quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O "aguadeiro" que capitaneou a França campeã mundial e europeia. Quem se lembra de Didier Deschamps?

Deschamps somou 103 internacionalizações por França
Um dos três homens que venceram o Campeonato do Mundo como jogador e treinador, um antigo médio defensivo com espírito de liderança e forte personalidade que praticava um futebol simples, mas eficaz: recuperava a bola e entregava-a aos criativos. Éric Cantona apelidava-o de "aguadeiro" ("le porteur d'eau", em francês).
 
Nascido a 15 de outubro de 1968, em Baiona, no País Basco francês, começou por jogar nas camadas jovens de um clube local, o Aviron Bayonnais, antes de ingressar na formação do Nantes, que o catapultou para o futebol profissional em 1985.
 
Com o tempo foi ganhando paulatinamente o seu espaço, demonstrando desde cedo características que foi mantendo ao longo de mais de década e meia de carreira: maturidade competitiva, capacidade de recuperação de bola e facilidade em organizar o jogo a partir de zonas recuadas. Nunca foi um marcador de golos, tendo marcado apenas 25 durante o seu percurso profissional, mas cumpria eficientemente as funções que lhe eram confiadas.
 
Em 1989 tornou-se internacional A por França, estreando-se a 29 de abril desse ano, e deu o salto para o Marselha, dando início a uma etapa importante na sua carreira. Durante cinco anos ajudou o clube do sul do país a estabelecer-se entre os grandes clubes europeus, tendo vencido a Liga dos Campeões em 1992-93 e dois campeonatos gauleses (1989-90 e 1991-92) – pelo meio, esteve emprestado ao Bordéus em 1990-91. Na memorável noite de 26 de maio de 1993, capitaneou o conjunto marselhês no triunfo sobre o AC Milan na final disputada em Munique, graças a um golo solitário do central Basile Boli, tornando-se assim no primeiro capitão de uma equipa francesa a levantar o troféu mais importante do continente.

 
Em 1994 transferiu-se para a Juventus e ajudou, sob o comando de Marcello Lippi, o emblema de Turim também a estabelecer-se como uma força dominante no futebol europeu, tendo voltado a vencer a Champions em 1995-96, desta feita com vitória sobre o Ajax em Roma, no desempate por penáltis – nas duas épocas seguintes, foi finalista vencido. Também conquistou três campeonatos italianos (1994-95, 1996-97 e 1997-98), uma Taça (1994-95) e duas Supertaças (1995 e 1997) de Itália, uma Taça Intercontinental (1996) e uma Supertaça Europeia (1996).

 
Nessa altura começou a consolidar-se como um dos melhores médios defensivos da sua geração. Embora pouco vistoso, era determinante no funcionamento coletivo graças às suas inteligentes ações e capacidade para interpretar as exigências táticas.
 
Paralelamente, saboreou a glória pela seleção francesa em 1998, quando ergueu a taça de campeão do mundo em Paris, após o triunfo sobre o Brasil na final (3-0). Essa conquista colocou definitivamente um ponto final a um período negro de les bleus, que não se haviam qualificado para os Mundiais de 1990 e 1994 nem ido além da fase de grupos do Euro 1992 – no Campeonato da Europa de 1996 já havia dado sinais de retoma, quando atingiu as meias-finais.


Em 1999, depois de cinco anos na vecchia signora, mudou-se para o Chelsea, numa experiência relativamente curta, mas que lhe permitiu acrescentar mais um troféu ao currículo: a Taça de Inglaterra, conquistada em 2000. No final da única época passada em Londres sagrou-se campeão europeu de seleções, voltando a erguer o troféu na condição de capitão de equipa.

 
Após o Euro 2000 retirou-se do futebol internacional, ao fim de 103 internacionalizações (54 enquanto capitão) e quatro golos, mas continuou a jogar futebol durante mais um ano, ao serviço do Valência, na altura uma força emergente no futebol espanhol e europeu. Na única temporada que passou no clube, 2000-01, atingiu a final da Liga dos Campeões, perdida para o Bayern Munique no desempate por penáltis.
 
Depois encerrou a carreira de jogador e iniciou a de treinador, aos 32 anos. Começou pelo Mónaco, clube que guiou à conquista da Taça da Liga francesa em 2002-03 e à final da Champions na temporada seguinte, numa campanha em que o conjunto monegasco eliminou equipas como Real Madrid (dos Galácticos, comandados por Carlos Queiroz) e Chelsea antes de perder com o FC Porto de José Mourinho em Gelsenkirchen (0-3).
 
Seguiu-se o regresso à Juventus, numa altura em que os bianconeri atravessavam uma crise provocada pelo escândalo de manipulação de resultados conhecido como Calciopoli e tinham sido despromovidos administrativamente à Serie B. Foi precisamente Deschamps que levou a Juve novamente à Serie A em 2006-07, na única temporada ao leme da turma de Turim.
 
Depois tornou-se treinador de outro clube em que havia jogado, o Marselha, tendo conquistado o campeonato francês em 2009-10, colocando um ponto final a um jejum de 18 anos sem vencer o título nacional. Paralelamente, venceu a Taça da Liga francesa durante as três temporadas que passou no clube do sul de França (2009-10, 2010-11 e 2011-12) e o Trophée des Champions (equivalente à Supertaça) em 2010 e 2011.
 
A 8 de julho de 2012 foi nomeado selecionador de França, sucedendo ao antigo companheiro de equipa Laurent Blanc, em mais uma fase de instabilidade no seio da seleção gaulesa, que não havia passado a fase de grupos no Euro 2008 e no Mundial 2010 e que tinha sido eliminada nos quartos de final do Euro 2012.
 
Deschamps começou por atingir os quartos de final do Mundial 2014, tendo sido eliminado pela Alemanha, que viria a ganhar o torneio. Dois anos depois, levou les bleus à final do Euro 2016, perdida em Paris para Portugal, graças ao golo de Éder.
 
Apesar da desilusão, o antigo médio continuou ao leme da seleção francesa, tendo-a guiado ao título mundial em 2018, tornando-se no terceiro homem a conquistar o Campeonato do Mundo tanto como jogador como treinador, juntando-se ao brasileiro Mário Zagallo e ao alemão Franz Beckenbauer.
 
Depois de um Euro 2020 discreto, que culminou na eliminação nos oitavos de final às mãos da Suíça no desempate por penáltis, conduziu França à final do Mundial 2022, disputado no Qatar. Apesar do hat trick de Kylian Mbappé, os gauleses perderam no desempate por grandes penalidades para a Argentina de Lionel Messi.
 
Por fim, foi eliminado nas meias-finais tanto do Euro 2024 como do Mundial 2026. O torneio realizado nos Estados Unidos, no Canadá e no México marcou o fim do seu trajeto de 14 anos como selecionador, tal como havia sido previamente anunciado em janeiro de 2025.
 
 






  

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