quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Baltazar: “Tentaram convencer o Tony de Portugal a não tornar-me campeão da APW” (Parte 2)

Baltazar foi campeão da APW durante 778 dias
Começou como Chakara, um índio com cara pintada, ainda no CTW. No Reino Unido foi quatro vezes campeão da Lucha Britannia enquanto Triffidos, “El Maestro del Plantos”. E no final de 2019 deixou de lutar como Mauro Chaves para se assumir como Baltazar, o apelido da família materna, numa homenagem à malograda mãe.
 
Na segunda parte (de três) desta entrevista, o fundador da Invicta Wrestling recorda o seminário em que Will Ospreay o tratou por “Sir” e quase o apagou com um Forearm, faz um balanço do reinado enquanto campeão da APW, explica os reboots que a sua personagem tem sofrido e porque decidiu rapar o cabelo e esclarece as polémicas em que o seu nome esteve envolvido.
 
DAVID PEREIRA - No Centro de Treinos de Wrestling (CTW) ainda te chegaste a estrear, a 15 de junho de 2013, no evento Luta pela Solidariedade, como Chakara, um índio com a cara pintada…
BALTAZAR - Sim, exatamente. Quem é que estava? Era eu, o Red [Eagle], o Milão, o Nelson Pereira, o Ho Ho Lun, que era um lutador [de Hong Kong] que teve no Cruiserweight Classic da WWE e o Piloto também lá estava. Acho que houve dois combates nesse evento. Foi uma apresentação, uma amostra, não considero isso uma estreia oficial. Mas sim, fui como Chakara, que era um índio do wrestling. Fazia um horse drop, que era um leg drop, mas fazia o som de um índio antes de fazer o leg drop. Foi uma tentativa de me descobrir.
 
Qual era o teu background desportivo? Praticaste alguma modalidade?
Joguei ténis quando andava na escola. O futebol nunca foi a minha praia e, em Portugal, a não ser que seja bola, pelo menos na minha altura era difícil outro desporto cativar-te. Joguei ténis e ainda fui ao Estoril Open, mas perdi lá na primeira ronda. Era o desporto de que eu mais gostava na altura, antes de saber que podia fazer wrestling em Portugal.
 
Mauro Chaves durante o WP Academia
Embora te tivesses estreado na Taça Tarzan Taborda da APW em 2014, a tua grande rampa de lançamento foi o WP Academia. Qual foi a importância dessa season para o teu desenvolvimento?
Os WP Academias foi onde eu comecei a dar o meu grande passo no Wrestling português porque – é algo que eu trago muito para a Invicta Wrestling – viram um show com 820 pessoas e veem shows com mais de 100, 150, 200 pessoas em geral, mas quando comecei no WP era eu, o Ramon Vegas, o David Francisco, o Duarte Silva e o Ruben Branco a treinar à tarde em colchões verdes com uma lona azul por cima, nem éramos pessoas suficientes para montar o ringue do WP. Depois, quando começámos a fazer os Academias, com o Shotokai fechado a meio, o meu primeiro evento – fora a Taça Tarzan Taborda 2014, esse combate como Chakara e as experiências que eu tive no Reino Unido – foi em frente a 10 pessoas. Ou seja, o WP Academia foi de 10 a 20 e a 50 pessoas e depois no WP Academia 5 se calhar já eram perto de 80 e depois abre o WP. Ou seja, se não fosse pelo trabalho do Ruben Branco, do David, do Ramon, da minha pessoa e do Duarte Silva e depois de tantos outros que entraram durante esses WP Academias, o WP tinha estado morto. E eu fico muito feliz de poder ter ajudado o WP a renascer.
Para mim os WP Academias foram super importantes e são combates e vídeos que partilho muito com os meus alunos para que eles tenham respeito por aquilo que se faz hoje, porque nós tínhamos de fazer o esforço. É muito difícil teres 10 pessoas interessadas naquilo que está a acontecer do que 100 ou 200. Porque em 100 se tiveres 50 a fazer barulho os outros 50 também fazem. Agora, quando tens 10 e estão os 10 calados tens realmente de aprender a ser um bom wrestler, daí a parte do character e da conexão que tenho com os fãs, que é algo que toda a gente me diz que faço muito bem. Tive de aprender a conectar com aqueles 10 fãs e fazer aqueles 10 fãs querem saber. E sabendo trabalhar esses 10 fãs que estão sempre calados depois é muito mais fácil conseguir criar emoções e ligações com os 820 que estiveram no Porto Wrestlefest: Bingança!.
 
Depois emigraste para o Reino Unido. Foste treinado na London School of Lucha Libre, sagraste-te uma vez campeão da London Lucha League (LLL) como Mauro Chaves e quatro vezes campeão da Lucha Britannia como Triffidos. O que mais aprendeste e que balanço fazes da tua passagem de quatro anos em Terras de Sua Majestade (2016 a 2020)?
Mauro Chaves enquanto campeão da LLL rodeado de camaradas
A aura e a vibe que existia lá é aquilo que eu quero implementar aos meus alunos na Invicta Wrestling. Quero trazer o que aprendi lá para termos aqui. E o que é que eu aprendi lá? Aprendi lá muito sobre família, no sentido em que a Lucha era a minha família. Fui super bem recebido lá. Havia um certo amor em que todos queriam ver todos a ter sucesso. Não era um sítio de egos, era um sítio em que a mentalidade era “vamos todos estar ao mesmo nível para que todos nós possamos trabalhar para que todos possamos fazer isto que adoramos para que todos possamos estar a fazer isto all the time sem que a malta se lesione”. E é exatamente isso que eu trago à Invicta Wrestling. Aprendi muito sobre characters, sobre falar ao microfone e sobre ser carismático. Tive a possibilidade, através da Lucha, de ter seminários com muita malta, como o Simon Gotch, Cassandro (do México), o Rey Mysterio chegou a aparecer lá também, Jeff Jarrett, Johnny Moss… uma quantidade mesmo muito grande de seminários. Na Resistance Gallery, o bar que era a casa da London School of Lucha Libre, havia vários eventos de wrestling a acontecer, incluindo os que eram só de wrestling feminino, da Pro-Wrestling: EVE, e isso trazia muitas lutadoras da Europa e do Japão para lá, pelo que cheguei a conhecer a Emi Sakura, a Riho e grandes nomes que agora estão na AEW e na WWE. Elas tiravam sempre um bocadinho de tempo para aprendermos com elas. Muitas das vezes, os alunos da London School of Lucha Libre eram o staff que apanhava os dives para fora do ringue. E ganhávamos um respeito muito grande delas, porque cuidávamos delas. Às vezes elas queriam falhar um dive e nós tínhamos de agarrá-las ou algo do género, estavam à nossa mercê. Apendi muito com esse trabalho de equipa. E sempre que alguém ganhava um título era muito bonito ver como toda a gente ficava feliz. Os títulos da London School of Lucha Libre e da LLL eram os títulos de “tu ganhas este belt e quando perdes quer dizer que estás pronto para ir para os shows da Lucha Britannia. Eu perdi o meu título para o antigo campeão da IWGP, o Callum Newman

E depois foste para a Lucha Britannia...
Combate entre Triffidos e El Pavo Real na Lucha Britannia
Depois fui para a Lucha Britannia e ganhei o título deles quatro vezes. Isso para mim foi incrível. Pude partilhar o ringue com o Cara Noir [antes conhecido por El Pavo Real e Pure Britannico], que é uma das maiores estrelas europeias neste momento, um antigo campeão da Progress que também já esteve no wXw [da Alemanha].
Aprendi muito, trabalhei com muita gente espetacular, tive muitos seminários com pessoas que me educaram a ter mente para o business do wrestling e estar em Inglaterra permitiu-me a ir a várias companhias diferentes com pessoas diferentes, muitas delas hoje em dia em fases invencíveis da vida deles. Tive também combates contra o Robbie X, que agora é dos Bullet Club, o Cara Noir, o Callum Newman, o Charles Crowley que é uma grande estrela da Progress, o Joe Lando que é americano e estava cá a viver e teve agora um tryout para a WWE. Ou seja, tive a oportunidade de realmente aprender com muitos lutadores.  Sendo um português nascido e criado no Cacém, poder estar a viver o meu sonho no estrangeiro era incrível. Há uma frase mítica que é: eu aqui sou um grande peixe num aquário pequeno e lá eu era um peixe pequenino num oceano gigantesco. Pelo menos era o que eu achava. Ter a possibilidade de os promotores quererem dar-me a possibilidade de valorizar o meu trabalho e de ser campeão da empresa deles era o que eu queria e o que precisava para perceber que estava no caminho certo.
 

“Will Ospreay tratava-me por Sir

Com Will Ospreay, para muitos o melhor wrestler do mundo
De salientar que o nome de Triffidos consta na galeria de campeões mundiais da Lucha Britannia tal como Dark Brittanico, que era Will Ospreay, que para muitos é o melhor wrestler do mundo atualmente. Chegaste a cruzar-te com ele?
Sim, cruzei-me. Essa é outra daquelas histórias da vida. A minha primeira visita à London School of Lucha Libre acontece porque eu na altura só conhecia o Projo, que era a escola ligada à Progress, onde já estava o David Francisco. Só que o Projo ficava em Brixton e Brixton era a sul de Londres e para eu ir para Brixton e fazer o treino custava-me para ir cerca de 20 libras (na altura quase 30 euros). Mas eu não tinha muito dinheiro e tive de procurar trabalhos rápidos e, infelizmente, no primeiro trabalho que tive foi num supermercado pequeno, que era a Co-op, uma espécie de Continente Bom Dia, assinei o contrato, mas não tinha um trabalho a full time, apenas fazia alguns dias durante a semana e perguntava a toda a gente quanto é que ia receber por mês. Diziam-me que eu devia receber umas 800 libras, sendo que o quarto onde eu estava custava 450, e achava que isso fazia de mim um rei, porque podia pagar o quarto e ter uns 100 euros para viver por semana.  Mas a primeira mensalidade que recebi foi de 98 libras para viver durante um mês e já estava a gastar o dinheiro que poupei para levar para Inglaterra. Então tinha de tomar uma decisão: se ia continuar a trabalhar lá a receber um ordenado normal e estruturava a minha vida ou se voltava para Portugal. Estava numa situação muito assustadora e tive de parar os treinos no Projo. No entanto, a 40 minutos a pé de onde eu estava a viver, que era em Bromley by Bow, em Bethnal Green havia a London School of Lucha Libre e eu vi no Facebook que havia um seminário por 10 libras com o Will Ospreay. Liguei para a minha família a dizer que precisava de dinheiro para viver porque não conseguia viver sozinho e a minha família foi incrível e apoiou-me bem. A minha família de casa deu-me 200 euros, o meu pai deu-me 100 e lá consegui viver aquele mês. A minha tia Marina Baltazar perguntou-me se precisava de mais alguma coisa e eu disse-lhe “olha, mais 10 euros era fixe porque vai haver um seminário com um lutador que é muito grande e eu gostava muito de ir”. Ela disse-me: “tu estás aí para ser feliz, por isso vou mandar-te o dinheiro.” Foi um momento muito marcante na minha vida porque mostrou o quanto a minha família pode não gostar de wrestling ou de ver-me sofrer, mas que me apoia nos meus sonhos. E fui ao seminário a pé e voltei numa daquelas bicicletas alugadas, ou ao contrário, e mal entrei no Resistance Gallery, quem lá estava era o Cameron, que era o Buffalo Soldier e deu-me um abraço e as boas-vindas à London School of Lucha Libre. Também conheci o Gary, que era um homem com cabelo azul que parecia o Jeff Hardy, e depois o Will Ospreay. Então o meu primeiro treino lá foi o seminário com o Will Ospreay e foi dos treinos mais intensos que alguma vez tive na vida. Levei um Forearm dele que quase me apagou, porque dei um Forearm, ele disse que tinha sido muito fraco e mostrou-me como fazem no Japão: “Pá!”. Mas foi espetacular. E desde aí, a Lucha tornou-se a minha casa.
 
Will Ospreay (com o cão) na London School of Lucha Libre
O que mais aprendeste nesse seminário?
Esse Will Ospreay, de 2016, que naquela altura estava a dar os primeiros grandes passos no Japão, é muito diferente do Will Ospreay de uns anos depois. Era supersimpático. Sou mais velho do que ele e, quando ele soube que eu tinha mais anos de wrestling do que ele, ele apertava-me a mão e tratava-me por Sir. Ou seja, até o Will Ospreay, só porque eu tinha mais anos de wrestling do que ele, me mostrava esse respeito, e estava já contratado pela New Japan Pro Wrestling. Isso mostra o quão importante é o respeito no wrestling. Aprendi muito sobre confiança. Não sou nada um gajo de fazer flips, mas cheguei a fazer um mortal para trás com ele a ajudar e também fiz um moonsault, coisas que nunca faria por mim, mas ele conseguiu motivar-me a fazer isso. Era um rapaz que tinha muita paixão, muita ambição.
Depois identifiquei-me com o facto de que o Callum Newman era o “Prodigy” e hoje podemos ver isso porque ele está no Japão, seguindo os passos do Ospreay e agora faz parte da mesma stable que o Ospreay, o United Empire. E eu pude ainda ver o crescimento do novo Ospreay, que era o Callum Newman. E eu tive feud com o Callum Newman. No combate em que ele me tira o título, o Ospreay estava a assistir e deu-me props, disse que foi um grande combate e que foi uma história muito boa. Nesse combate, que está no YouTube, eu imitei o Ospreay, muito mal feito, com aquele movimento de se mandar às cordas, dar uma cambalhota para trás e dar um mortal. E eu mandei-me às cordas e fiz uma cambalhota toda torta e a pose dele, porque ele estava lá a ver o combate. Por isso sim, aprendi muito e ele foi muito simpático comigo. Felizmente, havia fases em que ele não estava no Japão, voltava a Inglaterra e aparecia lá muitas vezes. Então tive muitas oportunidades de treinar com o Ospreay e aprender com ele. E sim, isto de ser mais rígido às vezes não é a parte do físico, não é o bater. O wrestling dói e não é para toda a gente. Toda a gente pode experimentar fazer um treino? Sim. Toda a gente vai ficar no wrestling? Não. Isto é uma coisa que tem de ficar escrito, porque muita gente acha que vai lá e faz, mas é mentira. Tantos alunos na Invicta Wrestling que já vieram, ficaram um mês ou dois e foram-se embora porque não aguentam as dores ou não têm aquela paixão que é necessário para viver com dores para chegar a uma fase em que o corpo finalmente está calejado e apto para poder fazer wrestling. Desse seminário retirei o pensamento: “Se quero estar aqui, tenho de aceitar que isto é assim.” E aceito. Vai doer e está tudo OK comigo ou então não é para mim. E felizmente continua.
 
 
Numa das tuas viagens a Portugal durante esse período no Reino Unido, consta que terás feito mais de 100 euros em merchandising num evento da APW…
Mauro Chaves quando interpretava um ativista vegan
Não consigo precisar se foi só na APW ou se foi um somatório de APW e WP, porque houve uma altura em que eu vim e fiz alguns eventos por aqui. Acho que foi o respeito que eu tive dos fãs. Na altura tinha uma t-shirt que dizia “Mauro is Gonna Kale You” ou “Kale Rangers”, uma delas, relacionadas com a gimmick do ativista vegan que eu estava a interpretar na altura. Ou seja, a malta simplesmente respeitou muito o meu trabalho e aquilo que eu andava a fazer. E por causa disso quis-me apoiar ao comprar merchandise.
Isto é uma coisa que para mim é extremamente importante, porque isto é um negócio e nós, como personagens de wrestling, temos de fazer o nosso próprio negócio. Claro que és pago para fazer um combate, mas nunca vais fazer realmente dinheiro a sério só com um combate. O dinheiro que pode pagar ou ajudar a pagar algumas contas vem do merchandise, do investimento. Dou-te um exemplo perfeito no Porto Wrestlefest: Bingança!: Das cinco t-shirts com vários tamanhos diferentes que eu tinha, só fiquei com dois: umas do Baltazar tamanho L e umas da Invicta Wrestling à moda tamanho XL. O resto foi tudo. Porquê? Porque isso é que vai permitir-te fazer alguma coisa. Acho que foi isso que aconteceu nessa altura. Eu vim, as pessoas ficaram muito contentes por me ter cá. Sempre senti um carinho muito grande pelo público português. Sempre perguntei aos fãs porque gostam de mim e eles dizem-me que eu os cativo emocionalmente porque estou lá para eles: “tu olhas e vendes para nós, levas-nos para a ação. Não estás só a fazer wrestling para ti, estás a fazer para nós.” Vai sair uma t-shirt nova a dizer “Wrestling = Amor” e podem sempre comprar e enviar mensagem para o Baltazar na página do Invicta Wrestling. É uma forma dos fãs guardarem o momento que para eles foi especial e levarem esse momento para casa. A t-shirt que fiz para o Bingança! dizia “Bingança” e atrás tinha a frase que foi iniciada pelos fãs do Porto: “Tony, escuta, és um filho da puta!”. Essa t-shirt vendeu muito mesmo. Esgotou. Porquê? Porque é a storyline que está a ser feita, é a emoção que está ligada àquela t-shirt e as pessoas não querem perder isso. Então, ainda bem que aprendi a fazer isso no Reino Unido, porque os meus treinadores lá eram muito chatos a dizer: “tens um aspeto, tens umas cores… faz merchandise!”.
 
 
No final de 2019, ainda estavas no Reino Unido, deste um reboot à tua personagem e passaste a ser “O Sangue de Portugal”, Baltazar. O que te levou a fazer essa mudança brusca?
Não foi bem assim. Eu perdi o título da London School of Lucha Libre e depois apresentei o “DisgustingMauro Chaves, character com o qual consegui bookings em Espanha, França e na Alemanha e que, basicamente, era um upgrade da personagem do ativista. A minha ideia foi: “se eu fosse um animal e tivesse a oportunidade de me vingar do ser humano por tratar mal os animais, o que é que eu fazia?”. Então criei essa personagem de Baltazar, estava a tentar procurar algo diferente. Eu não falava tanto, não fazia tantas promos, e foi aí que comecei a usar os casacos de ganga todos rasgados, as pinturas nos casacos e a apostar mais no aspeto da personagem. Também foi aí que houve um entendimento melhor de como é que uma character se mexe, porque é que a minha character só faz isto e não faz aquilo. Quando estava muito hyped com essa character e fui fazer um estágio de uma semana à wXw na Alemanha, o árbitro do combate que tive no último dia era o promotor da wXw e disse-me que se eu estivesse a viver na Alemanha me colocaria nos shows principais da wXw. E o que é que aconteceu a seguir? Pandemia. Então, infelizmente esse passo do Reino Unido para a Alemanha não pôde acontecer. Depois da pandemia, quando regressei ao WP, aí sim apresentei o “Sangue de Portugal”, Baltazar.
 
 

E porquê o nome Baltazar?
Com a mãe, Paula Baltazar, que não chegou a vê-lo lutar
Eu sou mesmo Baltazar, é o meu terceiro nome. É a minha grande personagem de wrestling, que eu sempre quis fazer desde que comecei e que de certa forma é uma homenagem à minha mãe, que faleceu quando eu tinha 15 anos. O nome dela era Paula Baltazar. Até achei que seria o primeiro nome que eu ia ter no ringue. Mas a dada altura o Kenzo Richards disse-me que se calhar eu deveria ter um nome em inglês, para toda a gente perceber, e pensei em Paul Baltyzer, porque não queria bem que fosse Baltazar, mas isso nunca foi para a frente. O meu foco era poder fazer aquilo que gosto, porque a minha mãe apoiava eu gostar de wrestling e até me fez uma t-shirt quando eu era puto, com o Triple H lá. Foi a minha forma de, quando senti que já tinha alguns anos de wrestling e já percebia como é que isto funciona e sabia o que queria ser, fazer uma mudança grande, tal como aconteceu ao CM Punk quando foi de “Straight Edge Superstar” para “Best in the World”. Foi naquele momento que fiz aquele clique e percebi quem eu era e o que tinha para dar ao wrestling português. Então, em homenagem à minha mãe, mudei o nome para Baltazar, que é o apelido da minha família materna, e o “Sangue de Portugal” tem a ver com o facto de ter aquele sentimento à português, especialmente porque estive lá fora e tive de me sacrificar muito para continuar a viver lá fora e estar no meio daqueles tubarões todos e mesmo assim ter sucesso. E sinto que é isso que me faz ser quem sou hoje e a minha personagem baseia-se muito nisso. Tenho aquele sangue quente de quem vai lá para fora, venho com esta atitude toda e a malta diz que se revê muito em mim. E isso para mim é o sangue português. Daí o “Sangue de Portugal”, Baltazar.
 

“Iconografia de extrema-direita? Isso vem de pessoas de baixo nível”

O habitual beijo de Tony de Portugal na testa de Baltazar
Essa gimmick, sobretudo a partir do momento em que tiveste o cabelo rapado, foi acusada de ter uma iconografia de extrema-direita…
Sim, ouvi isso de duas pessoas, que infelizmente estiveram no negócio do wrestling e que não fizeram nada se não o estragar e nunca fizeram nada para o elevar. Isso é ódio. São pessoas de baixo nível, daquelas que, se as coisas não forem como elas querem, vão dizer o que querem para rebaixar os outros. De todo, não foi essa a razão. Eu sabia que precisava de voltar a ser babyface e sou muito virado para mudanças, gosto muito de criar drama. E, na altura, infelizmente, eu já estava a ter alguns inícios de calvície – entretanto em 2025 iniciei um tratamento de plasma na Insparia do Porto e planeio ter um cabelo longo de novo pelo menos mais uma vez –, então achei por bem, já que vou ter um combate em que era campeão da APW contra o Pégaso, que era campeão do WP, e que ia perder esse combate, que seria incrível se eles me rapassem o cabelo, porque era algo que nunca vi alguém fazer no WP. Então quis criar essa cena dramática. 
Na altura eu também já sabia que ia trabalhar com o Tony, e como nós queríamos fazer esta personagem de pai e filho, tendo em conta que o Tony é careca, fazia sentido para mim explorar a ligação emocional entre pai e filho, adotando a imagem do meu pai. Daí essa nossa ligação, daí aquele beijo mítico que ele me dava na cabeça, foi somente por causa disso. Por isso, essas bocas todas que circularam na internet… é tudo mentira, é estupidez. Mas cada pessoa tem a sua opinião.
Eu sou muito “Be Yourself, By Yourself, Stay Away From Me”, que é um refrão da música Walk dos Pantera. Fiz só o meu trabalho. Havia pessoas que não gostavam do meu trabalho, há pessoas que não percebiam a minha personagem, e qualquer coisa que pudessem fazer para me rebaixar, tentavam fazê-lo. Felizmente, essas pessoas já não se encontram no wrestling português e, se não se encontram, por algum motivo é. É que essas pessoas não só tentaram fazer-me mal, como também tentaram fazer mal a outros lutadores e outras organizações, mas, felizmente, essas pessoas e organizações já não estão cá. E o wrestling português nunca esteve tão bem.
 
Baltazar e João Milão defrontaram-se em 2024
Dois dos elementos da equipa criativa da APW na altura, Cougar e PoD, opuseram-se à ideia de te sagrares campeão, a 1 de setembro de 2023, em grande parte por te considerarem imprevisível nas redes sociais e alguém sem bom senso nem noção e por, em personagem, teres feito trocadilhos homofóbicos contra João Milão em stories do Instagram. Como ficou essa situação?
Resolvida na altura. Era uma decisão que já estava tomada por altura do show anterior, mas eles tentaram convencer o Tony a não tornar-me campeão da APW e qualquer coisa que eu fizesse até lá serviria para sustentarem que seria a decisão errada. Neste caso, os porta-vozes foram esses dois que mencionaste, o “Goldenboy” Santos e outras pessoas que faziam parte do grupo deles, que tinham perfis nas redes sociais que eram fechados e decidiram abrir ao público para revelar o booking que ia acontecer na APW. Toda a gente sabe que, dentro do business, isso é uma coisa que não se faz. E disseram essas coisas todas que são mentira. Claramente, eu e o Milão somos possivelmente os melhores amigos dentro do wrestling e foi tudo feito com consentimento um do outro, ele também é vegan e é o único wrestler em Portugal com quem posso partilhar comida. Comecei a minha carreira com o Milão e nós só queríamos ter uma storyline na qual fosse possível tocar em algo que é importante para ele, que é ser gay, e que ele quer incorporar na sua personagem, daí entrar com a bandeira LGBTQ, mas teve sempre muito receio de trabalhar sobre esse tema. Porquê? Porque todos os lutadores que trabalhavam com ele tinham muito receio que pudesse dar merda. Vamos ser honestos! Eu não. Porque sei quem é o Mauro e ele sabe quem é o João. E percebemos que estamos a interpretar characters, estamos a trabalhar e há um pay off. Eu e o Milão somos bons amigos há muitos anos e ambos tínhamos falado um com o outro sobre os limites que podíamos tocar para que ninguém ficasse magoado.
A atitude deles magoou-me bastante. Aliás, nessa altura o Milão até estava afastado do business e devido a isso não pôde vir falar do assunto. No entanto, muitos dos outros lutadores sabiam que eles não estavam a ser corretos e durante o evento vieram falar comigo a dizer que lamentavam a situação, mas que tudo se iria resolver. Eu fiz o meu trabalho. Dei um combate incrível ao Vítor Amaro e saí de Portimão campeão nacional da APW. Tentei também falar com as pessoas que me fizeram mal e sabes o que aconteceu? Zero resposta. Ou seja, isso mostra mais de quem eles são como pessoas do que eu. Mas por um lado ainda bem que isto aconteceu. Olha como está o wrestling português hoje: num sítio muito melhor.


Um exemplo perfeito de pay off foi quando, num show da APW, o Tony mandou a Cláudia para a cozinha. E a Cláudia deu-lhe nos cornos, pôs o Tony numa submissão e o público ficou completamente maluco. E as pessoas disseram que adoraram aquilo, que foi mesmo fixe, porque é isso que o wrestling é. Quem não conseguir perceber o que é uma personagem e o que é vida real se calhar não devia estar no wrestling.
Outro exemplo perfeito: quando tirei o curso de teatro, tive um professor que teve de fazer de Hitler numa peça. Ele odeia o Hitler, mas a peça de teatro exigia que ele interpretasse o Hitler. Ele teve de usar o bigode, o cabelo e o uniforme e aprender umas frases em alemão. A pessoa não é apoiante dos nazis, mas estava a fazer um trabalho no qual era a sua personagem.
E no wrestling é exatamente a mesma coisa. O Milão adorava poder ter uma storyline mais controversa porque ele gostava de trazer mais malta dessa comunidade para o wrestling. Tivemos o que tivemos, fizemos o que fizemos e correu bem. Mas se calhar não foi a storyline que ambos queríamos. Queríamos puxar um bocadinho mais. Depois as promotoras também têm de aceitar que esse trabalho seja feito, porque existem dois tipos de pessoas no mundo: com medo e sem medo. Tenho uma tatuagem à volta do pescoço que diz “Those afraid to die will never truly live” (“Aqueles com medo de morrer nunca vão realmente viver”). Gosto de mandar-me de cabeça às cenas. Dá porcaria, dá porcaria. Somos seres humanos, evoluímos. Tenho muita pena que muita gente achasse que o Mauro era aquilo. Quando realmente não sou de todo. E a minha personagem nem faz nada que fosse drástico, foi inteligente na escrita construtiva que utilizou. E serviu de trigger [gatilho] para algumas pessoas: paga bilhete que é para veres o Milão a partir-me a boca. Estamos a fazer o nosso trabalho como wrestlers.
Outro exemplo perfeito é que hoje em dia não podes chamar gordo a ninguém. Mas na AEW tens o MJF a chamar os fãs de gordos e é um gajo que tem evoluído na carreira, em 2025 e 2026, a ofender toda a gente, tanto nas redes sociais como na televisão. E o que é que os fãs disseram? “Porra, finalmente um heel como deve ser.” E é isso que adoro no pro wrestling, ter a possibilidade de ser uma personagem que existe neste mundo, que não é real, mas é real naquele momento e naquele sítio.  E posso criar estas emoções. Umas positivas e umas negativas aos fãs que pagaram bilhete.
Para mim o importante é: gerar emoções e fazer as pessoas estarem interessadas no que se está a passar. Já o Eric Bischoff dizia: "Controversy Creates Cash". E esse é o objetivo.
  
Baltazar considera ter elevado Título da APW 
O Título Nacional da APW foi o único que conquistaste em Portugal e o cinturão foi teu durante 778 dias, até 18 de outubro de 2025. Que balanço fazes desse longo reinado?
Acho que foi um ótimo reinado. Um elogio que recebi da própria malta da APW foi que não fui um campeão de sofá. O que é que é um campeão de sofá? Aquele que recebe o título e não faz nada com ele. Eu fui a podcasts, a programas para o YouTube, tirava fotos, fazia vídeos e viajava com o título. Pegava no título e certificava-me que as pessoas sabiam que aquele título representava a APW. Não só isso, como tive combates incríveis na defesa do título nacional da APW. Acho que trouxe um grande prestígio ao título nacional da APW. E é isso que para mim um campeão tem de ser.  O Vítor Amaro, infelizmente devido à pandemia, não teve a possibilidade de fazer isso. O teu trabalho como campeão é elevares o título e elevares a companhia. A APW estava a recomeçar quando voltei e neste momento está num pico gigantesco. Muito disso, e digo isto não de forma egocêntrica, deve-se a conversas que tive com as pessoas da APW – não as do booking – que tomam decisões sobre a necessidade de fazer mais eventos à noite e haver mais luzes. E no último show da APW, no qual infelizmente não estive presente, acho que tiveram a maior casa em muitos anos e foi um show incrível. Houve o combate entre o Tony e o Vitor Amaro, o último combate da carreira do Vítor Amaro, e foi espetacular. É exatamente isso que tem de ser feito. E acho que vês isso muito pelo trabalho dos meus alunos: é passar-lhes exatamente que têm de ser estrelas de wrestling, têm de se carregar como tal, com belt ou sem belt. E espero que um dia, quando um deles ganhar o título da Invicta Wrestling ou de campeão do Norte, eles se carreguem dessa forma e levem o título a patamares que se calhar ninguém alguma vez levou em Portugal.
 

“Ignorar o que acontece nas outras promotoras é parolo”

Pégaso e Gomes raparam o cabelo a Baltazar
Paralelamente, num dos momentos mais marcantes da tua carreira, no WP Batalha dos Campeões, a 26 de novembro de 2023, a Alcateia rapou-te a cabeça após seres derrotado por Pégaso num combate pelo Título Nacional do Wrestling Portugal. Foi ideia tua, portanto?
Sim. Posso dizer as últimas ideias, que são sempre em colaboração, não quero ficar com os créditos todos. Desde que regressei ao WP, especialmente desde esse momento em que me raparam a cabeça, tenho tido a possibilidade de ter conversas sempre muito abertas com os promotores de todas as empresas para as quais trabalho, porque eles verificaram que estou aqui para trabalhar em conjunto e que sou uma mais-valia para fazer eventos com eles. Não só isso, mas também a existência da Invicta Wrestling, trazer o wrestling para o Porto. Aquilo que normalmente tenho escrito tem funcionado muito bem. É a minha vertente de booker. Ou seja, sim, foi minha ideia que o meu cabelo fosse rapado. Sim, foi minha ideia juntar-me ao Tony para fazer a storyline do pai e do filho. Queres que eu diga mais coisas? Por exemplo, foi minha ideia fazer este longo período para termos esta história incrível com a Stuciedade, de dropar o belt e o Baltazar depois poder voltar como babyface e ter a "bingança" contra o Tony de Portugal. E também muitos desfechos noutros eventos de wrestling.
Existe sempre uma grande colaboração entre mim e os promotores de WP, APW e Wrestlefest, porque não vemos os eventos como um evento único. Vemos o que vai acontecer daqui a seis meses. Quais são os papéis? O que é que gostávamos de fazer? Como é que chegamos lá? Qual é que é o payout? Então, é muito importante para mim, também na minha carreira de wrestling, conseguir ter momentos marcantes. Lá está, não sou fã de fazer wrestling só porque sim. Se me disserem assim: “olha Baltazar, vem ao WP e vem aqui ter um combate com o Ricky Boy”. Eu pergunto: “ok, mas qual é que é o objetivo? É um combate só porque sim? Qual é a história que querem criar? Quem é que sai por cima e porquê? O que vai acontecer ao Ricky Boy depois? O que pretendem que o nosso combate tenha para que ambos possamos sair daí com algo para trabalhar no futuro?”. Existindo isto, é muito fácil para mim conseguir ter um papel no wrestling português, em que sigo uma linha em tudo o que faço, com uma lógica, mesmo que em companhias diferentes. Para mim é o mais importante. Eu vejo Portugal como a WWE e vejo APW, WP, Wrestlefest e Invicta como Raw, SmackDown e NXT. Porque toda a gente sabe o que é que acontece nos outros sítios. Por isso, completamente ignorar é só parolo.
 
 




 
 



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