quarta-feira, 10 de abril de 2024

“Curta, dececionante e explosiva”. Recorde a aventura de Futre no Marselha

Futre somou dois golos em oito jogos pelo Marselha
No Verão Quente de 1993, que ficou marcado por Paulo Sousa e Pacheco terem rescindindo unilateralmente contrato com o Benfica devido a salários em atraso e assinado pelo Sporting, Paulo Futre, que estava há menos de meio ano na Luz, decidiu não seguir o exemplo dos ex-companheiros de equipa e assim proporcionar um encaixe financeiro aos encarnados.
 
“Eu também podia rescindir e sair para um clube estrangeiro a custo zero. O Marselha pagou 3,5 milhões de euros ao Benfica pelo meu passe. O mesmo que o Atlético de Madrid tinha recebido uns meses antes. Podia ter invocado justa causa, tornar-me jogador livre e ficar com esse valor só para mim (ou, pelo menos, negociar uma parte substancial para receber logo à cabeça). Só não o fiz pelo grande senhor Jorge de Brito. Sempre me tratou com enorme correção e não merecia que eu saísse dessa maneira”, contou Futre no livro El Portugués.
 
Na altura, o Marselha tinha acabado de vencer a Liga dos Campeões e era a grande equipa europeia daquela época, o que para o internacional português era uma grande oportunidade para, aos 27 anos, regressar ao topo do futebol mundial. O que o montijense não esperava era ter saído de um pesadelo em Portugal para viver outro em França.
 
As coisas até nem começaram a correr mal no Velódrome. Futre, cujo joelho direito começava a apresentar sintomas de tendinite severa, conseguiu enganar o responsável clínico dos marselheses durante os exames médicos. Caso tivesse chumbado, seria devolvido ao Benfica e teria de ir para a tropa. Experiente, confessou ter “um pequeno toque no joelho direito” para que o médico se focasse no joelho esquerdo, tendo-o torcido, carregado e alongado. “Se me fizesse isso ao joelho direito (o que me doía) apanhava-me no mesmo instante porque eu não iria aguentar. Teria de gritar”, recordou.
 
A lesão até poderia ser curada com recurso a uma cirurgia – “bastava limpar o tendão rotuliano” e “um tempo de recuperação de dois a três meses” –, mas Futre quis agarrar um lugar no plantel do Marselha e foi resistindo, treinando e jogando com recurso a um anti-inflamatório. 
 
O problema foi que os sacrifícios não valeram a pena. Além de a tendinite se ter agravado, poucos dias após ter assinado contrato rebentou em França um dos maiores casos de corrupção desportiva de sempre, a envolver precisamente o Marselha.

 
Na época anterior, os marselheses estavam a lutar pelo título nacional e pela Champions na reta final da temporada. Poucos dias antes de disputarem a final da Liga dos Campeões diante do AC Milan, mediram forças com o Valenciennes numa partida do campeonato. Para não comprometer os seus objetivos, o presidente Bernard Tapie quis dar descanso a alguns dos seus melhores jogadores e utilizou o seu médio Jean-Jacques Eydelie para entrar em contacto com três jogadores do Valenciennes (Jacques Glassmann, Jorge Burruchaga e Christophe Robert) e tentar suborná-los. Correu bem, com o Marselha a vencer esse jogo e a final da Champions.
 
Contudo, meses depois o esquema acabou por ser descoberto, tendo ficado conhecido como o escândalo VA-OM (Valenciennes – Olympique Marselha). Quando interrogados, os jogadores do Valenciennes revelaram tudo, com o Marselha a ser imediatamente banido das competições europeias e a ver anulado o título francês de 1992-93.
 
Como vencedor da Champions, era suposto que Marselha disputasse a Supertaça Europeia e Taça Intercontinental, mas esses direitos também lhe foram retirados como parte do castigo. Futre, que não havia vencido a Intercontinental pelo FC Porto por se ter transferido para o Atlético de Madrid logo após a conquista do título europeu, voltou a não disputar esse troféu que opunha o campeão da Europa ao vencedor da Libertadores.
 
Bernard Tapie foi condenado a dois anos de prisão e, como consequência do escândalo, os salários aos jogadores deixaram de ser pagos. “Recebi salário apenas nos primeiros dois meses. Todos os jogadores foram autorizados a procurar clube. Essa foi a primeira vez que abriu o mercado de inverno, mas estava em vigor a regra que limitava o número de estrangeiro a três por plantel. E, nessa altura, a maioria dos clubes grandes já tinha as vagas preenchidas para jogadores nascidos noutros países. Ainda assim fiz alguns bons jogos, marquei dois golos e consegui sair em novembro. Chegava ao fim a minha aventura no Marselha: curta, dececionante e explosiva”, confessou Futre, que acabou 1993 a jogar nos italianos do Reggiana, já depois de ter representado Atlético de Madrid e Benfica no mesmo ano. Pelo meio, disse “não” ao Real Madrid, com receio de perder o estatuto de símbolo colchonero e de colocar a segurança da família em risco. 



 





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