Pelo segundo ano consecutivo, a
WWE decidiu promover um heel turn de um veterano para que o combate pelo
WWE
Championship na WrestleMania
não seja um (enfadonho) babyface vs. babyface. Em 2025, foi John
Cena a virar vilão para defrontar o campeão e nova cara da companhia Cody
Rhodes. Agora é Randy
Orton, em circunstâncias muito parecidas.
Tal como há um ano, o heel
turn foi impactante. Se o de John
Cena ganhou até contornos de histórico, o de Randy
Orton ficou marcado pela brutalidade do ataque ao autodenominado “QB1”. Mas, no ano passado, o heel
turn viral de Cena
não teve consequência numa grande heel run. O “Never
Seen 17” manteve sempre o apoio de grande parte do público e nunca
conseguiu tornar-se um vilão legítimo, fizesse o que fizesse e estivesse quem
estivesse do outro lado, por carregar uma bagagem de mais de duas décadas como babyface
e sobretudo por ter chegado a um ponto na carreira em que a admiração que os
fãs têm por ele é bastante sólida. Com ingredientes diferentes e a
uma escala menor, porque nunca foi a cara da WWE, há o perigo de acontecer o
mesmo a Orton.
Mesmo como babyface, o mestre
do RKO nunca deixou de ser “The
Viper”, alguém a quem os fãs perdoavam e até aplaudiam atitudes de heel,
como RKOs a outros babyfaces, incluindo o seu antigo parceiro de tag
teamMatt Riddle. A exceção foi talvez quando Orton
hesitou em aplicar um Punt Kick em Cody
na final do torneio King of the Ring do ano passado. Por nunca ter passado propriamente
a fronteira de tweener, devido à ambiguidade da personagem, e porque já
granjeia de uma admiração de mais de duas décadas por parte dos fãs, também não
o vejo a ser vaiado de forma monumental.
Lembro-me perfeitamente de que
nos meus primórdios como fã de wrestling, em 2006, praticamente nenhum veterano
consagrado ser heel. Shawn
Michaels, Triple
H, Undertaker,
Ric Flair e companhia já tinham chegado a um ponto em que as grandes memórias e
a admiração que foram conquistando ao longo de muitos anos já não pareciam ser
compatíveis com o estatuto de vilão. Organicamente, parecia ser algo legítimo e
natural. Quando se optou pelo contrário, com Cena
e logo numa tour de despedida, é que pareceu contranatura. Algo que também não me agrada de
todo nesta estrada sinuosa pela qual o WWE
Championship tem passado nas últimas semanas é a ausência de Drew
McIntyre no combate pelo título. Sou um fã do escocês
e vinha a gostar muito da forma gradual como se tornou heel e, enquanto
campeão, da sua obsessão por manter os mais perigosos candidatos longe do cinturão.
A meu ver, estava a ser o principal heel da companhia, com boas doses de
atitudes detestáveis e legitimidade enquanto campeão, sem nunca deixar de ser
entretido. Percebo que a feud com Cody
já ia longa, mas creio que ainda havia fôlego para vê-lo defender o título num sempre
divertido triple threat match com Orton
metido ao barulho. Ainda tenho a ténue esperança de que ele (e talvez Jacob
Fatu) sejam adicionados ao main-event da primeira noite da WrestleMania
42.
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