sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Baltazar: “Foi-me dito que ia ser campeão do WP e da APW em simultâneo” (Parte 3)

Baltazar foi eleito lutador do ano nos prémios "Hoje Falo Eu" em 2023 e 2024
Esteve um ano sem ser bookado para o Wrestlefest e viu, à última hora, serem abandonados os planos para ganhar o título que faria dele campeão da APW e do WP em simultâneo, na sequência de “boatos”, situações visivelmente ultrapassadas com a parceria com a Invicta Wrestling e a vitória no Torneio Tarzan Taborda de 2025.
 
Na última parte desta entrevista, Baltazar fala sobre a causa vegan, explica as origens das suas catchphrases, recorda o “treino superagressivo” às ordens de Gunther na wXw, revela uma história na praia com Tony de Portugal nas semanas que antecederam a “Bingança!” e desvenda com quem mais gosta de trabalhar e quem quer muito defrontar, entre eles alguém que atualmente tem algo “bastante aliciante”.
 
DAVID PEREIRA - É verdade que os planos iniciais apontavam para que te sagrasses campeão nacional do WP e igualasses o feito do David Francisco de carregar os dois títulos nacionais? O que aconteceu para os planos mudarem e como lidaste com isso?
BALTAZAR - Foi-me dito que eu ia ser campeão do WP e da APW e que ia ganhar os títulos no mesmo fim de semana ou no espaço de poucas semanas, mas infelizmente devido à situação que já mencionaste [ver segunda parte da entrevista] isso não pôde acontecer. E descobri isso com 24 horas de antecedência. Se fosse para acontecer o que estava previsto, eu teria feito o papel do Pégaso, por assim dizer, e se calhar não teria sido o Pégaso o vilão, teria sido o Baltazar, e se calhar o Pégaso seria o babyface da história. Mas sou um team player. Eles explicaram a situação. O WP também tem uma forma de ver as coisas um pouco diferente: o campeão do WP tem de ser alguém presente nos treinos. E percebo porque, não estando a residir em Lisboa, não é uma prioridade minha ir ao WP constantemente. Mas é sem dúvida um título muito importante para mim, porque foi no WP que dei os meus grandes primeiros passos, e adorava poder ter a possibilidade de um dia lutar pelo título do WP e tornar-me campeão do WP.
 
Baltazar a caminho do ringue num show do Wrestling Portugal
Portanto, tudo foi por água abaixo devido a uma interpretação da tua gimmick
Sim, devido aos boatos falsos que foram emitidos sobre a minha pessoa. Eles ficaram, não com receio, mas na altura havia muita gente que era muito sensível. Estas porcarias de discussões nas redes sociais, como vídeos, stories e isso, é tudo merda. Se têm tomates, falem na cara. Infelizmente muita dessa gente não fala na cara e depois quando te veem pessoalmente apertam-te a mão e baixam a bolinha e são uns conas do caralho. Não gosto desse tipo de seres humano, o WP explicou o seu lado e eu respeitei e fiz o meu trabalho à mesma. Estou super bem com o WP e é um sítio incrível também para os meus alunos terem combates.  Ou seja, o que aconteceu, aconteceu, e provei nos últimos dois anos, especialmente desde a fundação da Invicta Wrestling, que sou uma mais-valia para o wrestling português. Não sou eu que estou a dizer, as pessoas é que me têm dito. Sim, sou doido da cabeça, mando-me de cabeça, sou muito exigente com os meus alunos, berro e digo asneiras, mas sou uma pessoa extremamente apaixonada pelo wrestling e tenho tatuado na minha barriga “Amor” a negrito, numa letra forte porque é exatamente isso que sinto pela vida, especialmente pelo wrestling. Quem está mal pode vir falar comigo pessoalmente e nunca tive problemas de falar cara a cara com alguém, mas não alimento tweets e posts e stories no Instagram porque essa gente é escumalha, são pessoas fracas que não têm aquilo que é preciso para falar na cara, e posso dizer abertamente que muitas dessas pessoas que me fizeram mal estiveram à minha frente, olhos nos olhos, e não abriram a boca uma única vez, ou seja, pessoas dessas não quero na vida. É mandá-los para o lixo.
Se eu fosse má pessoa não estava onde estou hoje, não tinha o respeito das pessoas que tenho hoje, não tinha conseguido fazer os eventos que fiz, não tinha conseguido formar os alunos que formei, porque a grande diferença que eu sinto que existe hoje e que existia há uns anos atrás é que hoje tens coletivos que querem ter sucesso, não tens indivíduos que querem ter sucesso à pala de outros. São coisas completamente diferentes.
A Lina Hero diz isto muito bem: “a Invicta Wrestling é uma família.” Sou muito rígido com os meus alunos, se tiver de dizer que o que ele fez foi uma merda, vou dizer; se tiver de dizer que eles não estão focados e que têm de se ir embora porque hoje não estão bem para treinar, eu vou dizer; mas é por causa disso que tenho o respeito que tenho dos meus alunos. É porque sou honesto e direto com eles. Quando os meus alunos percebem a minha história e o que tive de fazer para hoje poderem ter dois e eventualmente três treinos por semana e ter conseguido comprar o ringue sem a ajuda de ninguém, só poupando dinheiro, só para lhes fornecer as oportunidades que estão a ter – o Arménio já foi lutar ao Reino Unido e outros certamente vão seguir os passos dele, não só no Reino Unido, mas noutros países da Europa –, o que sinto é o respeito dos meus alunos, das pessoas com quem partilho o ringue e das promotoras que me escolhem para trabalhar com elas.
 
Baltazar e "Knockout" defrontaram-se no Lisboa Wrestlefest 2
Mais ou menos nessa altura, chegaste a estar um ano sem ser bookado para o Wrestlefest. O que se passou?
Foi um bocado devido à mesma situação. Como é do conhecimento geral, houve problemas internos no Wrestlefest com essas entidades e até houve uma expansão do que era o Wrestlefest e o que era a outra companhia [Dream Pro], que só fez um evento e acabou. Assim que o Wrestlefest viu o erro que foi cometido em relação à minha pessoa e que as pessoas que lhes fizeram mal foram mandadas fora porque também falharam com o Wrestlefest, a primeira coisa que fizeram foi pedir-me desculpa, daí trabalharmos juntos no Porto. Daí voltei após o combate entre o Milão e o “Knockout” [no Almada Wrestlefest 2, a 9 de março de 2024], desafiei o Paulo e o main event do Lisboa Wrestlefest 2 foi Baltazar contra Paulo “Knockout” Cruz. Por isso, acho que está mais do que esclarecido. Acho que toda a gente que veja a história por fora consegue claramente ver que neste momento o wrestling em Portugal está incrivelmente bem. Porquê? Porque finalmente fomos capazes de eliminar os problemas que existiam.
 

Torneio Tarzan Taborda foi, se calhar, um pedido de desculpa”

Baltazar após vencer o Torneio Tarzan Taborda
Ainda enquanto campeão da APW venceste o Torneio Tarzan Taborda, do Wrestling Portugal, em 2025. Que peso teve para ti essa conquista, sobretudo tendo em conta o que se havia passado dois anos antes?
Ter tido essa vitória foi uma forma do WP me agradecer por tudo aquilo que fiz por eles, por os ajudar e também uma forma de valorizarem o meu trabalho. E, pode dizer-se que, se calhar, foi um pedido de desculpa. Lembro-me perfeitamente de o promotor na altura dizer-me que não ganhei o título devido àquela situação, mas que merecia ser o vencedor do Torneio Tarzan Taborda e que era essa a forma de eles mostrarem o quanto me valorizam. Essa vitória foi muito importante para mim porque não sabemos o futuro, não sei se alguma vez vou ganhar o título do WP, mas eu já queria fazer uma storyline na qual podia mencionar o nome da minha mãe, o porquê do nome Baltazar, e foi isso que fiz na promo que apresentei contra o Damião. Nesse dia usei uma música que a minha mãe gostava muito e eu também, que é Hearts Burst into Fire dos Bullet for My Valentine. Quem viu as imagens e esteve lá sabe que eu estava extremamente emocionado, tinha lá muitos familiares, incluindo a minha avó, e poder oferecer aquela vitória em homenagem à minha mãe, em frente à minha avó e deixá-la orgulhosa… é uma mulher incrível, que odeia wrestling e ver-me sofrer, vê os shows com o coração nas mãos e recentemente teve um AVC, mas mesmo tendo de levar umas injeções diárias e mesmo de bengala, foi ao Porto Wrestlefest: Bingança! Isso para mim, at the end of the day, é o que conta. Um dia que vá ao Google ou ao ChatGPT perguntar quem foi o lutador de wrestling Baltazar, vai aparecer que homenageei o nome da minha família materna.
 
 

Recentemente, no evento Batalha Final 7, do Wrestling Portugal, a 14 de junho deste ano, foste um dos protagonistas de um combate insólito, frente ao “Auditor” Artur Carvalho, que ficou marcado por o facto de as calças do teu adversário não lhe saírem das pernas, uma situação que vocês geriram com grande desenrascanço. O que te foi passando pela cabeça durante o combate? Certamente teriam planeado uma coisa, mas apareceu um inusitado obstáculo no caminho…
Uma coisa que me ensinaram é que só existe um problema e os fãs só vão perceber se tu mostrares. Estou sempre a dizer isto aos meus alunos. Não existem erros quando a ação é óbvia e só tens um take. É aquilo que vais fazer que vai demonstrar se houve porcaria ou não. Aquilo aconteceu, segue o jogo. A única coisa que eu disse ao árbitro foi para pedir a alguém que fosse lá atrás buscar uma tesoura. E felizmente o árbitro conseguiu passar essa informação. Entretanto, no combate o Artur até levou um wheelbarrow armdrag enquanto tinha as calças presas e aquilo ficou incrível: ele com as calças presas a voar por cima de mim. Depois ele cortou as calças enquanto eu estava a vender e seguiu jogo. Acho que estivemos super bem porque pegámos em algo que podia realmente arruinar o combate e acho que só adicionou, porque acho que ninguém que esteve lá naquele dia se vai esquecer.
 
 
Baltazar e a sua legião de fãs num show do WP
Voltando à tua gimmick. Vê-se que te preocupas muito com aspetos que vão além do trabalho em ringue, até porque tens algumas das catch phrases mais famosas do wrestling português, como “O Baltazar fica sempre em pé!” ou “Ou te portas bem ou porta chaves”. Como é que surgiram essas frases?
Isso deve-se muito ao Ruben Branco, porque na altura eu queria ter um nome diferente de Mauro Chaves e ele disse-me que não, porque eu era conhecido pelos meus amigos e pela minha família por Mauro Chaves e o meu nome é Mauro Chaves, e que eu tinha era de trabalhar a gimmick. Na altura a minha roupa tinha lá um logotipo com um cadeado e uma chave porque, sendo Mauro Chaves, tenho as chaves para sair de tudo, mas tu não tens. Há um dia em que eu estava a agarrar as minhas chaves e a rodá-las e, sendo o meu finisher uma variação de um Cross Rhodes, em que faço aquele movimento de rotação por baixo do meu oponente e ele cai de cabeça, que é o mesmo movimento de um porta-chaves, na brincadeira, não sei bem como, sai a frase “ou te portas bem ou porta-chaves”. Rimos, é parolo, é engraçado, mas a forma como eu dizia aquilo fazia as pessoas conectarem-se por algum motivo. As minhas primeiras t-shirts, a verde e branco, já com a personagem do ativista vegan, diziam à frente “ou te portas bem” e atrás “ou porta-chaves”. E vendiam. A malta achava isso super engraçado. 
Em todas as personagens que fiz há sempre uma catchphrase em t-shirts. A do ativista era “Kale Them All”, que era um trocadilho de “Kill Them All”, porque eu tirava couve das cuecas e punha na boca dos meus oponentes; e a do “Disgusting” dizia “Disgusting” porque o que eu dizia às pessoas “You Are Disgusting!” e colou.
Depois há uma história engraçada que não vou elaborar muito por respeito, mas na altura estava a dar-me com uma certa mulher e tínhamos tirado um fim de semana para passar juntos. Estávamos num quarto de motel e achei muito engraçado, tendo em conta que ia ter um combate com o Duarte Silva, fazer uma catchphrase que tivesse aquela temática. Sendo eu um vilão, queria ser arruaceiro, badalhoco por assim dizer, e disse que tive de parar a minha sessão de cardio porque ia ter um combate com ele e, como era um Last Man Standing, para ela saber que o “Baltazar fica sempre em pé”. E acabou por funcionar muito bem no wrestling, porque as pessoas gritam “sempre em pé” sempre que eu, como babyface, estou no chão, e acaba por ser o meu momento “Hulk Up”.
 
 
Baltazar sempre em... trunks
Quando se fala no homem Mauro Chaves, é inevitável falar de uma das tuas causas. És um ativista vegan, que não usa produtos animais no vestuário e na alimentação, e transportaste isso para o wrestling, quando adotaste a gimmickThe Activist” e chegaste a customizar um título para não ter cabedal, que é feito com pele de vaca. É algo que ainda se mantém? O que te move com esta causa?
Sou vegan há 12 anos. No wrestling já não tens de ser um grande bicho e ter um grande caparro, nem fazer dietas à base de muita carne e muito peixe e muito whey protein e essas coisas todas. A verdade é que já não estamos nos anos 1980. O mais importante hoje em dia no wrestling é ter um aspeto minimamente aceitável, que eu admito que não tenho. Acho que o aspeto à wrestler tem mais a ver com aquilo que trago, como usar cuecas, joelheiras, kick pads ou os casacos, coisas mais old school. Tirando eu e o RAFA, acho que não existe mais alguém que utilize mesmo cuecas, os conhecidos trunks. O Damião acho que já usou, o Mestre e o Stefan Stu também, mas quem iniciou isso em Portugal, que eu tenha conhecimento, fui eu. Não me lembro de ver mais alguém. Dois dos meus lutadores favoritos que usavam eram o CM Punk e o Triple H. O Ric Flair, Randy Orton e Batista também usavam, assim como tantos outros lutadores dos anos 1980. Para mim é isso que diferencia um wrestler, usar umas cuecas e umas joelheiras. Não vão dizer que sou um pugilista. Sempre achei isso muito fixe, além de que faz com que eu tenha muito mais mobilidade, pois posso mexer-me à vontade e não há nada preso em nenhum lado.

Com o título da LLL personalizado
E sobre o veganismo?
Sobre o veganismo, em 2014 tive uma namorada que era vegetariana e mostrou-me um documentário de um homem chamado Gary Yourofsky no YouTube, uma palestra numa escola em Nova Iorque, na qual ele basicamente explica o que é o veganismo e mostra-nos o que é que acontece aos animais para que nós os possamos consumir e que tu só vais consumir porque alguém os trata dessa forma e os coloca no supermercado. Nessa palestra há uma frase que ele diz que eu usava na minha música em Inglaterra como ativista que era que era: “If it's not good enough for your eyes, it's not good enough for your stomach”, ou seja, “se não é bom para os teus olhos, não é bom para o teu estômago”. No momento em que ele diz isso mostra o que é feito aos animais para que nós os possamos consumir e eu senti uma raiva muito grande dentro de mim. Senti que durante muitos anos ninguém me tinha explicado de onde é que vinha o alimento e eu também nunca tinha questionado, mas depois de ver essa realidade decidi que não queria continuar a apoiá-la e virei vegan. Os primeiros meses foram bastante complicados, perdi muita massa magra. Estava muito, muito magro e nota-se uma diferença do WP Academia 1 para o WP Academia 5. Eu não sabia comer, não percebia nada de nutrição nem de ginásio, mas depois com o tempo e com o conhecimento de lidar com personal trainers vegan, é que descobri onde é que tenho de ir buscar as proteínas e essas coisas todas.
Neste momento tenho 86 kg, muita bela gordura –, ainda por cima vivo no Porto e adoro comer francesinhas, como uma por semana, no mínimo –, mas fisicamente nunca me senti tão bem.  Consigo fazer aquilo que quero, que é ser lutador de wrestling, consigo levantar os meus adversários e tenho caixa suficiente para fazer combates com mais de 20 minutos, por isso, sinto-me super bem. Mas isto não é a “Final Form” do Baltazar, pretendo dar mais uma run a esta minha character e quero ter um aspeto melhor, mas o meu tendão de Aquiles é que sou muito preguiçoso. Digo isto abertamente: vês-me treinar wrestling e levo aquilo super a sério: se são 100 flexões são 100 flexões, se são 100 agachamentos são 100 agachamentos, se são 100 set go são 100 set go. Mas depois também gosto de mandar vir a minha pizza, de comer a minha francesinha e de beber o meu fino, a minha caneca e o meu vinho do Porto.
 

 
Num show da wXw em fevereiro de 2020
Além de Portugal e Reino Unido, também já lutaste em Espanha, França e Alemanha. Que recordações tens dessas experiências internacionais e o que se segue internacionalmente para o Baltazar?
O Reino Unido era a minha casa. Era espetacular, porque para quem segue wrestling sabe que lá há muita história de wrestling. O chain wrestling, o british wrestling, existe há muitos anos lá, então há muitas escolas de wrestling, muitos seminários a acontecer com ex-estrelas da WWE, e era muito fixe porque se pode aprender com malta que realmente vive disto e viveu disto, e isso para mim era a parte mais gratificante. E havia vários eventos de wrestling a acontecer todos os meses, às vezes quatro por semana. Participar era incrível.
Depois nos outros países, fui chamado para lutar em França, Espanha e Alemanha com tudo pago, fui valorizado pelo meu trabalho e por aquilo que sempre fiz, e isso para mim mostra que eu estava no caminho certo. Por exemplo, quando fui à Alemanha fazer uma semana na wXw, enviei mensagem à German Wrestling Federation para ver se conseguia lutar no show deles, que era uma semana antes, e eles pagaram-me os voos e o hotel, estive num evento em que o Carlito estava no main event [a 8 de fevereiro de 2020] e partilhei o quarto com o A-Kid, que agora é o Axiom na WWE. Ou seja, genuinamente experienciei a vida de wrestler. Até tive um fim de semana em que lutei em Barcelona no sábado e em Paris no domingo [21 e 22 de setembro de 2019]. Isso para mim foi mágico, estar mesmo a viver o sonho de ser lutador de wrestling: avião para aqui, match, avião para aqui, match. Foi incrível.
A experiência na Alemanha, aquela semaninha na wXw foi super demanding. Estive com os treinadores que estavam lá na altura e na quarta-feira apareceu o Walter (Gunther na WWE), que nos deu um treino superagressivo, no sentido em que se tem de estar muito atento, porque o ringue é realmente sagrado, e se não estás lá para fazer um bom trabalho, vais-te embora. Foi, mais uma vez, um bocadinho aquele que feeling que tive no seminário com o Ospreay. Foi super gratificante.

Fotografia da praxe após o treino desta quinta-feira
E agora és tu a passar conhecimento...
Acho que essas bases todas que tive foi o que me deu confiança para abrir uma escola de wrestling no Porto, a Invicta Wrestling, sem ringue, a treinar em tatamis e mesmo assim conseguir produzir até este momento 12 pessoas novas para o wrestling: o André e o Hugo, que são os meus árbitros; e depois lutadores que se juntaram, como o “Sexy” Killroy, de Braga; e alunos que formei do zero, como a Lina Hero (que também treina várias vezes no WP), o Lima, o Valentino, o Drago G, o Pedro Ferraz, o Arménio “Botas Fofas”, o Daniel de Pombal, o Goddamn Guerra, o Almeida e o Luís Jorge.
O Luís Jorge veio do mundo das redes sociais, e juro que se me derem mais uns meses as pessoas vão realmente ver um grande trabalho da parte dele. Infelizmente, ele estava magoado no Porto Wrestlefest: Bingança!, mas mesmo assim na sexta-feira e no sábado estava lá de manhã para ajudar a montar tudo, fez a sua performance com o Gomes, teve uma entrada espetacular e um momento de comeback incrível, que fez as pessoas todas ali saltarem e acreditarem que ele conseguia vencer o Gomes, mas infelizmente ainda não foi desta.
 
Baltazar nas instalações do Ideal Clube Madalenense
E o que se segue internacionalmente para o Baltazar?
Este ano vou fazer a minha estreia nos Países Baixos, em outubro, o que será anunciado em breve, e vou voltar ao estrangeiro. A partir de setembro vou viver do wrestling. Esse evento nos Países Baixos é um festival de três dias e o booker é o antigo booker da wXw, que é um nome bastante grande, e a empresa é a Live Action Wrestling, que funciona um bocadinho como a Lucha Britannia, que marca presença em eventos grandes. Isto vai ser um festival, então se calhar haverá 5 mil ou 10 mil pessoas a ver show. E vou lutar para aí seis a oito vezes, combates mais curtos, mas gosto muito disso. Gosto muito de ir a festivais e trabalhar um público que se calhar não é público de wrestling e torná-los fãs de wrestling. Ter tido esta possibilidade de ser chamado pelo meu trabalho, porque gostam da minha interação com os fãs, o meu trabalho de promo e isso tudo, e pode ir ao estrangeiro lutar esses três dias num festival é incrível.
Depois disso, pretendo regressar ao Reino Unido, é algo de que tenho muitas saudades. O meu passaporte caducou, tenho de fazer um novo, mas este ano com jeitinho ainda consigo voltar a lutar lá e fazer algo que para mim é importante, que é aprender. Quero voltar a fazer mais seminários, ir a escolas novas, criar ligações na Europa com outras empresas e neste momento já existem conversas com França, Bélgica e Inglaterra e quero expandir. Quero, daqui a um ano, no próximo verão, que a Invicta Wrestling esteja associada a seis ou oito promotoras de wrestling da Europa para que os meus alunos possam ir lá e os lutadores de outras empresas possam vir a Portugal e ter um sítio onde lutar.
 
Com quem entendes ter melhor química em ringue?
Adoro trabalhar com o Pégaso, que para mim é o melhor lutador do WP pela forma como carrega a personagem, o trabalho de promo e a capacidade de interagir com as pessoas, que é muito parecida com a minha. Qualquer oportunidade que tenha de trabalhar com ele é espetacular. É uma pessoa que é muito fácil de trabalhar, é só conversar um bocadinho e dizermos “olha, gosto da ideia, parece-me bem”, vamos lá para fora e sentir o público. Ele não tem medo de arriscar, é como eu, e isso é incrível. Quando fizemos aqui o primeiro Porto Wrestlefest e defendi o título da APW contra o Pégaso e fizemos o spot da Super Bock e da Sagres, foi espetacular. A reação foi incrível, ele fez um trabalho incrível e estou desejoso de o trazer novamente aqui ao Porto.
 
 
Depois, lá fora trouxe de volta o Greg Burridge aos ringues, numa altura em que ele só estava a dar treinos. Ganhei o título e ele, de surpresa, disse que a primeira defesa seria contra ele. Não sabia, fiquei chocado e poder ter partilhado o ringue com ele, que me ensinou tanto e é uma pessoa que valorizo mesmo muito, foi importante. Acho que nunca apanhei tanta porrada na minha vida como nesse match: chapadas, Uppercut com uma velocidade surreal e muitos Suplexes. Mas adorei trabalhar com o Greg, foi espetacular.
 
 
Lutei com muita gente, até é um bocadinho difícil para mim referir mais nomes.
Adoro trabalhar com a Stuciedade como um todo, porque os três têm muito a entregar. Acho que tive combates incríveis com o Stefan e o Michael Stu, acho que são pessoas que finalmente se encontraram no wrestling e a Stuciedade é uma stable que, a meu ver, reúne os vilões em Portugal e juntamente com o Tony fizeram um trabalho incrível neste último ano.
E gostei muito de trabalhar com a malta da London School of Lucha Libre. É mais fácil assim para mm, porque há tantos nomes: Buffalo Soldier, Darcy Stone… muita gente com quem trabalhei na Lucha era incrível na performance e eram superseguros naquilo que faziam, mas ao mesmo tempo pareciam umas máquinas de guerra e deixavam-me sempre de coração cheio.
E, em último lugar, o Tony de Portugal. Era um sonho poder partilhar um ringue com ele e não sabia como é que ia ser a nossa química. Até te vou contar uma história nossa: passei umas férias no Algarve antes do Porto Wrestlefest: Bingança! e por acaso encontrei-me com o Tony. Estávamos na praia e ele estava com um bocado de receio porque não sabia se conseguia levantar estes 86 quilos vegan, então ele levantou-me para um Body Slam e por acaso fui de cabeça ou chão ou à água, porque ele escorregou. Pensámos: “porra, isto vai correr muito mal”. Mas não, correu tudo super bem.
Também quero dar aqui uma menção honrosa ao Damião. Tenho duas vitórias sobre ele e acho que o Damião é um grande talento português. Há tantos nomes, mas acho que o Damião vai fazer grandes coisas por ele e por Portugal. E é uma pessoa com quem tenho sempre uma grande química e acho que com a idade que ele tem, 21 anos, já estar onde está, já ter feito as coisas que fez... acho que vai ser um grande nome do wrestling português.
 
E de que combates mais te orgulhas?
O do Tony está no topo da lista. Foi incrível.
Ia dizer a final do Torneio Tarzan Taborda que ganhei, mas tanto eu como o Damião saímos de lá magoados. Então, só por causa disso, não vou dizer esse, mas gostei muito.
Adorei o combate com o Stefan no qual perco o título. Acho que foi um dia de revolta em Portugal e que criámos algo que ainda não tinha sido criado em Portugal.
 
 
Ou seja, Tony, Stefan e vou meter também o Damião no Wrestlefest, quando lutámos pelo Título da APW, porque gostei muito de trabalhar com o Damião nesse combate.
 
 
E, em Inglaterra, tive um combate em Camden Town, no Roundhouse. Estavam lá cerca de duas a três mil pessoas e entrei como campeão da Lucha Britannia. Eu era o Triffidos, em equipa com o Greg Burridge, contra o Cassius e o Callum Newman, que estava a fazer a personagem do Ospreay, o Pure Britannico. O Cassius era o Cassius e o Greg fez a sua personagem de Metallico, tipo homem do metal, mais ou menos robô.
 
 

Leo Rossi tem algo bastante aliciante para mim neste momento, que é o Título Nacional Absoluto

Baltazar nunca defrontou Leo Rossi
Por outro lado, com quem é que no cenário português gostavas de lutar entre os que nunca defrontaste?
Estou muito entusiasmado por lutar com os meus alunos. Há pessoas ali que mexem comigo num sentido emocional muito positivo. Quero muito partilhar o ringue com o Daniel de Pombal, o Arménio “Botas Fofas”, o Lima, o Goddamn, o Almeida, a Lina Hero, o Valentino, o Killroy… com todos, toda a gente que formei. Quero fazer aquilo que o Greg fez por mim e partilhar o ringue com eles. Se eles lerem esta entrevista, é bom que estejam prontos porque vou bring out the best of them. Quero dar porrada a todos, especialmente ao Pedro Ferraz, que diz muita porcaria nas redes sociais e alguém precisa de o calar. É alguém que quero, sem dúvida, partir a boca mais do que uma vez.
Gostava muito de ter um singles match com o RAFA. Já lutei com o RAFA antes, mas gostava de lutar com este RAFA 2.0. 
Também nunca lutei com a Cláudia e gostava muito, mas a pessoa com quem, no wrestling português, mais quero ter um combate é o Leo Rossi. Nunca aconteceu. Acho que vai ser um combate incrível quando acontecer. Ele tem algo que é bastante aliciante para mim neste momento, que é o Título Nacional Absoluto do Wrestlefest. Acho que quando o Baltazar e o Leo Rossi se enfrentarem, vai ser um daqueles combates que muita gente vai querer estar presente para ver, porque estamos a falar de dois wrestlers que fizeram muito pelo wrestling português, com backgrounds parecidos. Ele acha que é o dono do trono, mas toda a gente sabe que aqui, especialmente no Porto, sou o rei. E se tiver de ir à margem sul dar um enxerto de porrada e partir a boca ao Leo Rossi para lhe tirar o título e mostrar que o trono pertence ao Baltazar e não ao Pai Grande, vou fazê-lo.
 
Falta uma defesa de título ao Leo Rossi até ao final do ano. Pode ser o Baltazar a defrontá-lo?
Pode ser o Baltazar. Temos de esperar para ver. Mas gosto dessa ideia: Baltazar vs. Leo Rossi pelo Título Nacional Absoluto do Wrestlefest.
 
Na entrevista que me concedeu, o Leo Rossi disse-me era um combate que ele quer muito fazer…
Então é isso: o Pai Grande quer, o rei do Porto quer. O Wrestlefest e a Invicta Wrestling vão fazer acontecer.
 
Já sofreste alguma lesão grave?
Já. Muitas, infelizmente. Daí dizer que o wrestling não é para todos. Já sofri lesões que, depois delas, sei claramente que muita gente não iria voltar. Já desloquei os dois fémures num treino há muitos anos, perdi um dente, desloquei um ombro e torci dedos. Há dois anos tive um problema graves nas costas, que me dava muitas dores e mal conseguia respirar. Felizmente, o osteopata lá conseguiu tratar.
Já faço isto há uns 14 anos e há mazelas que ficam e não há nada a fazer. Então a minha rotina semanal é fazer os treinos de wrestling, alongar bastante, ir ao ginásio para manter o corpo o mais apto possível para o wrestling e todos os meses ir ao nosso massagista, que é o Diogo, que faz parte de Neovital, que é um dos patrocinadores da Invicta Wrestling e faz massagens à malta e está, por exemplo, nos eventos. E às vezes também vou ao osteopata para ver se está tudo OK. Já tive muitas lesões, já caí muitas vezes de cabeça, já saí muitas vezes com o pescoço completamente dorido e os joelhos arrebentados, mas felizmente nada que me impeça de fazer aquilo que amo.

“A minha avó odeia o Gomes de morte”

Na Taça Tarzan Taborda de 2014
Para terminarmos com chave de ouro, peço para que contes a história mais hilariante que viveste relacionada com wrestling…
Há muitas histórias, mas esta foi a primeira que me veio à cabeça. Acho que ainda não era vegan ou estava na transição para vegan, e penso que até foi na Taça Tarzan Taborda de 2014. Fiz um combate com o Ramon [Vegas] e correu super bem, foi o meu primeiro combate oficial. Ele deu-me com uma corrente na cabeça e perdi o combate. Liguei à minha família e mantinha o kayfabe, então disse que levei com uma corrente na cara, desmaiei, ele ganhou o combate e por causa disso não consegui vencer.
Nessa noite, a malta decidiu ir ao Burger Ranch ou ao Burger King comer e eu estava cheio porque já tinha comido no backstage, mas pedi um hambúrguer e pus o hambúrguer num bolso dos meus calções. Entretanto, fomos dormir onde era o antigo centro de treinos da APW e simplesmente adormeci com o hambúrguer no bolso. No dia seguinte acordei, estava cheio de fome, procurei nos meus bolsos e encontrei um hambúrguer espalmado para comer. A malta disse para não comer, mas comi-o.
Mas a parte mais gira desta história e desta tour foi quando voltei a casa. Eu estava bem, mas a minha família estava super preocupada porque eu tinha desmaiado por ter levado com uma corrente na cara. Cheguei, sentei-me ao pé da minha tia e disse-lhe que estava bem e que, no wrestling, podemos mostrar que estamos a matar-nos uns aos outros, mas que somos amigos. A minha tia não achou piada a esta história, porque a minha avó ficou em pânico e pensava que eu tinha mesmo desmaiado a sério. Então a minha tia saca de um chinelo e começa a dar-me com o chinelo, vezes e vezes e vezes sem conta, e aquilo sim doeu. E ela só me disse assim: “tu nunca mais mintas à tua avó”. E foi uma lição que nunca mais vou esquecer. Hoje em dia, sempre que tenho uma performance que sei que é mais agressiva, digo à minha família: “olhem, hoje vai ser puxado, mas digam à avó que vou estar bem”. Quero que ela sofra, mas não que sofra ao ponto de ficar mesmo muito mal.
 
Baltazar, campeão da APW e com a cabeça rapada
Mas alguém do teu lado não reagiu bem ao corte de cabelo em pleno ringue…
Eu não disse a ninguém que ia rapar o cabelo. Ninguém sabia. Infelizmente, ou felizmente, o Gomes, quando me estava a rapar o cabelo, decidiu mandar um bocadinho de cabelo à minha avó. O meu afilhado, que estava ao lado dela e naquela altura se calhar tinha uns 14 anos, revoltado com essa imagem, pegou numa cadeira e mandou-a ao Gomes. Pessoalmente, achei aquilo muito fixe. Mas por favor, fãs de wrestling, nunca façam isto! Tive de pedir desculpa ao WP, com todo o respeito. Mas o facto de o meu afilhado, menor de idade e pequenino, ter olhado para um monstro como o Gomes e defendido a minha avó daquela forma, deixa-me orgulhoso. No entanto, por favor, nunca façam isso por mais chateados que fiquem com aquilo que fazemos em ringue.
Gosto muito de picar a minha família. No Porto Wrestlefest: Bingança!, tive lá família que nunca tinha ido ver wrestling: família do Porto, o meu pai que veio de Pombal e que já não me via lutar desde o WP Academia 5, ou seja, nunca me viu lutar como homem adulto. Eles preocupam-se muito e gosto que sejam fãs no dia do show, não gosto que saibam as coisas, porque para mim isso tira a magia. Claramente não condeno a ação do meu afilhado. Tivemos de pegar nele e levá-lo para o backstage. Ele estava em lágrimas, super revoltado com a situação, mas lá o conseguimos acalmar e o WP fez um trabalho espetacular a acalmá-lo. E ficámos todos bem. Mas, ainda hoje, a minha avó não gosta do Gomes. Odeia o Gomes de morte. O que eu recebi no Bingança! foi muito carinho e a minha família dizia que eu era o orgulho deles e agradeceram-me por lhes proporcionar estes momentos de tanta felicidade. E isso para mim, at the end of the day, é o que conta mais. 







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