quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Sala, "o bom rapazito" que dava "porrada" nos veteranos dos distritais alentejanos

Emiliano Sala estava no Nantes desde o verão de 2015
Emiliano Sala, avançado argentino de 28 anos, viajava de Nantes para a capital do País de Gales esta segunda-feira à noite quando o avião privado em que seguia desapareceu dos radares, não tendo ainda sido encontrado pelas autoridades. O jogador tinha acabado de assinar contrato com o Cardiff, da I Liga inglesa, a troco de 17 milhões de euros. Autoridades continuam as buscas a norte da ilha de Alderney, no Canal da Mancha.


A estreia na liga inglesa, que podia acontecer no dia 29 em casa do Arsenal, seria o culminar de um percurso ascendente na Europa, iniciado em 2009/10 no... FC Crato, equipa dos distritais de Portalegre. "A contratação dele deu-me um bocadinho de trabalho, porque fui eu próprio que fui buscá-lo a Málaga, onde tive meia hora para comer um bifinho de cebolada enquanto ele preparava as malas. Regressámos ao Crato por volta das 19.00, já com o treino a decorrer, e ele equipou-se e foi treinar. Tínhamos cá dois argentinos que o recomendaram e integrou-se bem porque tinha cá dois compatriotas. Era um jovem com 18 aninhos mas já mostrava as qualidades que exibe agora. Tínhamos no plantel alguns veteranos que passaram pela II Divisão e diziam: 'Porra, em vez de darmos porrada ao miúdo é o miúdo que nos dá porrada a nós!'", contou ao DN o presidente do clube alentejano, José Manuel Curado, que recorda "um bom rapazito".

Não regressou depois do Natal

Se José Curado teve apenas meia hora para comer enquanto esperava por Sala, o futebolista teve de aguardar quase três meses pelo certificado internacional e consequente inscrição, mas acabou por realizar apenas um jogo. Suficiente para mostrar serviço. "Esteve a treinar connosco durante três meses enquanto chegava o certificado internacional, depois inscrevemo-lo, fizemos um jogo de apresentação com um clube vizinho, o Gafetense, e ele marcou dois golos. Ele destacava-se nos treinos", narrou o presidente do FC Crato.

No entanto, quando se pensava que a equipa tinha mais uma arma para lutar pela subida à já extinta III Divisão, a quadra natalícia trouxe uma surpresa desagradável. "Eles os três foram à Argentina, mas só voltaram os outros dois, que justificaram a ausência dele com a namorada. Depois perdemos-lhe o rasto", lembrou o líder do emblema alentejano. "Mais tarde vimos que foi para França, da III Divisão para o Bordéus e do Bordéus para o Nantes. Fomos acompanhando-o através das redes sociais", acrescentou.
O cartão de Sala quando representou o clube alentejano

Contratação mais cara do Cardiff

No Nantes, o argentino virou uma das figuras de um campeonato dominado pelo Paris Saint-Germain. Mas logo a seguir ao trio parisiense composto por Mbappé, Neymar e Cavani, e a Nicolas Pépé, do Lille, era o melhor marcador da liga francesa. Já tinha mostrado serviço há duas épocas, sob a orientação de Sérgio Conceição e com a companhia de Sérgio Oliveira no plantel, e na temporada passada, mas era agora que estava definitivamente a explodir.

Os bons desempenhos fizeram dele um dos avançados mais procurados da janela de inverno do mercado de transferências e acabou por ser o Cardiff a pagar 17 milhões de euros pelos préstimos de Sala, fazendo dele o reforço mais caro da história do clube através de um negócio oficializado no sábado. Entretanto, o FC Crato, atual 3.º classificado nos distritais de Portalegre, começou a movimentar-se no sentido de receber uma pequena percentagem desse valor relativa a direitos de formação. "Ontem à tarde reunimo-nos com advogados e tínhamos reunião agendada para hoje. O que vimos é que cada ano de formação dá direito a 0,10 % da transferência, ou seja, rondava os 17 mil euros. Devia ser isso. Estávamos a fazer diligências, mas hoje acordámos com esta notícia...", lamenta José Curado, que esperava utilizar essa verba para estabilizar as "continhas" e desenvolver as camadas jovens do clube.

"Estou a acompanhar esta situação com tristeza, passados estes anos todos", confessou o presidente do clube alentejano, que ainda assim não perde a esperança: "A esperança é a última a morrer. Temos o exemplo do que está a acontecer em Málaga: o miúdo está num poço há vários dias e as pessoas esperam tirá-lo de lá com vida. Até aparecerem os corpos..."










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