenho
problemas nenhum com isso. Os jogadores que jogam na minha posição são todos
bons. Na época a seguir já joguei menos. Na primeira época cheguei a fazer
muitos jogos e na segunda época joguei menos e então o Depor
apareceu-me”, recordou ao zerozero
em agosto de 2023.
Em boa hora rumou à Galiza,
porque foi como jogador do Deportivo
que atingiu o estatuto de internacional A, a 10 de junho de 2009, tendo
participado num particular diante da Estónia em Tallinn (1-0). Perdeu espaço nos galegos
nas épocas seguintes, mas, ainda assim, foi pré-convocado por Carlos
Queiroz para o Mundial
2010 de forma a precaver uma possível recaída de Pepe,
que ainda estava a recuperar de uma lesão que o afastou dos relvados durante
vários meses. Integrou mesmo os trabalhos da seleção,
mas acabou por ser excluído tendo em conta a recuperação plena do central do Real
Madrid. “Vou ser sincero, na época em que o Queiroz
me convocou para o Mundial
de 2010 nem merecia ter ido. (…) Foi a época no Depor
em que eu tive um problema até com o treinador, quis sair, burro, em vez de
aproveitar. Deixei de jogar a meio da época e bem”, admitiu. Em 2011-12 valeu-se da despromoção
à II Liga em 2011 para voltar a ter algum protagonismo, ajudando o Depor
a conquistar o título do segundo escalão nessa temporada. Na época que se
seguiu voltou à La
Liga, mas tornou a descer de divisão, desta feita na companhia dos
compatriotas Sílvio, Roderick, Tiago Pinto, André Santos, Pizzi, Bruno Gama,
Nélson Oliveira e Diogo Salomão.
Após nova despromoção voltou para
a zona de Madrid para representar o Rayo Vallecano entre 2013 e 2017, tendo
descido à II Liga espanhola em 2016. Em Vallecas, diz, desfrutou do futebol “como
nunca”, às ordens de Paco Jémez. “Jogávamos como os anjos. É o que eu costumo
dizer: era o Barcelona
dos pequeninos. Era uma coisa incrível, sinceramente. E perdíamos, 5-0 no
Bernabéu, 5-3 no Camp Nou, 6-3 em casa. O Real
Madrid via-se à rasca, mesmo com as estrelas todas, era incrível. Tive um
treinador que era um bocado, até exageradamente, ofensivo e louco. Eu lembro-me
que ia ao Camp Nou, no pontapé de baliza do Barcelona,
eu ia marcar o Iniesta à área do Barcelona,
homem para homem, nós jogávamos homem para homem atrás. Depois ganhávamos a
bola e nós é que jogávamos. Tínhamos 59 por cento de posse de bola no Camp Nou.
É impensável contra o Barcelona,
campeão da Europa já com Luís
Enrique. Perdemos 5-3, mas desfrutámos do jogo e do nosso futebol. Na
segunda época quase chegámos à Europa, na primeira conseguimos a manutenção.
Também tivemos grandes equipas, houve um ano que tive uma equipa fantástica com
o Rat, que era o romeno mais internacional de sempre, o Saul que está no Atlético
de Madrid, o Jonathan Vieira, que era um grande jogador que jogava lá, o
Iago Falqué, que depois foi para o para o Torino, Larrivey, Léo Baptistão, chegámos
a ter grandes equipas e um futebol super. Quem via os nossos jogos não podia
estar ali a fazer um frete. Não havia tédio”, lembrou.
Em 2017 voltou à Académica,
então na II
Liga, com o intuito de recolocar a briosa
entre os grandes, mas despediu-se do clube e da carreira cinco anos depois após
uma descida de divisão à Liga 3. Tinha 39 anos e há muito que era fustigado por
lesões.
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